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“Uma Juventude Fascinante” levou 15 anos para chegar ao palco em seu melhor momento

Diego Fortes, Leandro Daniel Colombo e Gabriela Freire falam sobre a peça da companhia A Armadilha, em cartaz até 22 de dezembro, no Teatro Miniguaíra

“Uma Juventude Fascinante” levou 15 anos para chegar ao palco em seu melhor momento
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“Uma Juventude Fascinante” está em temporada em Curitiba. A peça de teatro é dirigida por Diego Fortes, que também é o responsável pela tradução do texto original do chileno Guillermo Calderón. Com assinatura da companhia curitibana A Armadilha, a montagem levou praticamente 15 anos para chegar aos palcos e a história dos bastidores pode até parecer teimosia aos desavisados. Não é nada disso, é um daqueles enredos em que a roda do tempo gira e a arte continua a fazer sentido, enquanto ganha novos sentidos. 

Foram várias tentativas que não vingaram, o mundo mudava e o projeto continuava apenas no papel. Agora, na versão bem humorada que Fortes contou em entrevista ao Plural, tudo finalmente deu certo porque “os astros se alinharam” e a temporada de estreia do espetáculo segue em cartaz até 22 de dezembro, no Miniguaíra. Os atores Leandro Daniel Colombo e Gabriela Freitas, que se conheceram nas gravações do filme curitibano “Entrelinhas” (2023) e trabalham novamente juntos na peça, também participaram da conversa com o jornal.

Em “Uma Juventude Fascinante”, Gabriela interpreta a única aluna que vai para a aula enquanto acontece a “revolução dos pinguins”, uma grande manifestação dos estudantes secundaristas chilenos por melhorias na educação, em 2006. Ela pretende fazer uma dissertação sobre a vida do Buda. Entretanto, quando o professor (personagem de Daniel Colombo) encontra apenas a garota na sala, resolve fazer uma aula especial com apontamentos sobre o que ele julga importante para a vida, coisas que ninguém o ensinou. "Mas isso é pouco", diz o diretor dando uma pista de que há muito mais em cena.  

Calderón “escreve como nenhum outro autor contemporâneo”

A paixão pelo Guillermo Calderón e a vontade de montar suas peças não são novas na vida de Diego Fortes. Elas nasceram em 2009, em um teatro na cidade de Buenos Aires - AR, quando assistiu “Clase” (“Uma Juventude Fascinante") e ainda na mesma semana esteve na plateia de "Diciembre" ("Dezembro"). Ali teve a epifania: “o cara é um fenômeno". O eco das frases dos espetáculos em sua cabeça renderam a tradução dos textos, um atrás do outro, e confirmaram o encanto pela prosa poética e provocativa do autor. “Você nunca se entedia lendo Calderón. (…) Ele escreve como nenhum outro autor contemporâneo. Eu tive essa impressão em 2009 e, quanto mais o tempo passou, mais ficou claro: ele é, de fato, um dos principais autores contemporâneos”, afirma o diretor.

“O humor está no olhar de quem observa”

Três características das duas peças o impressionaram. Primeiro, o aspecto político ligado à história da América Latina, um tema caro para ele e também para a companhia A Armadilha (fundada por Fortes em 2001, e que já montou textos como “Orinoco”, do mexicano Emílio Carbalido, “Duas da Manhã”, da argentina Lola Arias, e a própria "Dezembro"). 

O segundo ponto foi a maneira de escrever. O diretor explica que nas obras existem blocos de texto com imagens, provocações e alegorias comuns à música. “A gente fala muito de rap, do quanto cabe no mesmo fôlego, do quanto você consegue acessar de informações, sensações, e imagens através desse texto veloz e volumoso”, diz sobre a montagem de agora.

O humor peculiar completa a tríade. “Uma Juventude Fascinante”, por exemplo, apresenta assuntos graves, como tentativas de revolução, utopia, ideologia, fracasso, ressentimento, esperança e luta estudantil. Para Fortes, o autor é habilidoso em não ser taxativo e fugir do piegas, assim coisas sérias ganham certa ironia. O riso nasce nos confrontos propostos, que nos levam a perceber que não estamos cobertos de razão, “essa falha humana acaba se tornando engraçada”. O diretor confessa achar o texto hilário, mas justifica: “Obviamente, o humor está no olhar de quem observa."

“A gente está fora da festa”

A respeito do número de montagens de Calderón por aqui, Fortes afirma que há uma questão brasileira nisso: o mau hábito de olhar para o teatro da Europa e Estados Unidos, e não para o da América Latina. “O mais triste é que eles se conhecem, e a gente está fora da festa. A Lola [Arias] conhece o Guillermo… Todos eles se frequentam: os diretores chilenos estão no Uruguai, os diretores uruguaios estão na Argentina, na Venezuela, no Peru, na Bolívia. E nós, de vez em quando, somos incluídos.” 

Os avanços provocam o conservadorismo 

Sobre relações entre a peça de Calderón e “Entrelinhas" (2023), Gabriela afirma que existe um ponto de encontro. Tudo é político na peça, a questão existencial do professor, a posição da aluna, a relação deles, o contraponto entre algo grande acontecendo no país e a vida de cada um. “A política está com a gente o tempo inteiro." E também há uma crítica nas falhas do professor: “Ele não tenta ser um exemplo de uma pessoa que lutou, pelo contrário, ele se rasga, ele se expõe na frente dessa aluna.” 

