Quem vê Dorinha em sua casa no Cajuru, zona leste de Curitiba, não tem ideia do que ela passou para chegar até ali. Doada pela família, trabalhou em condições análogas à escravidão, foi humilhada e vítima de preconceito durante a infância toda e chegou a ser largada para morrer no meio da mata. Se hoje, aos 65 anos, tem casa e família e seu tanto de saúde é porque conseguiu resistir a tudo isso de maneira quase inacreditável.
Dorinha do Carmo Mathias cresceu no Norte do Paraná. Seu pai era mineiro e a mãe era indígena. O pai, parte de uma família de garimpeiros, procurou uma vida melhor no Paraná com seus dois irmãos. No entanto, após algumas decisões ruins com o dinheiro que trouxe, voltou à vida de garimpeiro pelas fazendas do estado.
A mãe, mulher corajosa e companheira, gostava de plantar, nunca conseguia ficar por muito tempo na mesma propriedade, pois acabava acompanhando o marido em cada troca de trabalho e levando junto os filhos. Dorinha tinha sete irmãos e conta que a vida era difícil; o pai trabalhava de manhã para trazer a comida à noite, e eles andavam de fazenda em fazenda sem endereço fixo.
A família era católica, e as crianças foram ensinadas a rezar para pedir segurança e respeito aos anjinhos da guarda, para nunca fazerem ou receberem o mal. Eles moravam numa colônia, numa casa perto do local onde o pai trabalhava. Mas as coisas só se complicavam. A mãe de Dorinha adoeceu gravemente e faleceu.
Morte e alcoolismo
Dorinha conta que o pai era muito querido, trabalhador e contador de histórias. Na colônia, as crianças vinham para ouvi-lo contar histórias. Ele fazia questão de proporcionar um Natal alegre para suas crianças, mesmo sem ter muito, e tornava o dia especial com suas histórias sobre o Papai Noel.
Depois que sua mãe morreu, porém, o pai, antes alegre, passou a chorar pelos cantos da casa, começou a beber mais e se tornou alcoólatra. Em uma de suas mudanças de fazenda, ele encontrou um casal que não tinha filhos e cuidava de um sítio. Eles se aproximaram e fizeram uma proposta: “Seu Eldebrando, sabemos que o senhor é viúvo e tem umas crianças ainda pequenas, e nós não temos filhos. O senhor não quer nos dar uma de suas meninas?”.
A situação da família era precária e o pai achou que Dorinha se daria muito bem com a família, que até onde ele sabia eram pessoas boas, membros da Congregação Cristã. Mas ele não tinha como saber que, debaixo da fachada de bons cristãos, havia demônios.
Sofrimento e cicatrizes
O sofrimento da menina começou assim que ela ficou a sós com a nova família. Preconceito racial, maus tratos e trabalho duro seriam sua rotina a partir dali - e por muitos anos.
Dorinha ainda hoje lembra o dia em que Dona Sebastiana decidiu arrumar seu cabelo a seco, sob o olhar de vizinhas curiosas. "Ela e as vizinhas tiravam sarro do meu cabelo", conta ela. "Uma delas até falou para jogar água morna, mas Dona Sebastiana disse que não adiantava porque 'cabelo de preto não entra água'". Acreditando naquela mentira horrível, a menina não ousou mais molhar o cabelo dali em diante.
Pouco depois, debaixo de uma laranjeira no sítio, Dona Sebastiana colocou a pequena menina de cabelo crespo sentada com algo na mão – Dorinha diz que não lembra muito bem, mas acha que foi uma gilete – e raspou completamente os cabelos crespos da criança, deixando-a careca.
E a mulher de pele clara fez questão de exibir Dorinha pela vizinhança, proclamando: "Ela é porca, não penteia o cabelo, por isso que raspei". A pequena Dorinha, mesmo em sua pouca idade, lembra-se da dor profunda: "Doía na alma não ter o meu cabelo", ela confessa.
Ameaças e surras
A tragédia se intensificou quando, num raro reencontro com o pai, Dona Sebastiana avisou: "Não vai falar nada para ele, senão vai ver o chicote." O medo de Dorinha foi grande, que não ousou revelar como era tratada.
Sebastiana era cada vez mais maldosa com a menina: batia, obrigava a limpar, cuidar dos bichos, e ai dela se ela fizesse qualquer coisa que a mulher julgasse errado - logo vinha o castigo. Dorinha era forçada a cumprir todas as ordens da mulher, movida pelo pavor das agressões.
Dona Sebastiana era o símbolo da religiosa hipócrita. Na igreja, era a "abençoada", mas em casa maltratava todos ao seu redor. Mas o destino, por vezes, cobra seu preço. Uma série de infortúnios se abateu o sítio: as galinhas morreram, as lavouras de café foram devastadas por uma geada. Com a ruína, o proprietário expulsou Sebastiana e sua família.
