Indicar o filme “Bom Menino”, dirigido por Ben Leonberg, é oferecer a seu amigo prazerosos 70 minutos de uma pequena produção americana, do gênero terror, sinistra, mas inesperadamente doce.
O protagonista absoluto é Indy, um cão da raça Retriever da Nova Escócia, e os acontecimentos se desenrolam, radicalmente, sob seu olhar e sentidos (é o único rosto que vemos claramente até perto do final do filme).
Seu dono, Todd (papel de Shane Jensen), sofre de uma doença pulmonar, que logo ficamos sabendo que é genética e fatal. Ele parece sentir a necessidade de se isolar em uma velha e abandonada casa de campo que pertence à sua família há várias gerações. Todd se hospedará nessa casa e, claro, levará o seu dog.
Mais tarde, ficará claro que ir para a tal casa não é apenas uma necessidade. Muito mais do que isso, Todd está sendo atraído, inevitavelmente, para ela, o lar de uma maldição familiar, um atalho, quem sabe, para o inferno.
Bom menino
É um filme de casa mal-assombrada, claro. A casa está um caco. O interior está coberto de pó e com muito entulho. Nos arredores, na floresta, há um cemitério da família onde estão enterrados os antepassados, alguns que morreram muito jovens com a mesma doença de Todd.
Mesmo antes de chegar ao novo ambiente, Indy, quando está próximo do dono, é atormentado por ruídos estranhos. Na velha casa, sede da maldição, as assombrações aumentam significativamente, com o acréscimo de visões de seres arrepiantes. Todd não entende o estranho comportamento do cão (esses animais, afinal, veem espíritos?). O diretor leva esses acontecimentos a conclusões bem inusitadas, que inclui o que sobrou do cachorro do avô de Todd.
“O Bom Menino” tem diversas qualidades – a fotografia, de um colorido suave, tem a atmosfera de um “era uma vez” -, mas o grande trunfo é o cão Indy. Seu olhar e a expressão dos músculos do rosto são muito precisos e cativantes. É, podemos dizer sem embaraço, um ótimo ator (talvez como todos os outros cachorros bem treinados?). O cineasta aproveita muito bem esse personagem canino e lhe presenteia, no desfecho, com um dilema digno de “A Escolha de Sofia”.
O cachorro Indy
Mas não foi simples trabalhar com Indy. Foram 400 dias de filmagem para conseguir que esse protagonista obedecesse às regras dos humanos e entregasse essa performance. Nem as maiores superproduções hollywoodianas chegam perto desse longo tempo de filmagem. Custaria um montante inimaginável. Mas o diretor Ben Leonberg, entretanto, está no universo do cinema ultra-independente, de equipe mínima, uma realização quase manual. O seu primeiro longa-metragem não custou nem 1 milhão de dólares. No entanto, lá estão os prazeres do cinema, os sustos de um bom filme de terror, fantasmas convincentes, além da atmosfera original e de um protagonista de desarmar o coração, esse cachorro angustiado e corajoso.
Filme
“O Bom Menino” está em cartaz em vários cinemas de Curitiba.