O mundo é um moinho, cantava Cartola, sempre afeito à poesia da verdade. A agressão de Arlindo Ventura, o Magrão, a uma mulher negra na última terça-feira (4), surpreendeu, indignou, comoveu e revoltou parte de Curitiba. Porque o Torto, pensava, pensávamos (?), era um ponto de encontro seguro de gente interessante e interessada.
Confesso, e esta é uma mea-culpa, que nestes 10 anos frequentando o boteco, nunca chegaram até mim relatos de casos de agressão, constrangimento, racismo e homofobia por parte de Magrão. Provavelmente porque eu sou homem, cis e branco. Talvez porque seu carisma fosse na verdade uma armadura mentirosa construída com habilidade. Magrão é uma figura quase pública, quase política, que promoveu eventos democráticos na rua numa época em que isso não era bem-visto pelos curitibanos de pantufa, nem pelas autoridades que já engatilhavam um protofascismo. Suas “campanhas” eram a favor da diversidade, da ciclomobilidade e de outras ades e ismos conectados com algum pedaço de ideologia comum a quem justamente se surpreendeu, indignou, comoveu e revoltou. Para além do meu desconhecimento sobre seu passado controverso, que agora se ilumina com inúmeros relatos abomináveis, existe um contexto histórico mais amplo e profundo, que contradiz suas ações. Me vi embrulhado neste paradoxo quando comentei a matéria do Plural, na manhã de quarta-feira.
Recebi fotos do episódio na noite em que ele ocorreu. Na manhã seguinte, pipocavam relatos diversos e, acredite, contraditórios. A maioria deles confirmava a agressão. Justamente pela gravidade do caso, um jornalismo sério e informativo seria importante. Mesmo o admirável colega Rogerio Galindo – que fez um trabalho muito digno sobre isso, diga-se – penou para achar uma versão jornalística que satisfizesse a isenção presumida da profissão e o engajamento necessário em tempos cada vez mais dialéticos, em que a busca pela transparência se confunde com posicionamento ou a falta dele. E apurar, checar, ouvir, duvidar, não é tomar partido. Nem ser a favor de qualquer tipo de violência. Nem “passar pano” - que expressão absolutamente vazia, aliás.

Torço firmemente para que se faça justiça para a mulher agredida. E também, como jornalista e interessado no caso, espero ouvir sua versão – a publicação do termo circunstanciado não foi autorizada por ela, por motivos que não nos cabe questionar. Repúdio, indignação e solidariedade à parte, o que me interessa, ainda, é a busca pela capacidade da mediação e do diálogo em tempos de de julgamentos instantâneos (corretos ou não) e de liquefação da realidade.
Se ignorarmos o contexto histórico das coisas e perdemos a capacidade de reflexão, mesmo sobre o racismo ou o que é mais indignante, nos colocamos à deriva e nos aproximamos de uma barbárie camuflada, cada vez mais. O fim da história, nesse sentido, enaltece a criação de Estórias, baseadas em narrativas independentes de sua própria criação ou origem, que também podem ser violentas. Abomino a ação de Magrão, mas quero entender por que ele fez isso, justamente para que ele não dê exemplos igualmente hediondos, dada a figura pseudo-pública e pseudo-política que é e a influência que tem.
Vivemos um processo importante, constante e necessário de desconstrução de paradigmas, estigmas e preconceitos inconscientes. O esclarecimento, o diálogo e o afeto contribuem para que sejamos mais tolerantes e atentos, mesmo que gozemos de privilégios raciais, de gênero e econômicos. O que vi e vivi virtualmente por uns dias, no entanto, foi a tentativa da desconstrução de forma irascível e contraprodutiva, que não dá exemplos, mas reforça o que combate, numa espiral louca de criação de narrativas que acabam por esmagar a origem do fato para que se tenha um mínimo de espaço de desengasgo e lacração. E estamos engasgados, não há dúvidas.
Momentos depois da minha postagem, ainda na manhã de quarta-feira, comentários tão agressivos quanto surreais sugeriam que o machista e o racista da vez era eu. Houve quem ordenasse que o post deveria ser apagado, numa censura impulsiva e contraditória tão triste quanto hipócrita. “Argumentos” vinham em forma de gifs e hashtags, na confirmação de que tudo está se tornando mesmo líquido, superficial e irresponsável, mesmo quando o papo é sobre um fato lamentável dessa proporção.
Na última quinta-feira, o filósofo e cientista social Fernando Schüler publicou um artigo providencial na Folha de S.Paulo, cujo título é “O ódio do bem”. O ponto mais interessante é este: “Fascinante é esse fenômeno do ódio do bem. Significa o seguinte: eu cuspo no outro, chamo de fascista, digo que ele destrói a democracia, a civilização, que nem sequer devia existir. Mas excluo meu ódio do conceito de intolerância. E durmo tranquilo”.
Mesmo em situações injustificáveis, talvez precisemos do mínimo de empatia para que, no fundo, não percamos o que nos resta de noção de sociedade, incluindo aí seus conflitos e tensões intrínsecos e eternos. Não é o caso de ir ao Torto e tomar uma bera, mas racionalizar, no meio da loucura imposta, sobre como às vezes nos comportamos da mesma forma que aqueles que mais execramos. Porque nosso ódio sempre estará latente, mesmo que você o sublime culpando uma causa maior.
Na quarta-feira à noite houve um protesto em frente ao Torto. Palavras de ordem, cartazes, a representatividade justa de quem também se sentiu violentado. Mas, segundo relatos, lixo foi jogado dentro do bar e um sujeito quis sair na porrada com Magrão, para resolver o negócio à moda da barbárie, e de forma inconsciente se igualar a ele. Isso é hipocrisia de causa, um nó costurado com indignação histórica justificável, mas que encontrou um álibi para operar de forma contraproducente e igualmente violenta.
Nesse momento tão frágil de quase tudo, procuramos certitude em nossas ideologias e atos. Mas é perigoso ter a certeza de que se está do lado certo da história e achar que, por causa disso, vale tudo. Por que quem não está “de mãos dadas com a gente” pode também estar perdido, triste, ressentido. As ideologias estão cada vez mais sendo definidas não pelo que você acredita, mas pela negação de alguma coisa, ou pior, de pessoas. O desprezo muitas vezes é maior do que a capacidade de formar alianças. No Brasil de hoje, a definição do posicionamento político é dada pelo que você não gosta, e às vezes esse procedimento, na rua ou nas redes, não é um processo de politização útil, é só ameaça. Assim, a esquerda, ou seja lá como chamamos hoje essa ideologia que preza pela liberdade individual, pelo pacifismo e pela democracia de costumes, vira automaticamente uma censora.
É preciso ter algo para dizer, mesmo para um machista, um racista ou um homofóbico. “Cancelar” o outro é anular sua existência completamente. Na verdade é pior porque é fingir que esse outro não existe, quando na verdade ele existe e continuará a agir como sempre agiu se alguém não intervir de forma exemplar. É assumir, enfim, que não temos mais a capacidade de compreensão de alguém. É perder a chance de virar o jogo a nosso favor. Acho mesmo que é essa a chance que ainda temos.
O mundo é um moinho, mas moinho também faz vento.