A família se mudou para a área urbana de Ibaiti. Foi nesse período que Sebastiana acolheu outra criança, uma menina branca, a quem tratava como rainha, enquanto a pequena Dorinha era forçada a cuidar dela o tempo todo e a realizar todas as tarefas. "Negro nasceu para trabalhar", era o que a menina ouvia.
A família abriu um açougue, mas o negócio faliu, e só deixou dívidas. Pressionados pela comunidade, que repudiava sua hipocrisia religiosa e a forma como tratavam as pessoas, fugiram com o pouco que tinham para Guarapuava, em busca de trabalho no corte de madeira.
Por um triz
Tempos depois, saindo de Guarapuava, a família partiu novamente de caminhão para um novo trabalho em Monte Alegre, no norte do Paraná, para cortar mais madeira. No veículo, amontoadas, estavam cinco famílias. Ao chegarem ao alto da Serra do Cadeado, o caminhão parou perto de uma encruzilhada, em meio a estradas desertas onde era feito o carregamento da madeira. Ao redor, apenas algumas casas com plantações e árvores baixinhas.
Sebastiana, com o rosto contraído pela raiva e impaciência, fumava um cigarro de palha, visivelmente angustiada para que o caminhão partisse. Foi ali, naquele lugar desolador, que ela pegou a pequena Dorinha pela mão e a levou para o lado de fora, sussurrando uma ordem cruel: "Eu vou voltar para o caminhão e você fica escondida aí e não chora, não quero que vá com a gente para o lugar que vamos morar".
Sebastiana não tolerava as lágrimas de Dorinha, nem mesmo quando a menina apanhava de chicote; a menina precisava respirar fundo para as lágrimas não escaparem. Mas quando Dona Sebastiana virou as costas e voltou para o caixote do caminhão, a realidade do abandono atingiu Dorinha com força brutal. Em sua incompreensão e desespero de criança, o medo e a solidão de um futuro incerto a dominaram. As lágrimas, que tanto reprimia, não puderam mais ser contidas. Ali, sozinha no meio do nada, Dorinha desabou em choro.
A menina apelou para sua fé. Em voz pequena, ela repetiu a reza que a mãe lhe havia ensinado, um apelo instintivo aos céus: "Santo anjo meu senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me guarda, me rege governa e ilumina, amém.”
Para o alívio de Dorinha, a ajuda não tardou. Quando o motorista perguntou se todos estavam no caminhão, uma senhora que havia visto o comportamento de Sebastiana avisou que a garota não estava a bordo. Todos saíram para procurá-la; Sebastiana, obrigada a se juntar à busca, passou pelo local onde havia abandonado Dorinha e, em tom baixo e ameaçador, ordenou: "Saia daí, mas se você contar para alguém eu te mato quando a gente chegar lá".
Quando Dorinha emergiu, o choro era incontrolável. Diante das lágrimas da menina, Dona Sebastiana, sem qualquer pudor, começou a bradar: "Essa negra que só atrapalha, fez a gente perder tempo! Eu falo para vocês que essa menina só incomoda e nem imagina a surra que vai levar."
Desamparo
Após a difícil jornada, o caminhão finalmente chegou a Telêmaco Borba. Havia uma promessa de ajuda com moradia de uma família local, mas, ao testemunharem a crueldade de Sebastiana – especialmente o tratamento dado à menina que agora tinha 9 anos –, eles se recusaram a oferecer o auxílio. O caminhoneiro, percebendo a gravidade da situação, ofereceu-se para esperar enquanto eles tentavam encontrar outro lugar.
Durante uma pausa para comer, Sebastiana disse que só haveria comida para ela, a pequena Elizabeth e Seu Zé. Para a "negra", a ordem foi clara: "vai pedir para as pessoas". Andando em busca de alimento, Dorinha encontrou um bar repleto de homens embriagados. Com a coragem de uma criança em desespero, ela contou sua história de maus-tratos. Em um gesto de humanidade, os homens lhe deram "a melhor comida que já comeu", como ela se recorda. Dorinha levou o restante para Sebastiana, que não a espancou naquela tarde.
O motorista insistiu para que a família decidisse se continuaria ali e mencionou que seguiria para Tibagi. Lá, segundo ele, havia fazendeiros muito ricos, os Roderjan, que precisavam de pessoas para cuidar de porcos e pomares. Talvez lá eles pudessem conseguir emprego. A família, sem alternativas, pegou novamente a estrada, rumo a Tibagi.
Na fazenda dos Roderjan, a vida de Dorinha continuou sob o jugo de Sebastiana. A menina era a responsável por cuidar do pomar e dos porcos, e não tinha trégua nas tarefas domésticas e no cuidado da menina Elizabeth. Seu Zé, por sua vez, trabalhava na parte de cima da fazenda. A rotina de Dorinha incluía um trajeto diário perigoso para levar a marmita do pai de Elizabeth: cruzando estradas, atravessando um longo rio e desviando de bois bravos. Tudo isso, sempre sozinha, mas com a companhia fiel de seu amigo, um cachorrinho chamado Sultão.
