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"Make America Great Again": os políticos do Paraná que parecem se importar bastante com os EUA

Representantes da direita no estado consideram legítimo o presidente de outro país interferir em assuntos internos do Brasil

"Make America Great Again": os políticos do Paraná que parecem se importar bastante com os EUA
Publicações do ex-procuador Deltan Dallagnol e dos vereadores Eder Borges e Guilherme Kilter (Reprodução/Instagram)
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Pegou mal para o governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas (Republicanos), a foto publicada em janeiro em que ele aparecia com o boné vermelho da campanha de Donald Trump e a inscrição "Make America Great Again" ("Faça a América Grande Novamente"), o mote da candidatura de extrema direita. Depois do anúncio da taxação de 50% dos produtos brasileiros por Trump, na quarta-feira (9), Tarcisio silenciou sobre o assunto, já que a indústria do aço de São Paulo deverá ser uma das mais prejudicadas.

Entre bolsonaristas com cargos menos importantes (e que não têm no horizonte a disputa pela presidência), a defesa de Trump e dos Estados Unidos é aberta. Replicam a versão de que a culpa pela taxação é do governo brasileiro e do Supremo Tribunal Federal (STF), como se não houvesse questões geopolíticas em jogo e uma guerra comercial em curso.

Alguns enaltecem a atuação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), tido como grande articulador do tarifaço, que sobrevive nos Estados Unidos com o dinheiro enviado pelo pai Jair, como o ex-presidente revelou à Polícia Federal.

Entre parlamentares do Paraná, estado que deu 62,40% dos votos para Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2022, o apoio a Trump ficou explícito no ano passado. Desde que ele voltou ao poder, em janeiro, todas as suas ações são vistas como positivas – inclusive perseguição e deportação de brasileiros, que viraram meme no perfil do vereador de Curitiba Olímpio de Araújo Júnior (PL).

Em janeiro, a Câmara de Curitiba dedicou boa parte da primeira sessão do ano para debater uma moção de louvor a Donald Trump. Proposta por Eder Borges (PL), a moção foi aprovada por ampla maioria. “Acha mesmo que Trump é um aliado?", questionou Giorgia Prates (PT), que classificou a iniciativa como uma amostra de “síndrome de vira-lata”. 

Guilherme Kilter: vereador em Curitiba, torcedor de empresário (Reprodução)

Também em janeiro, o presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, Filipe Barros (PL-PR), apareceu em um vídeo com o boné vermelho do MAGA. O tema do vídeo era a saúde pública – justamente o que pode estar sendo destruído de vez pelo pacote de medidas de Trump aprovado no início do mês pelo Congresso estadunidense, que reduz drasticamente os recursos do Medicaid, a já insuficiente assistência médica no país.

Na semana passada, horas antes de a taxação ser anunciada, a Comissão de Relações Exteriores aprovou uma moção de louvor ao presidente, proposta pelo deputado Sóstenes Cavalcanti (PL-RJ). Após o anúncio do tarifaço, Barros (que costuma aparecer em fotos com Eduardo Bolsonaro) discursou no plenário da Câmara e culpou Lula, segundo ele um "vira-latas" e um "puxa-saco de ditadores".

República bananeira

A direita paranaense tem repetido que a medida de Trump se deve à "caça às bruxas" contra Jair Bolsonaro. Pessoas com formação em Direito – como o deputado estadual Delegado Tito Barichello (União); sua mulher, a também delegada e vereadora Tathiana Guzella (União); e o ex-procurador da República Deltan Dallagnol (Novo) – parecem considerar legítimo o presidente de outro país interferir na Justiça brasileira com a imposição de taxas – algo que poderia atualizar o significado do termo "república das bananas".

Com o discurso do combate à corrupção e da moralidade, silenciam sobre as 34 condenações de Donald Trump por fraude contábil – uma delas inclui o pagamento de 130 mil dólares à atriz pornô Stormy Daniels, suborno ocultado com a falsificação de registros contábeis.

