Quando pessoas públicas dão declarações que banalizam a violência contra as mulheres é sempre chocante, especialmente quando esse tipo de declaração parte de um grande nome do campo das artes. Por isso a fala do cantor e compositor João Bosco, em entrevista ao Estadão, sobre a música “Gol anulado” assusta tanto.
Quando lançada, em 1976, a composição já era de mau gosto. Inicia com os versos:
“Quando você gritou mengo
No segundo gol do Zico
Tirei sem pensar o cinto
E bati até cansar”
Foi nesse mesmo ano que Doca Street assassinou Ângela Diniz e quase saiu impune do crime, não fosse o clamor do movimento feminista. Naquele ano sequer existia a Lei do Divórcio, sancionada um ano depois, e a violência doméstica era uma realidade conhecida e tolerada. Esperava-se que hoje, passados 50 anos, vivendo em um país que avançou em legislação de proteção mas segue, igualmente, avançando nos registros de agressões e feminicídios, um artista do porte de Bosco, autor de clássicos como “O Bêbado e a Equilibrista”, compreendesse que aqueles versos não cabem mais. Porém, para nossa surpresa, o artista disse ao repórter que hoje existe muito “identitarismo” e que segue cantando “Gol anulado” porque a considera “uma crônica”.
A crônica de João Bosco é o terror de muitas mulheres.
Segundo a Rede de Observatórios da Segurança, mais de 4,5 mil mulheres sofreram alguma violência no Brasil em 2025. Isso contabilizando dados de apenas nove estados. Os feminicídios bateram recorde: 1.470, segundo dados do Ministério da Justiça. Registros de ameaça contra mulheres sobem 23,7% em dias de jogos de futebol, justamente a temática da música. As agressões físicas crescem 20,8%. Os números são da pesquisa Violência Contra Mulheres e o Futebol, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Natura.
Como voluntária de Néias-Observatório de Feminicídios de Londrina concedi uma entrevista à rádio CBN Londrina na qual pude abordar a alta concentração de casos de violência em apenas dez dias na região, entre a última semana de junho e a primeira de julho. Coincidência ou não, período de Copa do Mundo.
A militância no Observatório me ensinou que a violência contra meninas e mulheres começa na palavra. No desmerecimento; na crítica infundada; na desvalorização das conquistas. Evolui, em relacionamento abusivos, para agressões verbais e violência física. E esse ciclo é alimentado pela cultura.
Uma cultura que banaliza, normaliza.
O que João Bosco chama de “identitarismo” eu chamo de clamor. Defender uma sociedade segura para meninas e mulheres não tem nada de ideológico e a mudança estrutural que precisamos passa por considerar inaceitáveis tais violência, mesmo como recreativas. Sigo mantendo a esperança em equilíbrio com a ação, até que não tenhamos mais que agir como equilibristas nos relacionamentos para nos manter íntegras e vivas.