Texto de Marya Marcondes, aluna de Jornalismo da UFPR
Sob orientação de Rogerio Galindo
Há quatro anos, como parte do Plano Nacional Plantar Árvores e Produzir Alimentos Saudáveis, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná promove a Jornada da Natureza, com ações massivas de reflorestamento no bioma da Mata Atlântica. Com o lema “Semeando vida para enfrentar a crise ambiental”, este ano, a Jornada ocorre entre os dias 1 e 6 de junho e irá promover a semeadura aérea e distribuição de 30 toneladas de sementes da juçara — espécie de palmeira da Mata Atlântica ameaçada de extinção. Realizada durante a Semana Mundial do Meio Ambiente, entre os destaques estão o reflorestamento de áreas de Rio Bonito do Iguaçu atingidas pelo tornado em 2025 e a presença da Ministra das Mulheres, Márcia Lopes.
Ao todo, 12 comunidades, entre os municípios de Quedas do Iguaçu, Rio Bonito do Iguaçu, Espigão Alto do Iguaçu, Nova Laranjeiras e Adrianópolis, irão receber as sementes, além de outros grupos de Reforma Agrária que realizam atividades em seus territórios.
Além do MST, a Jornada da Natureza é uma atividade que envolve comunidades indígenas e quilombolas do estado. Este ano, as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira se somam, pela primeira vez, aos territórios que recebem a semeadura da palmeira. Camila Modena, do setor de produção, cooperação e meio ambiente do MST do PR, enfatiza que “a questão agrária também é uma questão ambiental".



PRF usa helicóptero para lançar sementes em parceria com MST e órgãos ambientais | Fotos: divulgação/PRF
Nas três primeiras edições foram 25 toneladas de sementes lançadas por helicóptero da Polícia Rodoviária Federal (PRF) do Paraná, além de outras 10 plantadas e entregues em comunidades do Estado.
Segundo a polícia, somente neste ano, o helicóptero lançará 18 toneladas em locais de difícil acesso terrestre, ampliando o alcance das ações de reflorestamento. A atuação da PRF visa colaborar com iniciativas de restauração ecológica em áreas de mata ciliar e encostas de morros, como parte de um esforço interinstitucional voltado à preservação do bioma Mata Atlântica.
A palmeira-juçara
Camila conta que a ideia da Jornada surgiu durante uma festa de exaltação da palmeira-juçara em 2023: “nasce do que já acontece na comunidade.” Com a ação, a tarefa árdua do manejo pôde ser transformada também em fonte de renda para as famílias do Movimento, como ressalta a militante. O objetivo é plantar 100 milhões de árvores até 2030 em áreas de reforma agrária.
A juçara é uma espécie-chave para a Mata Atlântica: seus frutos alimentam diversas aves e mamíferos, muitos em risco, como a jacutinga, o veado-bororó, o papagaio-de-peito-roxo, o sabiá-pimenta e a queixada, especialmente no outono e inverno, quando há menos alimento nas florestas. Diferente de outras palmeiras produtoras de palmito, a juçara não rebrota após o corte, ou seja, cada palmito extraído significa uma árvore perdida. O extrativismo ilegal para a indústria de palmito e o avanço do agronegócio, com monoculturas e pecuária extensiva, transformaram a espécie de abundante em ameaçada, incluída no Livro Vermelho da Flora Brasileira.
Para além da sua importância ambiental, a juçara tem vínculos históricos com povos indígenas, como os Guarani Nhandeva, quilombos e comunidades caiçaras. Alimentação dos frutos in natura e sua polpa, utilização de seus troncos e folhas na construção de moradia e espaços religiosos e uso medicinal são alguns dos fortes laços de ajuda mútua com a espécie. Por outro lado, o saber destes grupos sobre o manejo, locais adequados para a semeadura e dispersão das sementes, contribui para a multiplicação juçara. Ou seja, é uma espécie chave tanto para os sistemas ecológicos e grupos humanos que historicamente compõem a Mata Atlântica.
Programação
A programação é aberta a todo público e envolve também oficinas, plantio de mudas, recuperação de áreas degradadas, construção de Sistemas Agroflorestais (SAF’s). Camila destaca que um dos momentos mais marcantes que vive na Jornada é ver as novas gerações se sentindo pertencentes ao cuidado do meio ambiente: “as crianças já se sentem guardiãs da juçara.”
01/06 – Nova Laranjeiras (TI Rio das Cobras): Semeadura aérea de 2 toneladas de sementes
8h às 9h: Acolhida e café da manhã.
9h: Abertura da Jornada com apresentação cultural das mulheres indígenas e sobrevoo da semeadura aérea da Palmeira Juçara.
11h30: Ato político com autoridades.
12h30min: Almoço.
14h: Atividade com as escolas e plantio de mudas.
17h: Feira com produtos locais e atividade cultural com bandas indígenas.
02/06 – Quedas do Iguaçu — Comunidade Dom Tomás Balduíno — semeadura aérea de 10 toneladas de sementes
Principais atividades: dia de campo com monitoramento de áreas; visita à unidade de produção e beneficiamento de juçara e frutas nativas; semeadura aérea de Palmeira Juçara.
9h00: Acolhida e credenciamento das autoridades e instituições parceiras.
9h30: Café da manhã.
11h: Sobrevoo de semeadura de juçara.
12h: Ato político.
13h: Almoço coletivo.
14h: Continuação do sobrevoo e semeadura da palmeira.
17h: Programação cultural.
03/06 – Rio Bonito do Iguaçu — Comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio — semeadura aérea de 4 toneladas de sementes
Principais atividades: sobrevoo e mutirão de plantio nas áreas que foram afetadas pelo tornado em novembro/25, com ato político e conferência na universidade.
7h30: Acolhida.
9h: Sobrevoo com semeadura aérea.
10h30: Ato político.
12h30: Almoço comunitário.
13h30: Mutirão de plantio — mudas de árvores nativas.
16h30: Atividades ambientais na UFFS.
19h30: Conferência sobre a Palmeira Juçara e resultados das pesquisas em torno da semeadura aérea.
06/06/2026 – Comunidades quilombolas do Vale do Ribeira / Comunidade João Surá — Adrianópolis — semeadura aérea de 2 toneladas de sementes
Principais atividades: sobrevoo de semeadura de juçara, ato político, troca de sementes, reconhecimento do território.
8h: Acolhida e café da manhã.
9h: Sobrevoo e semeadura da Palmeira Juçara.
11h: Ato político.
12h30: Almoço coletivo.
14h: Apresentação cultural da história do Colégio Estadual Diogo Gomes.
15h: Passeio para conhecer a comunidade.
18h: Troca de sementes e mudas.