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O Design como inovação pedagógica no Colégio Medianeira

Aplicado à educação, o design ajuda estudantes a desenvolver competências para o século 21: pensamento crítico e criativo, comunicação clara, trabalho em grupo, negociação, liderança, empatia e sensibilidade

O Design como inovação pedagógica no Colégio Medianeira
Ilustração: Benett
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Tudo começou quando um coordenador do Colégio Medianeira convidou a designer e educadora Liliane Grein para ajudar os alunos a preparar materiais para a Feira do Conhecimento. Era preciso organizar informações em cartazes, folders e banners de modo que o público compreendesse com clareza o que cada grupo queria apresentar.

O que parecia apenas uma oficina de apoio acabou abrindo caminho para algo maior. “Descobri que o design podia muito mais do que ‘deixar bonito’”, lembra Liliane. “Ao orientar os grupos a estruturar ideias, priorizar informações e justificar escolhas, vi um efeito imediato: eles pesquisavam melhor, comparavam fontes e referenciais teóricos, criavam com mais liberdade e explicavam por que determinada solução fazia sentido para aquele público.”

O que é pensar como designer

Mas afinal, o que significa trazer o design para dentro da escola? Para Liliane, trata-se de adotar uma forma de pensar que vai além da estética. O design é, antes de tudo, uma metodologia de resolução de problemas reais: observar uma situação, levantar hipóteses, criar alternativas, testar soluções, revisar e comunicar resultados.

Pesquisadores como Ezio Manzini explicam que o design combina três dons humanos fundamentais: senso crítico, criatividade e senso prático. Ou seja, olhar para a realidade, imaginar o que ainda não existe e encontrar um jeito de tornar isso possível. Outros, como Nigel Cross, lembram que essa habilidade é natural, mas pode, e deve ser, desenvolvida e treinada.

Aplicado à educação, o design ajuda estudantes a desenvolver competências para o século 21: pensamento crítico e criativo, comunicação clara, trabalho em grupo, negociação, liderança, empatia e sensibilidade. Ele favorece aprendizagens interdisciplinares, cria oportunidades de testar teorias, na prática, e mostra que o erro não é fracasso, mas dado para a próxima versão.

“É uma forma de organizar o conhecimento, uma inteligência, um jeito de raciocinar que ensina o aluno a estruturar ideias e lidar com problemas reais”, resume Liliane.

Da prática à pesquisa

A equipe pedagógica do Medianeira percebeu o potencial da iniciativa e deu apoio imediato. “Não houve resistência, pelo contrário: acreditaram na proposta, abriram espaço para que o design entrasse no currículo dentro do núcleo de Linguagens e me incentivaram a pesquisar”, conta a educadora. O que começou como uma experiência inicial se transformou em disciplina, tornando o Medianeira uma das poucas escolas no Brasil a incluir o design no currículo do Ensino Fundamental como projeto pedagógico inovador.

Foi a partir dessa vivência que o colégio também convidou Liliane a aprofundar o tema no mestrado, abrindo caminho para que a experiência prática se transformasse em objeto de pesquisa acadêmica.

Homem com criança na frente de um laptop

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Liliane Grein com alunos do Medianeira. Foto: Wagner Roger
Pessoa na frente de um laptop

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Alunos aprendem melhor com o Design. Foto: Wagner Roger

Design como catalisador de aprendizagens

A consolidação veio durante a pandemia, quando Liliane aplicou a metodologia com turmas do 9º Ano. O desafio era criar uma campanha de conscientização sobre o direito da criança à educação em um momento em que muitas não tinham acesso às aulas.

“Viramos uma grande agência de comunicação dentro da escola: investigação do problema, definição de mensagens, identidade visual, materiais impressos e digitais, intervenções nos espaços e um mural colaborativo para conscientizar a comunidade escolar”, relembra.

O valor, porém, não estava apenas nos cartazes prontos. “Os resultados vieram no processo: testar, receber feedback, refazer. Houve alfabetização visual e digital, mais clareza na comunicação, amadurecimento nas relações de grupo, negociação de papéis e critérios de qualidade”, explica Liliane.

