Ahistória de como virei fã de romances policiais começa numa livraria deCuritiba. Após passar pelo corredor pouco iluminado, com revistas dos dois lados,entramos no salão acarpetado, mobiliado com mesas grandes cobertas de livros. Tudona livraria tornava o ambiente aconchegante.
Eu davauma olhada nas estantes, sem encontrar nada que me chamasse atenção, quando meupai mostrou um livro com a lombada azul piscina e uma foto em preto e branco nacapa, dizendo a frase: “Este livro tem a cena de suicídio mais impressionante que já li”.
Euestava acostumado com os exageros do meu pai, que fazia a propaganda ser àsvezes muito melhor do que a coisa de fato. Quando ele disse “a cena de suicídiomais impressionante que já li”, não pensei que fosse tudo isso.
Peguei o livro e sentei numa poltrona confortável, e abri “O silêncio da chuva”, que começa com a tal cena de suicídio. Eu não era um leitor há tempo suficiente para ter muita credibilidade (tinha 13 anos), mas: meu Deus! Era com certeza a melhor cena de suicídio que eu tinha lido.
Umtrecho que ilustra a genialidade da cena: “Abriu o porta-luvas e retirou o maçode cigarros, guardado desde que decidira deixar de fumar, pouco mais de doismeses antes. Saboreou o cigarro lentamente; as tragadas fortes, após longotempo de abstinência, deixaram-no ligeiramente tonto, mas não o suficiente paraalterar-lhe a lucidez. Assim que terminou, fechou novamente os vidros, abriu apasta, retirou o revólver, encostou o cano na têmpora direita e puxou o gatilho”.
Issome chocou, me surpreendeu e me conquistou.
Olhei parao meu pai com os olhos arregalados e quase implorei para levar o livro. Depoisdescobri que esse foi o primeiro romance policial escrito pelo psicanalistacarioca Luiz Alfredo Garcia-Roza.
Hoje, poucomais de um ano depois do meu primeiro contato com sua escrita fluida, estou nametade do quinto livro protagonizado pelo detetive Espinosa, com o título“Perseguido”.
Eudiria qual é o meu livro preferido entre os que li, mas são todos tão bons quenão consigo escolher. Adquiri o hábito de sempre ler umas poucas páginas dealgum livro antes de dormir e, quando o livro é um Espinosa, fico ansioso parapoder deitar e ler.
Muitas vezes fico tão animado lendo que passo mais tempo acordado do que ficaria se simplesmente deitasse e apagasse a luz. Foi o Garcia-Roza que fez eu me apaixonar por romances policiais e me inspirou de tal forma que comecei a escrever um romance policial (mas ainda não passei da primeira página).
Garcia-Rozaparecia ser um sujeito muito carismático e simpático. Ele morreu há pouco maisde uma semana. Não tive a chance de conhecê-lo pessoalmente, mas conheci seuslivros.
E issoé o bastante para mim.