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UEL concede diplomação póstuma a estudante vítima de feminicídio

Júlia Beatriz Garbossi foi vítima de um ataque feminicida em 2023; a jovem teria concluído o curso de Ciências Sociais

UEL concede diplomação póstuma a estudante vítima de feminicídio
Professora Silvana Mariano (Lesfem), reitora Marta Favaro, ao centro os pais de Júlia, a professora Martha Ramirez-Gálvez, de Néias, e a psicóloga Carla Pagnossin. Foto: André Ridão
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Londrina - Numa iniciativa inédita, a Universidade Estadual de Londrina (UEL) concedeu diplomação póstuma à estudante Júlia Beatriz Garbossi, do curso de Ciências Sociais, na manhã desta sexta-feira (5). A iniciativa de solicitar a diplomação partiu de Néias - Observatório de Feminicídios de Londrina e do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem).

Pais e avós de Júlia estiveram presentes na cerimônia solene. Em um discurso emocionado, o pai da estudante, Cleverton Garbossi, contou que ela completaria 26 anos no próximo dia 8 de dezembro e expressou o bem que a filha fez ao mundo em seu curto tempo de vida.

“Júlia significa ‘cheia de virtude’ e Beatriz, ‘aquela que faz o outro feliz’. E ela me fez muito feliz; fez a nossa família muito feliz”.

A estudante Júlia Garbossi. Foto: Arquivo de família

Reconhecimento

Para a mãe de Júlia, Angelita Garbossi, a homenagem não ameniza a dor da família, mas mostra que a filha “marcou presença”. “A Júlia foi uma pessoa muito iluminada por onde passava. Ela sempre foi muito determinada, independente. E nos seus 23 anos ela nos ensinou muito. Estava muito determinada no curso, com muitos projetos, que infelizmente não puderam ser realizados”, declarou.

Pai e mãe lamentaram não ter tido a oportunidade de ver a própria filha “jogando o chapéu” em sua formatura - uma referência ao gesto comum de jogar para cima o capelo usado junto à beca de formatura. “Nos nossos corações ela jogou o chapeuzinho dela”, afirmou Angelita.

Para Cleverton, Júlia deixa o legado de uma pessoa batalhadora, independente e feliz. “Ela estava muito feliz com o curso de Ciências Sociais, queria ser professora. Era muito batalhadora e responsável. Tenho muito orgulho da Júlia”, resume.

Direito à memória

Na abertura da cerimônia, a reitora da UEL, Marta Favaro, destacou que a diplomação póstuma significa ‘um momento de reconhecimento da vida de Júlia e da experiência que ela construiu conosco na universidade”. 

Para a docente de Ciências Sociais e presidenta do Observatório Néias, Martha Ramirez Gálvez, ao acolher o pedido de diplomação a UEL demonstra um compromisso em zelar pelo combate à violência de gênero. 

“Sou presidenta de Néias e, junto com o Lesfem, propusemos essa homenagem como forma de resgate da memória das mulheres que vivem essas violências”, pontuou. Em uma carta escrita a Júlia, Néias menciona outras mulheres da comunidade universitária vitimadas pelo feminicídio (leia abaixo). 

Feminicídio por conexão

Aos 23 anos, Júlia Garbossi foi uma das vítimas do ataque de Aaron Dalece Dantas, preso em flagrante em 3 de setembro de 2023, após invadir a residência que ela dividia com uma amiga. Daniel Takashi, de 22 anos, também foi morto no ataque. Aaron perseguia a amiga de Júlia, que sobreviveu ao ataque e conseguiu buscar ajuda. Ele se encontra detido no Complexo Médico Penal.

Néias e Lesfem atuam para tensionar uma leitura mais ampla do Judiciário sobre feminicídio. Silvana Mariano, coordenadora do Lesfem, explica que Júlia foi vítima de feminicídio por conexão, embora juridicamente o caso não tenha sido assim reconhecido.

"Júlia estava dentro de sua casa. Ela nem era o alvo de seu algoz; foi uma vítima indireta do feminicídio. Ela vivia com uma colega que ousou desafiar essa sociedade patriarcal e dizer ‘não’ aos interesses e desejos sexuais e amorosos do feminicida”, pontua.

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Cecília França

Cecília França

Jornalista há 20 anos, é especialista em Direitos Humanos.

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