Preciso confessar que antes da pandemia eu jamais tinha olhado pra testa de uma mulher. A gente se acostuma a ver as coisas sob certa perspectiva e tende a deixar a vida escoar presa a essa perspectiva.
Pois as máscaras descortinaram um mundo novo aos meus olhos
- Tá vendo?
- Tá vendo o quê?
- A testa daquela ruiva ali no balcão
- Que que tem?
- Ce não percebe?
- Tu tá doidão, mano?
- As linhas suaves, a leve insinuação dos sulcos - que denotam, ao mesmo tempo, uma personalidade já bem definida e um certo receio pela aproximação dos 35 -, a textura homogênea, a hidratação cuidadosa, a regularidade da fronteira capilo-cutânea, a ausência de fâneros, o tom abaunilhado que recende dos poros abertos e quase suplicantes por atenção - olha, sério, nunca vi nada parecido, é a perfeição, acha muito inapropriado eu pedir aquela testa em casamento?