As canetas emagrecedoras ou injeções de hormônios GLP-1 e GIP conquistam cada vez mais destaque nos consultórios, nas farmácias e nas conversas a respeito de perda de peso. E seus avanços estão sendo rápidos, resultados de grandes investimentos dos laboratórios farmacêuticos. Com menos efeitos colaterais, novos registros na Anvisa, quebras de patentes e preços mais competitivos, a popularidade delas cresce tanto que surge uma dúvida: as cirurgias bariátricas vão sobreviver?
De 2020 até 2023, o número de cirurgias bariátricas no Brasil só cresceu. Segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) com dados do Datasus e da ANS, o pulo foi de cerca de 41 mil para 71 mil por ano. A partir de 2023, a “febre” das canetas emagrecedoras aumentou. O medicamento já era comercializado (Saxenda/Liraglutida e Ozempic/Semaglutida), mas com o lançamento do Wegovy (Semaglutida) e Mounjaro (Tirzepatida) virou objeto de desejo – tanto dos pacientes com prescrições quanto de quem busca um corpo magro a qualquer custo. Com tanta procura, estiveram até em falta nas farmácias. Pensando em negócios, o mercado brasileiro de GLP-1 já movimenta cerca de 6 bilhões de reais por ano, com perspectiva de alcançar 10 bilhões de reais até 2026, segundo avaliação do BTG Pactual.
Escolhas
A enfermeira Priscila Cunico pesquisou opções para perda de peso em 2025, após o diagnóstico de esteatose hepática (gordura no fígado) e adenomas hepáticos (tumores benignos). Como tratamento, era preciso emagrecer cerca de 25 kg. Primeiro buscou o procedimento cirúrgico. "Para a gente conseguir fazer a cirurgia, tem todo um envolvimento da família junto, o apoio no pré-operatório e no pós-operatório que são complicados, por exemplo, tem que comer só líquido para a cicatrização. E a minha família não apoiava por ser um procedimento muito agressivo", diz ela.
A pesquisa continuou. Ela descobriu aplicativos de emagrecimento e encontrou um desenvolvido por um médico endocrinologista para baratear o acesso ao tratamento. O pagamento é mensal e dá direito à consulta com o endocrinologista e com a nutricionista (quando assinou o serviço ainda estava incluso o acompanhamento com psicólogo). O início da jornada foi com a reeducação alimentar, com dieta personalizada, e depois com o acréscimo do remédio e acompanhamento constante para ajustes de doses e tipos devido aos efeitos colaterais. “O meu emagrecimento está sendo gradativo e com o acompanhamento online. Eu comecei em março, pesando 101 kg, e em 10 meses estou com 84 kg”, fala a enfermeira.
Muitos brasileiros seguiram a escolha dela no ano passado. A procura aumentou 88%, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento (MDIC) publicados pela CNN Brasil. Por sua vez, o número de procedimentos cirúrgicos diminuiu 18%, totalizando menos de 56 mil.
Motivos
O cirurgião do aparelho digestivo Flávio Panegalli Filho, integrante da equipe do Instituto Giorgio Baretta e do Centro Médico do Hospital Vita, confirma que houve redução no número de procedimentos. Entretanto, afirma que foi transitória. "Grande parte dos pacientes não obteve o resultado esperado com a medicação e/ou ganhou peso após a interrupção do uso, levando à procura pela cirurgia novamente”, fala o médico que realizou centenas de cirurgias bariátricas em nove anos de carreira.
O custo elevado das canetas emagrecedoras para obter resultados como os do tratamento cirúrgico é preciso o uso contínuo e prolongado, com acompanhamento médico. “O custo das medicações, dependendo da dose utilizada, pode ultrapassar facilmente o valor de um salário mínimo aqui no Brasil. O que torna a opção financeiramente inacessível a grande parcela da população. A cirurgia também tem os seus custos, eles são maiores apenas na realização do procedimento. A manutenção posterior tem um custo menor que o uso prolongado das medicações”, diz o cirurgião.
Ele também explica que no curto prazo e com acompanhamento adequado os resultados dos medicamentos se aproximam dos proporcionados pela cirurgia, mas o quadro muda com o passar dos anos: "No longo prazo a cirurgia é superior e com resultado mais duradouro. Claro que ambos dependem dos cuidados do paciente quanto à alimentação e atividade física, mesmo a cirurgia. Porém normalmente nos pacientes que operam há um comprometimento maior com os cuidados necessários.”
Estudos
A análise do cirurgião é validada por pesquisas. Estudos de The New England Journal of Medicine (NEJM), The Lancet Diabetes & Endocrinology e do BMJ (British Medical Journal) apontam que pacientes tratados com semaglutida ou liraglutida voltam a ganhar peso após parar o medicamento, e isso acontece mais rápido do que nos operados.
Apesar das recentes mudanças no número de cirurgias bariátricas, o Paraná historicamente se mantém nas primeiras posições do ranking nacional no Sistema Único de Saúde (SUS), conforme dados do DATASUS. Curitiba, por exemplo, tem mais de 10 clínicas particulares especializadas cadastradas no Conselho Regional de Medicina (CRM-PR), a maioria está em funcionamento há mais de uma década.
Futuro
Para os próximos anos, o cirurgião avalia que a diminuição das cirurgias deve continuar, mas sem grande impacto, pois a cirurgia e a medicação para emagrecimento são consideradas tratamentos que se complementam e não cuidados isolados. Em alguns casos, comenta ele, pacientes operados reganham peso em longo prazo por diversos motivos e, então, podem ser utilizadas as medicações ou até uma outra cirurgia. “Não acredito que a cirurgia bariátrica deixará de existir por conta das medicações, mesmo sendo favorável ao uso delas e sabendo que ainda existem muitas outras medicações com essa finalidade em desenvolvimento", complementa Panegalli Filho.