O homem é um deus que caga. A frase do filósofo norte americano Ernest Becker sintetiza a escolha do nome para o Projeto Humanos, um podcast de Ivan Mizanzuk, professor de design, arquitetura e jornalismo da PUCPR.
“O ser humano tem plena convicção que vai morrere isso deixa ele desesperado. Então a gente está sempre buscando desculpas pradar algum sentido para a vida que tem aqui. Isso pra mim é humano, buscar darsentido às coisas e se frustrar a todo momento por não conseguir”, explica oprofessor universitário e podcaster.
https://www.youtube.com/watch?v=kXolnBndZeY&index=1&list=PLkiaEsYltGTeMjhWL8MKki7NSWO6zP1XR
O Projeto Humanos é o segundo programa de Ivan, que trabalha há oito anos com podcasts. Um diferencial no Brasil, onde a maioria dos programas produzidos não “se mantêm regulares por mais de um ano”, segundo o livro Reflexões sobre o Podcast, organizado em 2014, por Lucio Luiz.
Foram vários anos ouvindo podcasts, principalmente os produzidos fora do país, já que o formato não era nada conhecido por aqui.
“O gostoso do podcast é que chega uma hora emque inevitavelmente você vai querer fazer um. A gente brinca que o Podcast é onovo ’vamos formar uma banda’”, conta Ivan, dando risada.
Surgia, em 2011, o Anticast, “um dos Podcasts depolítica mais relevantes do país”, avalia.
“Me reuni com alguns amigos, todos designers. Eu tinha acabado de entrar no doutorado de design, já era professor de design na época. No início era pra falar de design, mas a gente gostava de fazer uma coisa mais crítica, de sociedade, cultura e tal. Mas depois de 2013, das manifestações de junho, todo mundo começou a falar de política, entender de política e eu disse ok, vamos falar de política.”
Os programas são semanais e costumam ter entre 35 mil e 50 mil downloads, mas alguns episódios já chegaram a 100 mil downloads. Essa mensuração de números de acessos e, consequentemente, da disseminação de um podcast é difícil de ser feita, como explica Ivan. Os números apresentados por ele têm base nas informações a que ele tem acesso pelo próprio servidor. Mas ainda existem outras maneiras de se ouvir o podcast e esses acessos ficam fora da conta.
Filme para ouvir
Indo na contramão do que tem sido produzido no Brasil em termos de podcast, programas mais livres, com base no bate-papo e sem edição, Ivan lança, em 2015, o Projeto Humanos. Um podcast de storytelling, ou um “filme que você ouve”, como explica. O formato, produzido, editado, com linhas narrativas, conflitos, personagens e que proporciona envolvimento ao ouvinte, é bastante popular nos Estados Unidos.
“Uma coisa que é muito importante em podcast de storytelling é você ter a noção de que você quer construir uma história em que a pessoa está chegando em casa, ela estaciona o carro, faltam cinco minutos pra terminar a história e ela vai ficar no escuro, no estacionamento, ouvindo, porque ela quer ver até onde aquilo vai.”
A quarta temporada do Projeto Humanos estreou nofim de 2018 e está no sexto episódio. Essa é a série mais ouvida nos quasequatro anos do projeto. Os programas, que têm em média uma hora de duração,contam em riqueza de detalhes uma das histórias criminais mais emblemáticas doParaná e que ganhou grande repercussão no Brasil: o caso Evandro.
“Nas três séries anteriores, eu tinha uma média de 30 mil downloads por episódio. No Caso Evandro, esse número passa dos 50 mil. E isso com informações só do meu servidor. Eu não posso afirmar que o Caso Evandro esteja entre os três mais ouvidos do Brasil, mas com certeza está entre os 10 mais”, afirma.
Você conhece o caso Evandro?
É muito provável que sim. Mas não com esse nome. O caso ficou popularmente conhecido como "as bruxas de Guaratuba".
