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Onde Curitiba transa: o mapa do amor (e do prazer barato) da capital paranaense

A gente cruzou 517 mil alvarás da Prefeitura com a busca do Google e descobriu onde mora oficialmente o tesão curitibano. Spoiler: o Centro tem 10 sex shops, o Boqueirão tem 11 motéis. A geografia do sexo formal da capital paranaense é tão certinha quanto

Onde Curitiba transa: o mapa do amor (e do prazer barato) da capital paranaense
Foto: Aleksandr Popov / Unsplash
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Tem cidade que esconde o sexo nos cantos e vielas. Tem cidade que coloca em outdoor. Curitiba, fiel à sua personalidade meio severa, faz uma coisa muito curitibana: registra tudo, mas finge que não registrou.

A Prefeitura tem 3 alvarás classificados como "loja de produtos eróticos". O Google encontra 26 sex shops em atividade plena, com vitrine, telefone e avaliação de 4 estrelas. Não dá pra dizer que o varejo erótico da capital é clandestino — ele paga IPTU, tem porta aberta, vende vibrador às quartas-feiras. Só que se cadastra como "perfumaria", "loja de presentes" ou "comércio varejista de produtos diversos manufaturados em plástico" (juro que existe esse CNAE).

Pegamos esses dois universos — o que a Prefeitura licencia e o que o Google indexa — e botamos no mesmo mapa. Resultado: 213 estabelecimentos formais do comércio adulto curitibano, distribuídos com uma lógica geográfica surpreendentemente clara.

Comércio adulto em Curitiba

Sauna e massagem retiradas a pedido
⚠️ Filtro baseado nas atividades (CNAE) declaradas pelo estabelecimento no CNPJ e no perfil no Google Business.
Fontes: Alvarás PMC + Google Places

O sex shop é coisa do Centro

Das 28 lojas mapeadas, 10 ficam no Centro. Trinta e seis por cento. É o tipo de concentração que padaria não tem, que pet shop não tem, que cafeteria de especialidade não tem. Sex shop, sim — e a razão é histórica: a Avenida Sete de Setembro e a Marechal Floriano formam, desde os anos 1980, o que poderíamos chamar de eixo do prazer discreto. Loja com vitrine fosca, entrada pela esquina, frequência intensa nas sextas-feiras à noite.

Os 18 sex shops restantes pulverizam-se em 15 bairros diferentes. São Francisco, Portão e Hauer empatam com 2 cada. Vila Izabel, Cabral, Cajuru, Guaíra, Seminário, Vista Alegre, Água Verde, São Lourenço e Hauer aparecem com 1 — uma loja por bairro, geralmente em galeria comercial, sempre meio escondida. Ninguém abre sex shop na esquina de igreja.

A sauna mora no quadrilátero histórico

São 78 saunas mapeadas na cidade. Centro tem 19, Rebouças tem 7, Alto da Rua XV tem 7, Batel tem 6. Em quatro bairros encostados uns nos outros, mora metade da oferta da capital. Esse pedaço de Curitiba — entre o Largo da Ordem e o Passeio Público, descendo a Comendador Macedo até a Praça Generoso Marques — sempre foi o circuito adulto histórico da cidade. O Batel entrou depois, na onda da gentrificação.

Vale o aviso metodológico do gosto popular: "sauna", em Curitiba, é palavra com pelo menos três sentidos. Tem a sauna do clube com tabuão de cedro. Tem a sauna do hotel cinco estrelas. E tem a sauna que é sauna, que é onde a gente está falando. O Google e os alvarás não distinguem perfeitamente — mas a clientela e a Wikipédia local sabem qual é qual.

O motel foge do Batel e mora no Boqueirão

Aqui o mapa inverte completamente. Sex shop quer Centro; motel quer rodovia.

O motel é negócio de fluxo, não de bairro. Precisa de garagem coberta, vaga pra carro com vidro escuro, acesso rápido pelo asfalto largo. O Batel tem zero motéis. Tem todos os apartamentos caros da cidade, mas zero motéis. Isso não é coincidência — é zoneamento e Plano Diretor. A elite curitibana fez questão de empurrar o motel pra periferia desde os anos 1980. E ela ficou na periferia.

O que sobra na zona central são 6 motéis no Centro — em geral edifícios antigos, com cara dos anos 1970, frequência mais informal, preço por hora muito mais baixo que o eixo Mossunguê. É o motel do amante de classe média baixa, o motel da fuga rápida do almoço. Coisa diferente do motel-resort que tem hidromassagem e vista pra BR.