O deputado Tito Barichello, a vereadora Tathiana Guzella e o ex-procurador Deltan Dallagnol: presidente de outro país tem o direito de intervir em corte brasileira (Reprodução/Intagram)

Aumento de preços e escassez

Do ponto de vista econômico – apesar da boa vontade dos bolsonaristas –, a taxação não faz o menor sentido nem para os Estados Unidos, diz João Alfredo Lopes Nyegray, mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia, especialista em Negócios Internacionais e Relações Internacionais e professor de Geopolítica da PUCPR. E ainda tem um componente fortemente político.

“Esses tarifaços fazem parte de uma promessa de campanha do Trump que vem muito na esteira do MAGA. Ele está cumprindo uma promessa de campanha, embora economicamente isso não seja viável para os Estados Unidos. Ele começou uma guerra comercial com o mundo todo, está politizando o comércio internacional", diz Nyegray. "No nosso caso, é muito mais uma questão política do que apenas econômica".

Trump tem recuado dos tarifaços impostos a outros países, mesmo porque, segundo Nyegray, a médio prazo o protecionismo só traz prejuízos. "Não é porque o Donald Trump quer, que certas coisas vão começar a ser fabricadas nos Estados Unidos. É necessário que as cadeias de produção se reorganizem para suprir o que vai ficar muito caro. A carne brasileira que entra lá vai ficar mais cara. Será que os produtores estadunidenses vão conseguir suprir o próprio mercado? Em médio prazo, o protecionismo tende a gerar aumento de preços e escassez".

O vereador Guilherme Kilter e seu colega de Câmara Olímpio Araújo Júnior, que parece ter aprovado as deportações de brasileiros (Reprodução/ Instagram e X)

Brics na mira

Também pode ser errônea a percepção de que a ação de Trump se deva à influência de Eduardo Bolsonaro ou a alguma preocupação com o futuro de Jair Bolsonaro. O processo contra o ex-presidente pode ter sido apenas um pretexto, já que Trump anunciou a taxação dias depois da cúpula do Brics, no Rio de Janeiro.

"Como anfitrião da cúpula e como articulador de uma declaração conjunta, crítica ao sistema global orientado pelos Estados Unidos, o Brasil se tornou um alvo preferencial", diz Nyegray. "O Brasil defende a multipolaridade, a reforma Conselho de Segurança da ONU, a renegociação das cotas do FMI, e condena ações militares que não passam pelo Conselho de Segurança, como a que os Estados Unidos e Israel fizeram no Irã. Tais posições confrontam diretamente o projeto de Trump de afirmar os Estados Unidos como poder incontestável na ordem global.”

"Trump já tinha falado que puniria países que tomassem 'medidas antiamericanas'. Só que não teve nenhuma 'medida antiamericana' na cúpula do Brics. O que teve foram países buscando se organizar economicamente, criticando o unilateralismo dos Estados Unidos e buscando saídas alternativas multilaterais".
João Alfredo Lopes Nyegray, mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia e professor da PUC-PR

Postagem do deputado federal Reinhold Stephanes (PSD) após a vitória de Trump: o "novo tempo" começou com taxação do agronegócio em 50%; ao lado, Filipe Barros com o boné da campanha (Reprodução/Instagram)

Diplomacia do bullying

Nyegray define a diplomacia de Trump como "diplomacia do bullying". "A gente está vendo a destruição da ordem multilateral de comércio estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. Essas questões eram debatidas em fóruns multilaterais. Não acredito que seja possível qualquer avanço a partir de atos unilaterais. Estamos vendo o caminho oposto: unilateralismo, isolacionismo e o uso de desinformação, o que eu chamo de diplomacia do bullying".

"Os Estados Unidos são o segundo maior destino das exportações brasileiras, apenas atrás da China. Tem algum tempo que a gente importa mais do que exporta para lá. Ou seja, Trump está errado ao dizer que o fluxo de comércio é negativo para os Estados Unidos, porque não é".
João Alfredo Lopes Nyegray, mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia e professor da PUC-PR

 

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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