O começo dos anos 90 foi marcado por um grandenúmero de desaparecimento de crianças no Paraná. Em 1992, até abril, foram setecrianças desaparecidas.
Ivan era criança nesta época e lembra de vercartazes com o rosto de crianças desaparecidas pelos estabelecimentos da cidade.Lembra também do terrorismo que seu pai fazia em cima dos casos e de sentirmedo e fascínio pelas histórias. “O que acontecia com essas crianças?”.
Em 2002, um desses casos de crianças que haviamdesaparecido volta à cabeça de Ivan, que sente o mesmo fascínio infantil.
“Eu estava em Guaratuba com alguns amigos, andando numa rua, quando uma amiga comentou que em uma daquelas casas moravam as bruxas de Guaratuba. Que era ali que elas matavam crianças e enterravam os corpos embaixo da casa. Então era isso, teve bruxas em Guaratuba, sacrificando crianças e enterrando corpos. Que maluquice”, relembra.
https://www.youtube.com/watch?v=0uQwoIbIru0
Em 2015 Ivan começou a pesquisar de fato sobre a história que sempre soube que contaria. “Eu vou no palpite e sempre achei que essa era uma boa história de ser contada. E o que me impressiona é como os discursos constroem a realidade. Pra mim era uma realidade tácita e eu queria saber o que aconteceu de fato.”
Ivan preferiu não chamar a temporada pelo nomeque está marcado no consciente coletivo – As Bruxas de Guaratuba. Escolheu nãopartir da afirmação de que as acusadas eram realmente responsáveis pela mortedo menino e por isso escolheu O Caso Evandro.
https://www.youtube.com/watch?v=AypRzwnaSK8
Foram três anos de pesquisa intensa. Intensa no sentido literal da palavra, “que tem muita tensão, ativo, enérgico, veemente”, segundo o dicionário Aurélio. “O que eu faço é pesquisa científica”, brinca.
O processo do caso Evandro, que acabouenvolvendo o desaparecimento de outras crianças, denúncia de tortura, erros dapolícia e brigas políticas, se arrastou por 26 anos. Foram 20 mil páginas deprocesso, além de várias fitas cassete e um julgamento que ficou marcado como omais longo do Brasil – 34 dias. Ivan leu e assistiu a tudo. E entrevistou econversou com muita gente. “Até o fim, teremos uns 150 personagens”, detalha.
“E a pesquisa continua. A cada novo episódio,surgem mais detalhes, mais informações. Mas já há um fim delimitado, serão 23,24 no total. Será uma série longa e lá pelo 17º episódio pode serque as pessoas comecem a ficar cansadas. Mas eu faço um apelo para que todosouçam até o fim, há ainda informações reveladoras que vão influenciar nojulgamento de cada um”, apela Ivan.
A próxima temporada está marcada para ir ao ar em fevereiro.
https://www.youtube.com/watch?v=bM1hWP6IJg0
O Projeto Humanos, e, especialmente o CasoEvandro, tem sido muito elogiado nas redes sociais e gerado bastanteengajamento. “As pessoas falam no meu trabalho jornalístico e eu nem soujornalista de formação”, conta Ivan que recentemente tirou a credencial dejornalista.
Seja um trabalho jornalístico ou não, o CasoEvandro deixa os episódios de CSI no chinelo e é uma excelente aula de históriasobre a situação política do Brasil, e muito especialmente do Paraná, na décadade 1990.
Tudo isso, costurado por uma narrativa tão bemconstruída que faz o ouvinte esperar dentro do carro, na garagem ou até emoutro lugar, estarrecido, ávido por entender as barbaridades decorrentes dessabusca humana pela condição de ser um pouco deus, um deus do jeitinho que ErnestBecker preconizou.
Para ouvir o Caso Evandro e conhecer mais sobre o Projeto Humanos, clique aqui. Para o Anticast, clique aqui.
Vídeos de Fernando Cavazotti Coelho.