A menina foi ensinada a lavar roupas no tanque, com as mãos, buscando água em um poço de 10 metros. Se a roupa não estivesse impecável, Sebastiana gritava: "Negra, vem cá que vou te ensinar a lavar direito, preguiçosa!" Dorinha recorda que ela esfregava a pequena mão da menina na pedra do tanque até que a pele começasse a sair, parando apenas quando Dorinha chorava de dor.
O conselho da prostituta
Em um desses trajetos solitários pela estrada, vindo da cidade, Dorinha encontrou uma mulher à beira do rio. Era uma prostituta, que viu a fragilidade e a solidão daquela criança. "Menina, te vejo tão sozinha nesse caminho. Me fala, você não tem pai nem mãe?", perguntou a mulher. Dorinha, com a sinceridade da inocência, respondeu que não tinha pai nem mãe. A mulher, com seus cabelos duros e sujos, continuou:
"Menina, quero dizer para você, tome cuidado com a sua vida. Você é uma menina muito sozinha, e o mundo é muito perigoso, minha filha. Cuidado com homem malvado, homem que vem com galanteio, que vem querendo passar a mão, com palavras bonitas. É tudo mentira, minha filha. Quando encontrar esse homem, você corra."
Naquele momento, a pequena Dorinha não compreendeu totalmente as palavras, mas a mulher lhe disse tudo o que ela precisava saber sobre a força que teria que ter. Alertou-a sobre os perigos à medida que cresceria e viraria mocinha. A partir daquele dia, Dorinha, com a sabedoria precoce que a vida lhe impôs, aprendeu a ser forte. Na cidade, ela soube identificar olhares mal-intencionados e pessoas com más intenções, mantendo-as à distância.
A caminho da liberdade
Foi na fazenda dos Roderjan que um novo horizonte se abriu para Dorinha. Balbina Roderjan, a esposa do proprietário, vinda de Curitiba, observava atentamente a menina sozinha e a dura lida imposta a ela. Dona Balbina a acolheu como companheira, sabendo que a menina teria paciência principalmente em suas crises de asma. A dona da fazenda iniciou a alfabetização da menina.
Mais adiante, Balbina pediu Dorinha ao casal, mas Sebastiana e Zé resistiram, pois a menina era útil, fazia tudo o que lhe mandavam. Disseram que iam voltar para o Norte e que Dorinha não poderia ir por causa do pai dela. No entanto, após várias conversas, o casal resolveu ceder a menina aos Roderjan. Dorinha ficou imensamente animada, sonhando em vir para Curitiba. Com a ingenuidade da criança, imaginou comprar tratores e cuidar das próprias terras.
Uma reviravolta aconteceu quando o dono chegou à fazenda e viu que nada estava como deveria. "Nem a grama foi plantada", teria dito ele. Furioso, ele logo gritou com Seu Zé, chamando-o de preguiçoso e o demitindo. Na pressa, Zé partiu com o cavalo e a carroça, deixando Dorinha para trás, - a menina tinha saído para levar sua marmita e ajudar na lida.
A menina teve medo de não poder mais ir para Curitiba - ela sabia que Roderjan iria para outra fazenda na manhã seguinte. Dorinha mentiu para Seu Zé, dizendo que o chefe havia dado ordens para que ele voltasse à fazenda e plantasse tudo o que devia, mas que dessa vez precisava trabalhar de verdade. O homem assim fez.
Dias depois, o chefe chegou e estranhou a presença de Zé, mas ficou grato porque, dessa vez, o trabalho tinha sido terminado. Assim, Sebastiana, Seu Zé e Elizabeth ficaram na fazenda, e Dorinha pôde vir para Curitiba com os Roderjan, para seu grande alívio.
A menina chegou à cidade com uma mudança fácil, pois só tinha a roupa do corpo e uma ou duas outras peças - nem sapatos tinham vivia descalça. Dorinha veio para Curitiba, vivendo ainda uma vida simples, sem luxo, mas, pela primeira vez, tratada como pessoa.
Anos mais tarde, já adulta, depois de décadas de trabalho sem carteira assinada, ela ganhou da família Roderjan a casa em que hoje vive no Cajuru, como uma espécie de indenização por seu trabalho.
A história de Dona Dorinha nos lembra que a luta contra o racismo e a escravidão, em suas diversas formas, ainda é presente. Histórias como a dela, marcadas pela impunidade e pela brutalidade, não são um passado distante ou algo confinado aos livros; elas aconteceram e continuam a acontecer até um tempo recentíssimo, muitas vezes ao nosso lado, silenciadas pela violência. Dona Dorinha é uma sobrevivente, mas precisamos nos lembrar que, para cada voz como a dela que tem a chance de ser ouvida hoje, existem incontáveis outras mulheres negras que viveram destinos semelhantes e não sobreviveram, suas vozes caladas para sempre.
Este texto é parte do projeto Periferias Plurais, em que o Plural convida jovens de Curitiba e região a falar de sua vida e suas comunidades. O projeto tem apoio do escritório de advocacia Gasam e de Itaipu Binacional.