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A Suburbana como porto seguro

De Haiti a Camarões. Conheça a história de migrantes que jogam hoje no futebol amador de Curitiba

A Suburbana como porto seguro
Romeo, de Camarões para Curitiba. Foto: Rafael Buiar/Agência Drap

Diz-se que o futebol é uma língua universal, mas em Curitiba, ele é também um mapa de navegação para quem cruzou oceanos fugindo de tempestades sociais. Nas manhãs de sábado, os campos da Suburbana deixam de ser apenas retângulos de grama para se tornarem o porto seguro de uma nova geração de imigrantes.

Para quem chega de fora, o Brasil é um mar desconhecido. O idioma é uma correnteza forte e a burocracia, um nevoeiro denso. É no cais do futebol amador que muitos desses "marinheiros" encontram terra firme.

O "Príncipe" e o farol da comunidade

A trajetória de Georges, o volante do Nova Orleans (ou o nosso "Príncipe do Haiti"), é o exemplo perfeito de como a bola funciona como um farol. Ao desembarcar em 2017, Georges não fugia apenas da crise em sua terra natal; ele fugia de um destino onde a farda policial era a única, e perigosa, saída.

No Haiti, o pai de Georges viu no Brasil não um eldorado de riqueza, mas um campo de paz. E Georges descobriu que, para aprender a "falar brasileiro", não era preciso dicionário, mas sim o convívio nos vestiários. O campo foi sua primeira escola de português. Ao vestir a camisa e dividir a resenha, ele deixou de ser o "estrangeiro" para ser o companheiro de equipe. A Suburbana o acolheu não pelo que ele trazia na mala, mas pelo que ele entregava no gramado.

Romeo: O Sonho que encontrou abrigo

Se Georges encontrou a voz no futebol, o camaronês Tchano Romeo, do São Braz, encontrou o respeito. A história de Romeo é um lembrete de que o futebol profissional, muitas vezes, é um oceano cruel que descarta talentos por "centímetros a menos" ou "quilos a menos". Romeo dividiu campo com estrelas como Aboubakar, mas no Brasil, foi julgado pelo porte franzino e golpeado pela vulnerabilidade, como no triste episódio do roubo em Sergipe.

Georges, um haitiano em Curitiba. Foto: Vinícius de Prado/Agência Drap

Mas, como todo bom marinheiro que conhece a força da maré, Romeo não naufragou. Ele navegou até encontrar o abrigo da família de Romildo e a camisa do São Braz. Recentemente (no fim do ano de 2025), no Estádio Jardim Independência, ele soltou o grito de campeão da Série C. Aquele troféu não era apenas metal, era a prova de que, mesmo quando o mercado profissional fecha as comportas, a Suburbana mantém as suas abertas.

Uma cidade de braços abertos

Georges e Romeo não são casos isolados. Eles são os "embaixadores" de uma Curitiba que, através do esporte, se redescobre multicultural. Venezuelanos, cubanos e africanos estão redesenhando a face do nosso futebol amador.

O que se vê nos gramados de Curitiba hoje é a prova de que a Suburbana não é apenas o futebol "raiz" que resiste ao tempo, pois podemos observar que é o futebol que se regenera através da diversidade. Quando o juiz apita, o sotaque haitiano de Georges e a resiliência camaronesa de Romeo deixam de ser marcas de uma "estrangeirice" para se tornarem o motor da equipe.

Desta forma, a Suburbana prova que o seu maior legado não reside nas estatísticas de gols, mas na sua capacidade de ser acolhimento. Em tempos de fronteiras rígidas, os bairros curitibanos ensinam que a bola é a melhor ferramenta para construir pontes onde o mundo insiste em erguer muros. Ali, no calor da disputa e na resenha do pós-jogo, o imigrante deixa de ser um "outro" para se tornar o herói do bairro. É a vitória do encontro sobre a solidão.

Rafael Buiar

Rafael Buiar

Jornalista há mais de 10 anos, gestor criativo e idealizador do projeto DRAP. Com uma visão macro e estratégica, lidera o desenvolvimento editorial e institucional da iniciativa, que há 14 anos valoriza o futebol amador e suas histórias.

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