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Empatia é algo belo demais para reservar a poucos

Precisamos nos questionar sobre nossos preconceitos e mudar o modo como vemos os outros

Por Admin
Empatia é algo belo demais para reservar a poucos
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Eu desejo que tenhamos relações mais empáticas. Vamos conversar com mais empatia. Leio recorrentemente essas e outras frases em grupos de Whatsapp, em mensagens postadas nas redes sociais. Por vezes, eu as ouço em conversas despretensiosas em cafés - quando estou sozinha e é inevitável não ser um pouco "ouvinte sem ser convidada" da conversa alheia. Tenho certeza que você já passou por isso.

Por um momento me encho de esperança, de vislumbrar que as pessoas estão percebendo que, sim, de fato, precisamos ser seres humanos mais empáticos. Mas, essa esperança ganha algumas rachaduras quando no emaranhado de mensagens que clamam por empatia, surgem - das mesmas pessoas - um forte desejo de banir migrantes de suas cidades, de seus bairros, por exemplo. De repente, aqueles e aquelas que clamam por empatia expressam seu real sentimento de raiva ao ver pessoas de outras nacionalidades trabalhando em nosso país, em nosso estado.

"Esse bando que veio roubar nossos empregos", disse uma vizinha que adora a palavra empatia. O que talvez a vizinha nem saiba é que uma em cada quatro pessoas refugiadas é empreendedora no Brasil, ou seja, tem um negócio próprio. Desses refugiados empreendedores, cerca de 4% estão empregando outras pessoas, de acordo com dados da pesquisa Perfil Socioeconômico dos Refugiados no Brasil ( 2019), elaborada pelo ACNUR em parceria com universidades brasileiras. 

O Karim, um rapaz da síria que está refugiado noBrasil, está trabalhando como motorista de uber, por exemplo. Já, a Myria,também da Síria, zerou o jogo do empreendedorismo. Ela tem uma marca de joiascom pedras brasileiras; tem uma banda, a Alma Síria, com o irmão e a cunhada;tem empresa de encomenda de comida árabe com os pais, a Yasmin Comida Árabe; e,assim, de vez em quando, organiza encontros transculturais na casa de suafamília para pequenos grupos fechados.

Olhe ao redor e veremos pessoas. Não refugiados.Pessoas, tentando encontrar caminhos de existir e ter uma vida digna como eu evocê. O Paraná está entre os três estados que mais acolhem pessoas refugiadasno Brasil. Logo, como essas pessoas estão sendo acolhidas deve ser umapreocupação de quem vive no Paraná. Se ao olhar para o lado, enxergarmos maisobstáculos nos caminhos deles e delas do que nos nossos, quero acreditar quesomos capazes de ir lá e agir em favor desse outro, dessa outra. Toda ahumanidade perde quando algumas vidas estão sendo violadas, negligenciadas.

Às vezes, me pergunto, e se as pessoas descobrissemque empatia não é só uma palavra bonita e muito menos está associada abenefício próprio? Será que continuariam desejando empatia ou encontrariam umaoutra palavra para esvaziar do seu sentido que abarca o coletivo e preenchê-lacom um sentido que comporta apenas o próprio grande eu?

Empatia começa com o reconhecimento e a afirmação dooutro, da outra. Para desenvolvermos empatia é preciso considerar legítima aexpressão de sentimento e necessidade desse alguém que não sou eu. É claro queé mais fácil desenvolver empatia entre aqueles e aquelas que compartilhamsemelhanças, como: estão na mesma classe social, autoindentificam-se com amesma raça, percebem-se com o mesmo gênero. Porém, é muito possível desenvolverempatia para além do universo das semelhanças e essa é a beleza dessa palavra,essa é a força que ela representa.

No caso da população refugiada no Brasil, os trêsfatores que mais dificultam a integração dessas pessoas ao país são: opreconceito por ser estrangeiro (xenofobia), o preconceito pela raça (racismo),o preconceito pela orientação sexual (homofobia ou transfobia), segundo osdados da pesquisa citada anteriormente. Preconceitos que podem se concretizarem atos discriminatórios psicológicos ou físicos, mas que também podem aparecerde forma velada, como por exemplo dificultando o atendimento médico a pessoasrefugiadas.

O aprendizado da empatia talvez possa transformar essepreconceito estrutural, que surge e se perpetua por meio das nossas relaçõessociais. Surpreenda-se você, o aprendizado da empatia só acontece no coletivo.Ninguém desenvolve empatia em relação a outras pessoas sozinho. A empatia seaprende devido ao trabalho dos nossos "neurônios-espelho". Sabequando alguém começa a chorar e você automaticamente tem vontade de chorarjunto? São os neurônios-espelho trabalhando. E você só chora junto porque o seucérebro reconhece que você conhece aquela reação, ela é familiar para você.Para desenvolver empatia acerca da situação de refúgio, podemos prestar atençãonas pessoas que passam por isso, conversar.

Talvez, para muitas e muitos de nós seja inimaginávelo que a população da Venezuela esteja passando. Eu mesmo nunca estive lá. Nãoconheço a Venezuela. Mas, há algumas necessidades e sentimentos que essaspessoas estão passando e que qualquer um de nós pode reconhecer: a necessidadede segurança, o sentimento de se sentir em paz. A necessidade de segurança éalgo que os brasileiros conhecem bem, aliás, foi com um discurso pautado nessanecessidade que o atual presidente se elegeu. Você lembra? A populaçãovenezuelana também tem necessidade de segurança. Acredite! Os mais de 17 milvenezuelanos e venezuelanas que estão solicitando refúgio em nosso país estãobuscando suprir essa mesma necessidade. Almejam poder sentir paz novamente.

O medo brasileiro de que essa população torna o paísmais violento ou inseguro é um mito pautado no imaginário coletivo de que oestrangeiro representa o mal, de que o estrangeiro é um criminoso. E são mitoscomo esses que sustentam preconceitos. Se nos permitirmos substituir mitosantigos - até mesmo milenares - por outras narrativas construídas em fatos (nãoem fake news) e na compreensão de nossa humanidade, de nossas necessidades esentimentos comuns, talvez possamos nos ajudar enquanto sociedade. Talvezpossamos, de fato, sermos uma sociedade livre de preconceitos e mais empática.

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Tags: Paraná

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