A Prefeitura de Curitiba publicou em suas redes sociais um vídeo em que procura desmentir a possibilidade de desmatamento do Bosque da Copel, no bairro Bigorrilho, o que gerou pedidos de informações e a abertura de uma investigação preliminar do Ministério Público do Paraná (MP-PR). O vídeo diz que vem sendo divulgada uma “notícia inverídica” sobre a construção de 21 prédios na área e pede para “chamar o VAR”, mas acaba complicando ainda mais a situação.
A apresentadora diz que apenas um lote pertence à Prefeitura e que os outros que compõem a área de 47 mil metros quadrados “são particulares e foram vendidos”. O bosque tem quatro Indicações Fiscais. A Prefeitura deixa claro que se responsabiliza apenas pela área pública, onde fica a edificação conhecida como “chapéu pensador", e informa que até o momento não há nenhuma autorização para construção em toda a área.
"Apenas uma parte do terreno pertence à Prefeitura de Curitiba, onde está localizado o chapéu do pensador, e nos garantimos que não há nenhuma previsão de corte de árvores na área pública. Já a outra metade foi vendida pelo antigo proprietário e está agora sob a responsabilidade de terceiros", diz o vídeo divulgado pela Prefeitura na noite desta quinta-feira (16).
O material ignora que em dezembro de 2018 o prefeito Rafael Greca e a governadora Cida Borghetti assinaram um protocolo de intenções para transformar toda a área em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural Municipal (RPPNM).
A informação sobre a venda indica que o protocolo de intenções foi ignorado pelo governador Ratinho Júnior (PSD), que assumiu em 2019, e pelo presidente da Copel nomeado por ele no mesmo ano, Daniel Pimentel Slaviero – irmão do atual prefeito, Eduardo Pimentel (PSD), que era vice de Greca quando o documento foi assinado.
Depois de ser privatizada por Ratinho Júnior, em 2023, a Copel vendeu as vilas de Faxinal do Céu, em Pinhão, de Reserva do Iguaçu e de Antonina, além de 13 usinas de pequeno porte para o grupo Electra. A reportagem entrou em contato com a Copel no início da semana, mas a venda da área não foi confirmada pela companhia. O Plural fica aberto a uma eventual manifestação da Copel.
Nota da Prefeitura
Na quarta-feira (15), a Prefeitura emitiu uma nota informando que até o momento não há protocolo em tramitação na Secretaria Municipal do Urbanismo referente à construção de edificações nas demais Indicações Fiscais. Segue a nota:
Das quatro Indicações Fiscais (IFs) que compõem o lote mencionado — identificadores cadastrais usados pela Prefeitura para localizar e administrar cada imóvel —, apenas uma, onde está localizado o Chapéu Pensador, pertence ao Município. Não há nenhuma previsão de corte de árvores por parte da Prefeitura. Até o momento, também não há protocolo em tramitação na Secretaria Municipal do Urbanismo referente à construção de edificações nas demais IFs do terreno em questão; assim como não há recursos junto ao Conselho Municipal de Urbanismo que tratem da viabilidade de empreendimentos no local. A Prefeitura de Curitiba reforça que não autoriza construções que estejam em desacordo com a legislação ambiental vigente.
Secagem de araucárias
Independentemente do proprietário da área, o caso será investigado pelo Ministério Público, pois no terreno há araucárias e a nascente do Rio Campina do Siqueira, afluente do Rio Barigui. Segundo a vereadora Laís Leão (PDT), há relatos de secagem e envenenamento de araucárias.
Na segunda-feira (13), Laís Leão encaminhou pedidos de informação à Secretaria Municipal do Urbanismo (SMU) e à Secretaria de Meio Ambiente (SMMA), além de ofícios à Copel, à Secretaria de Estado do Desenvolvimento Sustentável (Sedest) e ao MP-PR. A vereadora Giorgia Prates (PT) e o deputado estadual Requião Filho (PDT) também cobraram informações.
Laís Leão protocolou nesta sexta-feira (17) uma indicação de sugestão à Prefeitura, para que sejam adotadas medidas para recuperação pública da área. "A recuperação pública aqui proposta não implica em desapropriação ou transferência compulsória de domínio, mas na adoção de instrumentos legais e urbanísticos previstos no Estatuto da Cidade e na legislação ambiental vigente, que possibilitem a preservação e o manejo sustentável da área, seja por meio de convênios, compensações, parcerias, incentivos fiscais ou destinação a uso público ambiental", diz a proposta.
"Fizemos diversas perguntas a diversos órgãos, estamos recebendo via imprensa algumas respostas, mas a gente ainda quer saber a pergunta mais importante que esses moradores nos trouxeram: por que esse terreno foi vendido, se foi vendido? Por que uma área verde, que demanda preservação, foi vendida como investimento privado? E por que aquele bosque, aquela área de reserva de patrimônio natural, que foi prometida em 2018, não se tornou de fato uma reserva", disse Laís Leão.
Segundo a vereadora, a área presta um serviço à região. "Temos uma questão urbanística importante, porque é uma área já bastante densificada, com bastante pressão de trânsito, bastante pressão de drenagem. O espaço do bosque faz um grande serviço ambiental à cidade, de manutenção da nossa temperatura, de manutenção do nosso escoamento das águas, de manutenção do nosso fluxo urbano".
Abaixo-assinado
Moradores da região lançaram um abaixo-assinado pela preservação do bosque. Até a manhã desta sexta, 2,1 mil pessoas já tinham assinado. Acesse clicando aqui.
Criado na década de 1970, o Bosque da Copel fica entre as ruas Padre Agostinho, Luiz Leitner, Lúcio Rasera e Vitorino Kaviski.