O custo real do transporte coletivo em Curitiba se manteve próximo de R$ 10 por passageiro em março. Dados de pagamentos feitos às empresas concessionárias mostram que o valor pago por passageiro permaneceu em R$ 9,79 em fevereiro e março deste ano.
A tarifa paga às empresas é R$ 3,79 acima do valor arrecadado na catraca, hoje em R$ 6,00 por passageiro. Essa diferença é paga pelo tesouro municipal. Só nos três primeiros meses de 2026, os contribuintes da cidade bancaram R$ 96 milhões de déficit do sistema. Se a média mensal se mantiver, a cidade terá injetado R$ 384 milhões até dezembro na Rede Integrada de Transporte.
O cálculo da tarifa técnica considera uma série de custos operacionais do sistema, que incluem combustível, salários, manutenção e aquisição de veículos. Entre os insumos usados na planilha da Urbanização de Curitiba (Urbs), o diesel S10 aparece com valor de R$ 4,3985 por litro, com isenção de ICMS. Outros itens relevantes são os pneus — que variam de R$ 1.243,26 a R$ 3.397,84 por unidade, dependendo do modelo — e serviços de recauchutagem que podem chegar a R$ 1.103,13 por pneu.
Também entram no cálculo os custos de pessoal e da frota. O salário-base considerado para motoristas é de R$ 3.504,48 e para cobradores de R$ 1.985,81, além de benefícios como cesta básica de R$ 899,30, plano de saúde de R$ 120,96 e seguro de vida de R$ 12,15 por funcionário. A planilha também incorpora o valor dos veículos utilizados no sistema, que vai de cerca de R$ 224 mil para micro-ônibus até aproximadamente R$ 1,95 milhão para ônibus articulados de 20 metros, além de mais de R$ 3 milhões para veículos elétricos.
Esses componentes são atualizados periodicamente por índices econômicos e acordos coletivos — como o reajuste salarial de 5,17% da categoria e variações de custos medidas por índices da Fundação Getulio Vargas — e formam a base para o cálculo do valor pago às concessionárias por passageiro transportado.
Tarifa x preço do diesel
A comparação entre a tarifa técnica do transporte coletivo e o preço do diesel mostra que o custo real do sistema cresceu de forma mais intensa que o combustível nos últimos anos. Em março de 2022, a tarifa técnica era de R$ 6,37, enquanto o diesel S10 custava R$ 6,26 por litro. Em março de 2026, a tarifa técnica chegou a R$ 9,79, enquanto o diesel S10 está em R$ 6,05. Isso significa que, no período, a tarifa técnica acumulou aumento de cerca de 53,7%, enquanto o diesel S10 teve leve redução de aproximadamente 3,3%. Ou seja, o principal insumo energético do transporte coletivo não explica, sozinho, a escalada do custo por passageiro pago às concessionárias.
A série também mostra que a tarifa técnica oscila muito mais que o diesel ao longo do tempo. Entre outubro de 2024 e março de 2026, por exemplo, o diesel S10 variou em torno de R$ 5,80 a R$ 6,10, uma faixa relativamente estreita. Já a tarifa técnica saltou de R$ 6,42 (out/2024) para R$ 9,79 (mar/2026), com sucessivas revisões ao longo do período. Enquanto isso, a tarifa social permaneceu praticamente congelada em R$ 6,00 desde 2023, ampliando a diferença entre o valor pago pelos passageiros e o custo técnico do sistema — diferença que precisa ser coberta por subsídios públicos. O comportamento dos dados indica que outros fatores, como reajustes contratuais, custos operacionais e queda de demanda, têm peso maior na evolução do custo do transporte do que o preço do diesel isoladamente.