O I Congresso Nacional de Saúde Mental LGBTI+, promovido pela Aliança Nacional LGBTI+, teve início reafirmando a importância de debater a saúde mental da população LGBTI+ em um momento decisivo de reconstrução das políticas públicas e dos direitos humanos no Brasil. O evento acontece até sábado (11/10) e reúne profissionais da saúde, pesquisadores, estudantes, ativistas e pessoas LGBTI+ de todo o país em uma ampla programação voltada ao cuidado, à inclusão e à valorização da diversidade.
O congresso conta com o apoio do Centro Universitário UniCuritiba, do Conselho Federal de Psicologia, da Secretaria de Saúde do Estado do Paraná e do Ministério da Saúde, fortalecendo a articulação entre o poder público, a academia e a sociedade civil na promoção de políticas mais justas e inclusivas.
Em meio a um cenário nacional marcado pela retomada de políticas sociais e de direitos, o congresso se insere como parte do esforço coletivo por um país mais justo, solidário e igualitário. Em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao discursar sobre os desafios de sua gestão, destacou que a missão seria “reerguer o edifício de direitos e valores nacionais que vinha sendo sistematicamente demolido nos anos recentes”, citando o esvaziamento de recursos da Saúde e o desmonte de áreas essenciais como Educação, Cultura, Ciência e Assistência Social.
Nesse contexto, a saúde mental da população LGBTI+ ganha destaque como pauta urgente. O diretor de Saúde Mental, Álcool e Drogas do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, destacou o compromisso da pasta com o fortalecimento das políticas públicas voltadas a populações em vulnerabilidade. “Populações LGBTI+ apresentam maior incidência de transtornos de humor, ideação e tentativas de suicídio. Também há barreiras de acesso à rede de saúde mental. Estamos formulando estratégias para ampliar o cuidado, qualificar profissionais e criar tecnologias de atenção que possam ser incorporadas ao SUS, em consonância com os princípios da reforma psiquiátrica e da promoção da equidade.”
Segundo a Aliança Nacional LGBTI+, o evento busca ampliar a visibilidade das questões que atravessam o bem-estar emocional e psicológico dessa população, promovendo o diálogo entre diferentes saberes e fortalecendo redes de apoio e cuidado.
O diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI+, Toni Reis, ressaltou que o momento também é de reafirmar a coesão e a solidariedade dentro da própria comunidade. “Surgiram grupos que defendem a exclusão de pessoas trans da sigla LGBTI+, e isso é inaceitável. A transfobia, a lesbofobia, a bifobia e a gayfobia são expressões de uma mesma estrutura de opressão, e nenhuma delas será superada pela fragmentação ou pela exclusão. As pessoas trans sempre estiveram conosco desde os primeiros levantes. Não deixaremos ninguém para trás”, afirmou.
A fala de Toni reforça a compreensão de que as violências estruturais e simbólicas seguem produzindo adoecimento psíquico e vulnerabilidade social. Esse entendimento foi compartilhado por Ibson Eduardo Batista, coordenador da área de Psicologia da Aliança Nacional LGBTI+, ao destacar a urgência de preparar profissionais mais humanizados. “Vivemos no país que mais mata pessoas LGBTI+, especialmente pessoas trans, e todo esse processo de violência gera adoecimento. O congresso surge para formar e sensibilizar profissionais que possam oferecer um atendimento mais qualificado e acolhedor.”
A deputada estadual Márcia Huçulak (PSD-PR) reforçou a importância do tema no contexto de intolerância e negação de direitos. “Nossa sociedade ainda é marcada pela violência e pela discriminação. Trazer à luz o debate sobre saúde mental é apresentar propostas e fortalecer o compromisso com a vida. A força da vida está conosco. Vamos lutar por uma sociedade justa e com ânimo, que respeite a todos.”
A professora Jaqueline Gomes de Jesus, do Instituto Federal do Rio (IFRJ), ressaltou a necessidade de avançar em políticas públicas que promovam transformação social. “A política pública precisa se mover a partir da denúncia, mas também oferecer instrumentos de transformação. Precisamos sair do lugar da dor e construir perspectivas positivas. O sofrimento é parte da vida, mas não precisa nos aprisionar. Falar de saúde mental é também falar de felicidade, de amor e de esperança.”
Na mesma direção, o psiquiatra e professor Saulo Ciasca, que ministrou a palestra magna do evento, destacou o papel do congresso na produção de conhecimento e na valorização da pesquisa. “A população LGBTI+ sofre impactos desproporcionais na saúde mental por conta do estigma e da discriminação. Esse evento é fundamental para iluminar o tema, fomentar a educação, a pesquisa e a formação de profissionais mais sensíveis e comprometidos com o cuidado.”
Realizado em um período de reconstrução democrática e de retomada das políticas de equidade, o I Congresso Nacional de Saúde Mental LGBTI+ reforça o compromisso da Aliança Nacional LGBTI+ e de suas entidades parceiras em promover um cuidado ético, humanizado e inclusivo.