A série se chama “Freud” e a sinopse confirma que o título se refere ao criador da psicanálise, mas não se trata de uma produção interessada em falar de Sigmund Freud (1856-1939) ou das teorias que ele desenvolveu na virada do século 19 para o 20. Essa produção da Netflix está para a biografia de Freud como “Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros” (2012), para a vida do presidente americano que foi assassinado em 1865.
Se alguém transformou Lincoln em um herói defilmes de horror que usa um machado para caçar monstros, fazer de Freud umdetetive meio charlatão parece fichinha. Mas isso não torna menos penosa aexperiência de ver “Freud”. (No caso de Lincoln, pelo menos o filme tem algumsenso de humor.)
Ah, mas você ainda pode rir vendo “Freud”,mas será de constrangimento.
Dividida em oito episódios e falada em alemão,dá para ver que a produção teve dinheiro para gastar numa reconstituição deépoca mais ou menos decente, mas os personagens e atores parecem saídos de umatelenovela mexicana na linha de “A Usurpadora”: são caricatos sem serengraçados e todos mais ou menos canastrões, incluindo o próprio Freud,interpretado pelo austríaco Robert Finster.
Na história, uma barbaridade tirada dacabeça de Marvin Kren, que também dirige os oito episódios, uma jovem éassassinada com crueldade na Viena dos anos 1880. Um dos policiais queencontram a jovem à beira da morte desconfia de um oficial que era amante dagarota, mas o sujeito tem costas quentes e a coisa fica por isso mesmo.
Numa ação paralela, conhecemos um jovemneurologista com cara de galã da novela das sete que tenta defender sua teoriasobre o inconsciente lançando mão de falcatruas como pedir para a governanta desua casa fingir que é hipnotizada. Freud é um sujeito inseguro, incapaz deolhar as pessoas nos olhos e viciado em cocaína (um dos poucos fatosrespeitados pela série).
Porque é médico, ele acaba sendo procuradopelos policiais que encontraram a jovem moribunda. Mas já era tarde demais eela morre sobre a mesa do escritório de Freud. Os policiais vão embora e deixamo corpo para trás, anunciando que mandarão alguém recolhê-lo. Quase na mesmahora, o escritor Arthur Schnitzler (vivido por Noah Saavedra) entra na casa deFreud (os dois eram mesmo contemporâneos, mas não eram amigos), faz pouco docadáver sobre a mesa e o convida para ir a uma festa bizarra, que lembra umadaquelas reuniões depravadas que Stanley Kubrick mostrou em “De olhos bemfechados” (não por acaso, inspirado no livro de Schnitzler, “Breve romance desonho”).
Naquela época, a alta sociedade vienense seentretinha com coisas estranhas como uma médium liderando uma sessão espíritaou a reprodução de cenas retratadas em obras de arte usando pessoas seminuas.Todo mundo muito entediado e muito bêbado.
Freud conhece a médium numa primeira festae, numa segunda, acaba entrando no quarto da moça sem querer, enquantoprocurava a porta de saída depois de entornar uma taça de vinho que não pareciaser só vinho.
Isso tudo, só no primeiro episódio. Nos próximos, Freud vai se unir à médium e à polícia para tentar descobrir quem matou a garota no início da história. Como isso vai acontecer, honestamente, não me interessa.
Serviço
"Freud", a série em oito episódios, está disponível na Netflix.