O racha na aliança do governador Ratinho Jr (PSD) já produziu efeitos na base do governo Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Nesta segunda-feira (30 de março), o deputado Ricardo Arruda (PL) atacou duramente o secretário estadual da Saúde, Beto Preto, a quem chamou de “vergonha para o Estado”. O PL abandonou a aliança com Ratinho e filiou na semana passada o senador Sergio Moro, que vai concorrer ao governo pelo partido.
Após passar dois mandatos sem criticar e sequer questionar o governo de Ratinho Jr na Alep, Ricardo Arruda usou a tribuna para cobrar de Beto Preto o fim da aplicação da vacina contra a covid em crianças no Estado. Segundo o bolsonarista, “está comprovado pela ciência” que o imunizante aumentou o número de mortes súbitas.
“Se tivesse um secretário responsável, quando começasse a aumentar o número de mortes, mandaria investigar. Ele (Beto Preto) finge que nada está acontecendo e ainda fica pressionando o Conselho Tutelar e promotores para injetar esse veneno nas crianças. O senhor é uma vergonha para o Estado do Paraná. Quem não respeita a vida de crianças não merece o respeito de ninguém”.
A falta gerou reações de governistas e oposicionistas. “O secretário Beto Preto fez um belíssimo trabalho no estado do Paraná. O Paraná viveu um momento de tragédia”, rebateu o líder da bancada governista, Hussein Bakri (PSD).
Tercílio Turini (MDB) lembrou que as epidemias de sarampo e meningite matavam antes das vacinas. “A gente não tem o direito de concordar com o que o deputado (Arruda) fala. Esse país já foi referência na vacinação. Sou médico formado em 1975 e nós não tinhamos esse arsenal. Lembro da mortalidade brutal das epidemias de sarampo”.
“A fala do deputado Ricardo Arruda e de tantas outras pessoa não ajuda. A discussão da vacinação contra o coronavírus afetou todas as vacinas. Nós caímos nos índices para situações perigosas. Doenças que já tinham sido erradicadas começaram a voltar. Falar contra a vacina, contra a ciência, é falar contra a população. Foi a chegada das vacinas que mudou o curso da pandemia”.
Tercilio Turini (MDB), deputado estadual
Líder da oposição, Arilson Chiorato (PT) disse que está “caindo a maquiagem” do governo. “Ver a base do Ratinho trocar farpas entre ele mesma não tem preço. Não tem como não dar risada do que vem acontecendo, ver deputado criticar secretário de Saúde. Estamos a cinco meses da eleição e não tem um nome (de candidato ao governo apoiado por Ratinho Jr), de tanta dificuldade de organizar para quem não te habilidade política e viveu de propaganda. E essa é a base do governo”.
Dr. Antenor (PT), que é médico, negou a fala de Arruda e disse que o bolsonarista fez um discurso “para a bola”. “Efeito colateral pode ocorrer, mas é pequeno perto do que ocorre na doença. A miocardite é 1.600% mais incidente naquele tem que a doença. E a gente escuta essa besteira aqui, de uma pessoa que traz falsos estudos.
“Perdemos tempo com essa gente no governo, tivemos um general no Ministério da Saúde. O presidente da República (Jair Bolsonaro) queria ganhar um dólar por vacina”.
Dr. Antenor (PT), deputado estadual
“Quase ninguém”
Ricardo Arruda, que cobrou “respeito pela vida das crianças”, chamou de “quase ninguém” as mais de 1,7 mil crianças que morrerem em decorrência da covid no país entre 2020 e 2022. Em entrevista a um jornal de Marechal Cândido Rondon em abril de 2025, o bolsonarista disse que crianças com idades entre 6 meses e 5 anos de idade não foram atingidas pela covid durante a pandemia. "Criança nessa idade não teve, durante a pandemia, nenhum problema com covid. Em porcentagem, quem teve problema nessa idade foi 0,002%. É quase ninguém".
Segundo dados do Ministério da Saúde, publicados pela Agência Brasil em junho de 2022 (durante o governo de Jair Bolsonaro), a covid matou 599 crianças com menos de 5 anos de idade em 2020. Outras 840 morreram em 2021 (539 delas tinham entre 6 meses e 3 anos). Na média, duas crianças nessa faixa etária morriam por dia no Brasil em decorrência da doença. Em 2022, foram 314 mortes, de acordo o Instituto Butantan.