O strip club virou casa de swing

Curitiba tem 15 casas de show adulto no mapa inteiro. Centro (3), São Francisco (3), Batel (2), Bairro Alto (2), e ponto. A boemia da Catedral — região do Largo da Ordem até a Riachuelo — segura cinco dessas casas. O resto se espalha sem padrão.

Mas se você olhar de perto, quase nenhuma é "strip club" no sentido clássico — aquele com palco, poste e dançarina que recebe gorjeta no elástico da meia. Re-consultamos cada uma no Google: das 15, só três (Class Night Club, Metro Club Show, New House) ainda se descrevem como night club no modelo antigo. A maioria virou casa de swing ou balada liberal: EClub, Fantasy Club CWB, Secrets, Hot Bar Curitiba, Erótic Club, Club Vibe, Tangie Under. Clientela que entra em casal, anuidade de club no lugar do programa pago por hora, e o que era show de palco virou ambiente de socialização adulta.

A mutação é a história inteira do segmento na cidade: nos anos 1990, Curitiba teve uma fase de quase 40 boates "de mulher". Hoje, sobraram três. O modelo morreu, mas o espaço físico (e o CNPJ) seguiu — só trocou de personalidade. O que era boate de strip nos anos 1990 virou casa de swing nos anos 2010, e agora compete com acompanhantes via Telegram, escort no Privacy, sauna integrada com massagem. O palco com poste é praticamente item de museu urbano — sobrevive só onde tem turista (Centro, São Francisco) e entorno noturno robusto (Batel).

A pergunta de zoneamento

Tudo isso desenha um mapa do sexo que pode aparecer. Os 213 estabelecimentos formais não são o mercado adulto inteiro da capital — são a parte que aceitou ter endereço, telefone público, possivelmente vitrine. A parte oculta (apartamentos, condomínios, encontros agendados via app) deve ser pelo menos três vezes maior, segundo estimativas de pesquisadores da própria UFPR que estudam economia informal urbana.

Para quem faz política pública, o mapa importa por dois motivos: (1) mostra que existe um padrão de zoneamento de fato — motel na rodovia, sex shop no centro velho, sauna no eixo histórico LGBT, massagem premium em bairro premium — que nunca foi escrito em lei nenhuma; (2) evidencia que a Prefeitura ignora deliberadamente seu próprio direito de classificar e fiscalizar essas atividades. Não é falta de dado; é falta de vontade. E enquanto a categoria "sex shop" não existir no CNAE municipal, qualquer fiscalização sanitária ou de segurança em sex shop vai bater no muro da imprecisão burocrática.

Mas, para quem só quer um vibrador, um motel barato ou uma noite de sauna sem juízo moral, o mapa é mais útil ainda: mostra exatamente onde Curitiba ainda transa. Mesmo fingindo que não.

Como o levantamento foi feito

Alvarás da Prefeitura Municipal de Curitiba (mais de 517 mil registros vigentes): filtramos a atividade principal e as até 99 atividades secundárias declaradas em cada alvará, buscando menções a produtos eróticos, motéis e saunas. O cadastro municipal devolveu 41 motéis, 49 saunas e apenas 3 sex shops. A categoria "massagem", com 649 registros, é dominada por massoterapeutas legítimos e foi excluída da análise principal para evitar conflação com o varejo adulto.

Google: dez consultas direcionadas (sex shop, loja de produtos eróticos, artigos eróticos, motel, sauna gay, casa de banho, massagem tântrica, massagem sensual, strip club, casa de show adulto), com localização restrita a Curitiba e paginação de até três páginas por consulta. Os resultados foram filtrados pela área geográfica do município, descartando estabelecimentos de cidades vizinhas. O Google identificou 26 sex shops, 22 motéis, 32 saunas, 29 anúncios de massagem e 15 casas de show adulto.

Geocodificação: os 93 alvarás municipais que não vinham com coordenadas foram localizados a partir do cadastro de lotes do IPPUC, casando nome da rua e número predial. Resolvemos 89 dos 93 endereços — taxa de 96%. A atribuição de bairro para todos os pontos usou os polígonos oficiais da divisão administrativa da capital.

Limitações: o levantamento sub-representa a economia paralela do sexo (operações em apartamentos, condomínios e encontros agendados por aplicativos). O cadastro municipal captura apenas o formal; o Google captura apenas o que escolhe aparecer nas buscas. Os dois canais juntos são uma fatia parcial — provavelmente minoritária — do mercado adulto real da cidade.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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