Daniel Colombo lembra que, além do filme em que atuou com a atriz, “Ainda Estou Aqui” (2024), "Zé" (2023) e o espetáculo, são obras que falam de temas afins. Algo que se deve ao número inédito de avanços que vivemos: “Esses avanços provocam o conservadorismo, fazem o conservadorismo vir à tona. O que aconteceu e vem acontecendo no Brasil não é uma coisa própria só daqui, a extrema direita tenta tomar o mundo todo de alguma maneira.” Segundo ele, o passado vem à tona quando se mexe com esse conservadorismo que resiste ao diferente e à mudança: "Todas as veias abertas da América Latina, elas ficam mais abertas.” Com o perigo iminente, é preciso falar de novo do que houve, retomar discussões. 

“Os astros se alinharam”

Não foi o planejamento que colocou “Uma Juventude Fascinante” no palco, Fortes diz francamente que foi a oportunidade. Tentava emplacar o projeto em mecanismos de incentivo à cultura, e nada; até que a peça entrou no Mecenato Subsidiado da prefeitura. O recurso é pouco, mas veio. 

Difícil não era só o dinheiro, contudo “os astros se alinharam e a gente conseguiu”. O diretor, que também é dramaturgo e ator, vive entre São Paulo, Curitiba e Berlim - AL (onde pesquisa teatro contemporâneo e Inteligência Artificial na dramaturgia), ou seja, abrir espaço entre seus compromissos não é fácil. Outra agenda - igual ou mais complicada - também precisava estar livre. É que o papel do professor sempre teve um único dono, desde quando, ainda lá em Buenos Aires, Fortes saiu do teatro na companhia do artista Alan Raffo (listado como testemunha do fato com ares de lenda): “Você sabe quem faria bem este espetáculo? Leandro Daniel!” 

O ator estava no elenco da novela "No Rancho Fundo", as gravações terminaram e, antes de entrar em algum novo projeto teatral onde mora atualmente, no Rio de Janeiro, ele embarcou para Curitiba. Veio para dirigir um filme com gravações na Fazenda Rio Grande, Região Metropolitana da cidade, e já ficou para os ensaios de “Uma Juventude Fascinante”.

Era para ser. Os dois despontaram na arte curitibana na mesma época, se esbarravam nos teatros, seguiram adiante na profissão e, apesar de Fortes dizer que A Armadilha é a companhia menos panelinha entre todas (deixando claro que o grupo sempre levou elencos diferentes para o palco), esta é a primeira vez que trabalham juntos.

"No momento exato"

A primeira vez que Colombo leu a peça foi por volta de 2012, quando veio o convite oficial para interpretar o professor. De tempos em tempos, ele voltou ao texto, geralmente quando pintavam indícios de que o projeto iria rolar: “Cada vez que eu lia, fazia mais sentido pra mim; me aproximava mais da personagem à medida que o tempo passava". O Brasil estava em momentos diferentes em cada releitura e ele se entendia de outra forma nesse contexto, até que chegou a hora certa de ir para o palco: “Estamos fazendo a peça no momento exato.” 

Fortes tem uma relação semelhante com a obra. Ele explica que a peça "te pega de surpresa", foi o que aconteceu quando era mais jovem e assistiu a montagem argentina em 2009, e é o que acontece ainda hoje, de outras maneiras. Colombo ainda fala sobre a surpresa que aparece no discurso criado pelo autor, que reúne um grande contexto histórico da América Latina com as dores e frustrações de um ser humano. “E coloca sobre isso um olhar de algo que nós nem ainda entendemos (...) é um discurso muito forte que vem da personagem da Gabriela; a pessoa que for assistir o espetáculo com um ouvido atento, sairá muito comovida.”

Uma Juventude Fascinante

Para Fortes, a peça também é bem escrita, engraçada, emocional e, principalmente, consegue suscitar discussões: “Não é um texto banal, ela mexe com as suas convicções". Tanto que ele atribui a estética minimalista escolhida para a montagem às qualidades da dramaturgia. A paixão pela obra de Calderón e a predileção pelo trabalho dos atores resultaram em uma encenação enxuta, que pode até gerar estranheza. "Quem assistiu "Molière" ficará surpreso". [“Molière” (2018), foi dirigida por Fortes, que em parceria com Luci Collin adaptou o texto de Sabina Berman, e estrelada por Matheus Nachtergaele e Renato Borghi, entre outros.] 

Para finalizar, Gabriela concorda com o diretor que é impossível não se identificar com algo da peça. Para ela, “Uma Juventude Fascinante” traz questões bastante íntimas e, por isso, é muito universal. “É um texto que comove, que move recursos internos em todo mundo, ele vai reorganizar algumas coisas, é um texto para abrir espaços dentro de nós".

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Serviço: “Uma Juventude Fascinante”

Texto: Guillermo Calderón; tradução e direção geral: Diego Fortes; elenco: Leandro Daniel Colombo e Gabriela Freire; iluminação: Nadja Naira; cenografia: Guenia Lemos; figurino: Amábilis de Jesus; música original: Gilson Fukushima; direção de produção: Gilmar Kaminski; produção executiva: Dânatha Siqueira.

Realização: A Armadilha Cia de Teatro

Produção: Flutua Produções

Incentivo: IOP. Apoio: Padaria América, Lavanderia Blanche, No Quina Cozinha Brasileira, Divino Maravilhoso, Quintal do Monge, Mafalda Café e Bistrô, Biblioteca Pública do Paraná e Secretaria de Cultura do Estado do Paraná. Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura, Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura Municipal de Curitiba.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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