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MP vê inércia do governo Ratinho e mau uso de recursos na ressocialização de adolescentes

Segundo o Ministério Público, desde 2023 governo não utiliza verba disponível para programas de profissionalização, esporte e cultura em unidades de internação

MP vê inércia do governo Ratinho e mau uso de recursos na ressocialização de adolescentes
O secretário da Justiça, Santin Roveda, e o governador Ratinho: para o MP, governo desrespeita o ECA e a Lei do Sinase (Foto: Divulgação/AEN)
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O Ministério Público do Paraná (MP-PR) moveu uma ação contra o governo de Ratinho Júnior (PSD) por negligência, omissão e mau uso de recursos públicos na administração dos Centros Socioeducativos (Cense), destinados à ressocialização de adolescentes em conflito com a lei. Os Cense são ligado à Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania (Seju), comanda pelo secretário Santin Roveda.

Segundo a promotora de Justiça Danielle Cristine Cavali Tuoto, entre 2019 (primeiro ano do governo de Ratinho Júnior) e 2023, o estado deixou de utilizar metade dos recursos disponíveis para programas de profissionalização e aprendizagem de adolescentes.

Em nota, a Seju afirmou que está finalizando as licitações para fornecer atividades profissionalizantes e culturais. As atividades esportivas já foram retomadas, segundo a secretaria (leia abaixo a nota da Seju).

Sem atividades

Entre julho de 2023 e o fim de 2024, de acordo com o Ministério Público, o governo não executou nenhum programa de profissionalização, esporte, cultura e lazer nas unidades de internação, apesar de ter recursos do Fundo da Infância e Adolescência (FIA) à disposição – algumas unidades tiveram apenas atividades promovidas por voluntários ou por servidores "que buscam seu custeio, sem qualquer apoio do Estado ou organização dentro de um projeto político pedagógico”.

A promotora Danielle Tuoto destacou na ação que até 2019 eram ofertados programas de qualificação profissional ou profissionalização, interrompidos no primeiro ano do governo de Ratinho Júnior. “Com o encerramento de uma série de contratos, ainda em setembro de 2019, o requerido (governo do Paraná) deixou de oferecer profissionalização aos adolescentes nas unidades socioeducativas”. 

A 3ª Promotoria de Justiça de Adolescentes em Conflito com a Lei, do MP-PR, tentou encontrar uma solução em conjunto com a Seju, para que o programa de profissionalização fosse retomado. “Entretanto, em razão das burocracias administrativas e da ineficiência da gestão pública, houve atraso no processo licitatório e não foi possível garantir este direito fundamental”, informou a promotora de Justiça. 

Recursos não utilizados

Apesar de os programas de qualificação profissional e aprendizagem não terem sendo executados nos últimos anos, os recursos (a maioria deles proveniente do FIA) estavam disponíveis, afirmou Danielle Cristine Cavali Tuoto. 

A Deliberação n.º 91/2018 do Conselho Estadual de Direitos da Criança e do Adolescente (Cedca) aprovou a destinação de R$ 4,3 milhões (R$ 4.170.063,38 com recursos do FIA e R$ 129.936,62 da Seju) para a oferta de cursos de qualificação profissional. Em 2019, a Deliberação 46 destinou mais R$ 4 milhões para os programas. Por não execução, em 2022 e o Cedca aprovou o remanejamento de R$ 800 mil para  o Programa Estadual de Aprendizagem.

“Destes recursos, segundo o balancete, o saldo em 2021 era de R$ 4 milhões, e o saldo ao final de 2022 e 2023 de 3,2 milhões. Significa dizer que por mais que possuísse recursos o Estado do Paraná não iniciou nem em 2022, nem em 2023 e muito menos em 2024 tão importante projeto. A execução dos recursos da Deliberação 46/2019 é ZERO. O valor de 800 mil não foi gasto, mas sim transferido para outro programa”, informou a promotora.

