O governo do Paraná contratou por R$ 90 milhões serviços de monitoramento de imagens dentro da segunda fase do programa Olho Vivo, que prevê a instalação de 1,5 mil câmeras de segurança em todo o Estado ainda neste ano. A contratação foi feita sem licitação, por meio do contrato assinado em junho de 2025 entre a Celepar, a estatal paranaense de tecnologia da informação, e o Google.
Segundo o governo do Paraná, a Superintendência Geral de Governança de Serviços e Dados (SGSD), ligada à Casa Civil, ficará responsável por integrar as câmeras à plataforma central, fornecida pelo Google. A previsão de investimento é de R$ 30 milhões por ano, nos próximos três anos.
A nova etapa do Olho Vivo foi anunciada pelo governador Ratinho Jr (PSD) em dezembro do ano passado e prevê ainda o repasse de R$ 400 milhões para os municípios adquirirem câmeras de vigilância. "Esses processos licitatórios serão conduzidos pelos municípios e as imagens serão incorporadas ao sistema central", informou a assessoria do governo.
Contrato "guarda-chuva"
Assinado em julho de 2025 pelo presidente do Google Cloud para a América Latina, Eduardo López, e pelo presidente da Celepar, André Gustavo Garbosa, o contrato 4023/2025 transformou e estatal paranaense em uma revendedora dos produtos do gigante da tecnologia.

A parceria abriu o caminho para o Google fornecer o pacote Workspace para órgãos do governo sem passar por licitação. A contratação é feita por meio da Celepar, dispensada de concorrência por se tratar de uma empresa pública (o processo de privatização da Celepar segue suspenso pelo Tribunal de Contas do Estado).
Em novembro de 2025, a Secretaria de Estado da Administração e Previdência (Seap) contratou a Celepar por R$ 145,3 milhões para utilizar o Google Workspace em 26 secretarias e órgãos do Estado. Com vigência de três anos, o acordo incluiu a ativação imediata de 90.618 contas, com previsão de 99.680 licenças, em substituição a programas da Microsoft. A Sanepar também contratou a Celepar para utilização do Google Workspace, por R$ 20,9 milhões.

A parceria prevê que a Celepar inclua o Google Workspace em seu catálogo de produtos, mas o recente contrato para o programa Olho Vivo indica que o gigante da tecnologia poderá fornecer outros produtos e serviços. Os seis termos aditivos ao contrato já publicados foram classificados como confidenciais, como mostra o Portal da Transparência do governo.

A aproximação entre o governo do Paraná e o Google começou na gestão de Ratinho Junior – a administração de Beto Richa adotou soluções da Microsoft, em substituição aos softwares livres que eram utilizados no governo de Roberto Requião. Ratinho esteve duas vezes reunido com Eduardo López e desde 2024 o governo anunciou ao menos quatro parcerias com o Google (o único contrato disponível no portal da transparência, no entanto, é o 4023/20025).
Em outubro do ano passado, o secretário das Cidades, Guto Silva, participou em Washington do Google Public Sector Summit, evento para gestores e especialistas em tecnologia do setor público. O secretário estadual da Inovação, Alex Canziani, é pai da deputada federal Luísa Canziani (PSD-PR), integrante da chamada "bancada da big techs" na Câmara. Ela já visitou a sede do Google nos Estados Unidos e é presidente da Comissão Especial que discute a regulamentação da Inteligência Artificial no Brasil.

O contrato da Celepar com o Google foi denunciado ao Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) e ao Ministério Público do Paraná (MP-PR). Em setembro do ano passado, a 5ª Promotoria de Proteção ao Patrimônio Público do MP-PR abriu uma investigação preliminar após denúncia encaminha pelo movimento Salve Seus Dados.
Já a representação ao TCE-PR foi feita pelo diretório estadual do PSOL e pede a declaração de nulidade do contrato, com responsabilização administrativa dos envolvidos. Entre outros problemas apontados, o partido argumenta que existem cláusulas contratuais assimétricas, que transferem riscos e limitações indevidas à Celepar, riscos à soberania digital, à guarda e à custódia de dados públicos e indícios de conflito de interesses.
Olho Vivo
Segundo o governo do Paraná, na segunda etapa do Olho Vivo as câmeras deixarão de depender exclusivamente do monitoramento humano. Com a integração, será possível pesquisar características pessoas foragidas ou desaparecidas, além de veículos, e rastrear rotas, e emitir alertas automáticos às forças de segurança. Um projeto-piloto está em teste em Almirante Tamandaré desde agosto.
Neste ano serão instaladas 1,5 mil câmeras, mas o plano prevê a expansão para 26,5 mil equipamentos nos próximos anos – 20 mil compradas pelos municípios com recursos estaduais e 5 mil que já estão em operação pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp). “Esse modelo não apenas reconhece placas e rostos, mas identifica comportamentos fora da normalidade, permitindo que as forças policiais ajam antes que o crime aconteça”, disse Guto Silva, que participou da elaboração da nova etapa do programa.