Tela de jogo de vídeo game na sala

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Construção de um mural colaborativo. Fotos: Wagner Roger
Uma imagem contendo no interior, mesa, laranja, quarto

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Construção de um mural colaborativo. Fotos: Wagner Roger
Uma imagem contendo pessoa, jovem, pequeno, criança

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Construção de um mural colaborativo. Fotos: Wagner Roger
Uma imagem contendo pessoa, mesa, preparando, homem

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Construção de um mural colaborativo. Fotos: Wagner Roger

Televisão ligada com imagem de jogo de vídeo game

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Construção de um mural colaborativo. Fotos: Wagner Roger

Da sala de aula à pesquisa acadêmica

A experiência inspirou a pergunta central do mestrado de Liliane: como o design pode catalisar a gestão das aprendizagens no Ensino Fundamental? Hoje, no doutorado na UFPR, ela investiga como práticas de projeto ajudam os estudantes a planejar, monitorar e avaliar o próprio aprender.

“Na sala, isso aparece em perguntas simples que viram hábitos: O que já sabemos? O que precisamos testar? Como vamos medir se melhorou? Quando essas perguntas entram no dia a dia, o erro deixa de ser fracasso e vira dado para melhorar a próxima versão”, afirma.

Uma tendência internacional

O uso do design como metodologia de aprendizagem não é exclusividade brasileira. Desde os anos 1970, países como Estados Unidos e Inglaterra incorporam a lógica dos designers — investigar, criar, prototipar, revisar — em seus currículos básicos. Pesquisas internacionais apontam que essa abordagem favorece pensamento crítico, criatividade e resolução de problemas, habilidades indispensáveis no século 21.

É nesse contexto que se insere a experiência de Carolina, hoje estudante da 1ª Série do Ensino Médio no Medianeira. Durante um ano, ela viveu na Inglaterra e pôde cursar design ainda no Ensino Fundamental. “Nós estudamos branding e teoria das cores, e tínhamos que justificar cada escolha em relatórios detalhados”, conta. De volta ao Brasil, Carolina percebe que o aprendizado se estendeu para além da disciplina: “Até hoje uso o que aprendi para organizar os meus cadernos, destacar informações e estruturar o pensamento. O design ajudou a organizar como eu aprendo.”

Impacto na aprendizagem

Para especialistas, experiências como a do Medianeira reforçam o papel do design como motor de inovação pedagógica. O professore e pesquisador Everton Bedin, da UFPR, destaca: “O design desloca o foco da memorização para a resolução de problemas reais, integra linguagens, artes, ciências e tecnologia, e fortalece competências previstas pela BNCC, como pensamento crítico, criatividade, colaboração e cultura digital.”

Ao mesmo tempo, Bedin lembra dos desafios: infraestrutura tecnológica limitada, currículos rígidos e resistência cultural ainda dificultam a disseminação dessas práticas em outras escolas.

O futuro possível

No Medianeira, a inovação já avança para o Ensino Médio. As práticas de design se estendem ao itinerário formativo “Design e Sustentabilidade”, em que estudantes investigam problemas ambientais no contexto da cidade de Curitiba e desenvolvem soluções a partir da metodologia projetual. É nesse espaço que Liliane aplica sua pesquisa de doutorado, acompanhando de perto como os alunos usam ferramentas do design para conectar teoria e prática em projetos com impacto social.

Entre os participantes está novamente Carolina, que viveu a experiência de estudar design na Inglaterra e agora retoma esse percurso no Brasil, aplicando-o à realidade do Medianeira. No itinerário, ela e seus colegas exploram o design como ferramenta para pensar soluções sustentáveis dentro da escola, transformando desafios ambientais em oportunidades de aprendizado.

Para Liliane, essa continuidade reafirma um compromisso pessoal e profissional. “Acredito na educação e no design: ensinar o estudante a olhar para o que existe, imaginar o que ainda não existe e encontrar caminhos para construir esse futuro. E é nesse movimento que a aprendizagem se torna viva, permanente e transformadora.”

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