“Enquanto isto, os adolescentes e jovens entram e saem das unidades socioeducativas do Estado sem receber nenhuma qualificação profissional, por mais que a Lei do Sinase (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo) obrigue o Estado a ofertá-la.”
Danielle Cristine Cavali Tuoto, promotora de Justiça

Dinheiro devolvido

A Deliberação 06/2019 do Cedca aprovou o Programa Estadual de Aprendizagem, no valor de R$ 8 milhões, utilizando o saldo do superávit de 2018. No ano passado, houve o estorno de R$ 2.873.043,76 – valor que retornou ao FIA para nova deliberação. De acordo com a ação proposta pelo MP-PR, de 2019 a 2023 a execução foi de aproximadamente metade dos valores disponíveis. 

A promotora citou como exemplo o programa Karatê-Do Tradicional, que recebeu R$ 1.003.614 do FIA em 2018. “Em 2022 houve o pagamento de apenas R$ 371.791,766, com inscrição de restos a pagar R$ 260.577,25, com empenho e pagamento ZERO em 2023”, informou a ação do MP-PR.

Mesmo sem a execução do programa, em 2022 a Seju recebeu mais R$ 2,6 milhões. “Porém, enquanto nossos adolescentes e jovens não realizam nenhuma atividade de esporte nas unidades, vê-se pelos Balancetes execução orçamentária ZERO em 2022 e ZERO em 2023”, revelou a promotora. 

“Inadmissível tanto recurso parado enquanto se descumpre a lei e se violam direitos. Injustificadamente, o Estado do Paraná, mais uma vez não preocupado em garantir direitos fundamentais dos adolescentes sob sua guarda, não executou tais valores.”
Danielle Cristine Cavali Tuoto, promotora de Justiça

O direito à cultura e ao lazer também foi ignorado pelo governo do Paraná nesse período, segundo a ação movida pelo Ministério Público. Em 2019, o Cedca destinou R$ 800 mil, oriundos do FIA, para o Programa Arte e Ação. 

“Segundo o balancete publicado no site oficial em 2022 tivemos um pagamento anual de R$ 393.670,85, em 2023 um estorno de R$ 251.452,91 e por mais que conste como empenho zero, consta como pagamento em 2023 o valor de R$ 76.169,00. No balancete consolidado dos anos de 20-21-22 e 23 sequer consta a Deliberação 21/2019, do projeto Arte e Ação”, informou a ação do MP-PR. 

Apesar de não utilizar os recursos, em 2022 o governo apresentou um novo projeto, agora chamado de Movimento e Arte, e obteve R$ 2,9 milhões, por meio de nova deliberação do Cedca. Com base na análise do balancete do FIA em 2023, o MP-PR concluiu que não houve aplicação dos recursos em 2022 e 2023. 

“Verifica-se que o saldo em 12/2022 era de 2,9 milhões e em 12/2023 de 2,9 milhões, o que representa uma execução ZERO em dois anos. Seguem os adolescentes e jovens sem nenhuma atividade de arte, cultura e lazer ofertada pelo Estado”, afirmou a promotora Danielle Tuoto. Até dezembro de 2024, nenhum valor havia sido investido. 

Terceirização

Para exemplificar a disponibilidade de recursos, a promotora citou um contrato de terceirização da Seju com a empresa Produserv Serviços LTDA, para a "contratação de serviços continuados de Assistente Administrativo, em diversas unidades administrativas, com a metodologia de contratação por postos de trabalho, com fornecimento de crachá", no valor de R$ 27.776.031,62.

“Ora, se o Estado do Paraná possui recursos suficientes para a contratação de assistentes administrativos terceirizados, sem sequer analisar a efetiva necessidade desta contratação para as unidades socioeducativas ou outros setores administrativos da secretaria, por óbvio possui recursos mais que suficientes para a execução das políticas públicas básicas e prioritárias de capacitação profissional, atividades culturais, esportivas e de lazer e para o acompanhamento de egressos do sistema socioeducativo”, criticou novamente a promotora.

“Se a prioridade do Governo do Estado do Paraná fosse cumprir a lei, respeitar a Constituição Federal e respeitar o princípio da prioridade absoluta, a julgar pelo valor do contrato de terceirização, teria, seguramente, recursos suficientes para ofertar esses serviços essenciais para o adequado atendimento dos adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas por pelo menos 2 anos”.
Danielle Cristine Cavali Tuoto, promotora de Justiça

Egressos

A ação afirma ainda que até hoje o Paraná não tem um programa de apoio e acompanhamento de egressos do sistema, como determina a Lei do Sinase, de 2012 – já são 13 aos sem cumprir a lei. 

“Apesar da determinação legal datar de 2012 (Lei do Sinase), apesar das diversas cobranças realizadas pelo Ministério Público, não há sequer programa a ser citado a título de exemplo, porque nenhum programa foi cogitado pelo Estado do Paraná, muito menos implementado, isto desde a entrada em vigor da Lei n. 12.594/12, denominada Lei do Sinase”, disse Danielle Tuoto.

Responsabilização criminal

Com base no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a ação pede a implementação, no prazo de 90 dias: de programas de capacitação profissional e aprendizagem em todas as unidades socioeducativas de Curitiba; de programas que ofertem atividades culturais, esportivas e de lazer; e de programas de apoio e acompanhamento de egressos do sistema.

Em caso de descumprimento, o MP-PR pede a aplicação de multa diária no valor de R$ 10 mil e "apuração da responsabilidade civil, administrativa e mesmo criminal do agente público omisso".

Pastas do União Brasil

Os dois mandatos de Ratinho Júnior tiveram cinco secretários da Justiça. O primeiro foi Ney Leprevost, nomeado em 2019, quando a pasta ainda se chamava Secretaria da Justiça, Família e Trabalho (Sejuf). Ele deixou o posto em 2020, pois pretendia se candidatar à prefeitura de Curitiba, e foi substituído por Ederson José Pinheiro Colaço, diretor-geral da pasta. Em julho do mesmo ano, ele deu lugar a Mauro Rockenbach. Leprevost voltou ainda em 2020 e ficou até 2022, quando foi nomeado Rogério Carboni.

Em um de seus primeiros atos em 2023, Ratinho Júnior promoveu uma reforma administrativa e desmembrou a Secretaria, com a criação da Secretaria do Trabalho. A pasta passou a se chamar Secretaria a Justiça e Cidadania. Desde então, as duas pastas foram destinadas a filiados ao União Brasil, partido que integrou a coligação que apoiou a reeleição de Ratinho em 2022.

Em abril de 2023, Ratinho nomeou Santin Roveda, ex-prefeito de União da Vitória, filiado ao União Brasil. Ele permanece no cargo. A Secretaria do Trabalho também abrigou os aliados do partido, primeiro com o deputado estadual Mauro Moraes. Neste ano, Moraes voltou à Assembleia Legislativa e seu substituto foi o também deputado Do Carmo, outro filiado ao União Brasil. Atualmente deputado estadual, Ney Leprevost é outro integrante do partido.

O que diz a Seju

Em nota, a Seju informou que está finalizando processos de licitação para atividades profissionalizantes e culturais. As atividades esportivas já voltaram a ser ofertadas, segundo a Secretaria. Segue a nota da Seju:

A Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania esclarece que está finalizando os processos de licitação para contratar empresas que tenham expertise e estrutura para ministrar atividades culturais e de qualificação profissional nas unidades de socioeducação do Paraná. A contratação de atividades esportivas já foi realizada e a prática incorporada nas unidades.

Atualmente, três projetos estão aprovados pelo Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, órgão responsável pelo financiamento das ações, por meio do Fundo para Infância e Adolescência (FIA).

Um deles refere-se a aulas de karatê. Foi assinado contrato com a Federação Paranaense de Karatê, empresa que ganhou o processo licitatório. Há a oferta de oficinas, exames de faixa e torneios internos nos Centros de Socioeducação.

O edital para a contratação de atividades culturais já foi divulgado. A licitação está prevista para ocorrer nos próximos dias. A empresa deverá executar o Projeto Movimento e Arte, que será em formato de oficinas e mostras culturais presenciais. Já as atividades de qualificação profissional estão em fase final de construção do processo de licitação, que deverá ser aberto em breve.

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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