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Para Eduardo Giacomini, o teatro revela “poeticamente o que está na frente dos nossos olhos e não vemos”

Artista conta como o teatro entrou e ficou em sua vida, fala da companhia Obragem e também sobre a indicação ao Prêmio Shell

Para Eduardo Giacomini, o teatro revela “poeticamente o que está na frente dos nossos olhos e não vemos”
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Eduardo Giacomini está em cartaz até domingo (23/02), no Teatro Novelas Curitibanas, com “Breves palavras línguas e outras vozes”. O monólogo é o segundo estrelado pelo artista que tem mais de 200 espetáculos no currículo – entre trabalhos como ator, figurinista e cenógrafo – e dirige a companhia (fundada em 2002) e o teatro Obragem ao lado de Olga Nenevê, autora e diretora da peça agora em temporada.

Na montagem, ele dá vida a “Infelicíssimo”, um homem de meia idade que atravessa uma crise existencial, uma pessoa que levou uma vida de solidão e incomunicabilidade, marcada por tristezas e fúrias. Quem conhece Giacomini sabe que se trata de um perfil totalmente oposto ao dele, um pai, companheiro e profissional gentil e incansável. Tanto que, entre os dois fins de semana da temporada, deu entrevista ao Plural durante uma viagem de trabalho.

Ele falou sobre o espetáculo e a relação desta montagem com temas que pautam seu trabalho como um teatro que pode provocar mudanças na sociedade, “capaz de revelar poeticamente o que está na frente dos nossos olhos e não vemos". Também contou um pouco de sua trajetória profundamente ligada à Obragem e a parceria com Olga, ainda confessou que é questionador de uma maneira que pode até ser ruim.

Para finalizar, a conversa chegou na indicação ao Prêmio Shell de São Paulo pelo figurino "Cão Vadio", da trupe curitibana Ave Lola. Confira a entrevista com Eduardo Giacomini a seguir.

São quantos anos dedicados ao teatro e como o teatro surgiu em sua vida? São quantas peças como ator e quantos espetáculos como figurinista e cenógrafo?

Quando eu tinha uns 9 anos assisti a peça "A morte do Caixeiro viajante" no pátio da escola em que estudava. Eu fiquei inexplicavelmente impactado com essa experiência e descobri que era aquilo que eu queria fazer da minha vida.

Comecei no teatro amador em Maringá aos 18 anos e já se vão 37 anos. Desde a minha formação no curso superior de Artes Cênicas, trabalho profissionalmente há 31 anos.

Não sou muito organizado com meu currículo, mas já participei como ator em mais de 35 peças, sendo "Breves palavras, línguas e outras vozes" meu segundo monólogo. Como figurinista e cenógrafo, foram mais de 200 produções entre teatro, dança, música, ópera e circo.

O que o personagem Infelicíssimo, do monólogo “Breves palavras, línguas e outras vozes”, leva para o palco? Como isso mexe com você enquanto artista e com suas questões pessoais?

A peça apresenta uma reflexão crítica sobre o estado de miséria e abandono de muitas pessoas nas grandes cidades. Participei ativamente de todas as etapas de criação do projeto e é uma temática que sinto necessidade de colocar em pauta artisticamente, pois acredito que o teatro pensa o nosso tempo e nos faz pensar sobre como estamos vivendo e isso pode provocar mudanças de atitude numa sociedade.

O que você espera que o público encontre em “Breves palavras línguas e outras vozes”? A proposta é que a plateia se identifique com o seu personagem ou que a mensagem funcione como uma provocação para tomarmos atitudes? Como foi a recepção do público na primeira semana em cartaz?

Eu espero que o público reflita sobre como estamos anestesiados frente ao sofrimento de muitas pessoas e que isso é um sintoma de algo que deve ser revertido. Com a primeira semana de apresentações eu percebi como a plateia saiu impactada do teatro e isso foi uma resposta positiva para a equipe do projeto, porque acreditamos que o teatro é um acontecimento capaz de revelar poeticamente o que está na frente dos nossos olhos e não vemos. Estamos juntos no teatro, artistas e plateia, fazendo a peça.

O texto e a direção são de Olga Nenevê, sua parceira na arte e na vida. Inclusive são os pais da Antônia, uma menina que hoje está com 13 anos de idade. Como funciona isso, quais os desafios e os maiores prazeres do relacionamento com a Olga?

É muito difícil descrever essa parceria de amor, de admiração e de trabalho que tenho com a Olga, de quase trinta anos. Somos artistas muito potentes e inquietos, e fomos construindo uma maneira muito própria de criar juntos. Nem sempre isso foi ou é fácil, e com certeza a Olga sofreu mais com a minha dificuldade de ser convencido a mudar de opinião, eu sou muito questionador e isso é bom, mas também pode ser ruim.

A Olga é uma mulher, uma artista extremamente inteligente, sensível, potente e que atua no trabalho com uma afetividade que eu nunca vi em outra pessoa durante a condução da criação. Nossa vida é inseparável do nosso trabalho, acho que isso acontece com todo artista.

Vocês ergueram um teatro com as próprias mãos e moram literalmente ao lado dele. Como foi e como é isso?

Brincamos sempre que nós “literalmente” fazemos teatro. A Obragem sempre foi um sonho, tínhamos o desejo de ter um espaço onde pudéssemos criar, apresentar nossos trabalhos e compartilhar com outros artistas.

Conseguimos com nosso trabalho comprar a casa na Alameda Júlia da Costa nº 204, foram anos de financiamento, claro. A parte mais bruta da reforma do espaço foi feita por pessoas que contratamos, mas fomos nós dois que fizemos muitos serviços de acabamento, pintura, escadas de acesso e o próprio piso do depósito. Eu sou o técnico do espaço e cuido da manutenção, a Olga cuida da organização e, assim, vamos levando. Nossa casa fica na parte de trás do imóvel, literalmente colado ao nosso trabalho, isso tem suas vantagens, também tem suas complicações, contudo lidamos bem com isso.

Você e a Olga têm uma parceria com a também curitibana Ave Lola, participam de várias montagens da companhia. Dá para dizer que são da trupe?

Eu tenho uma ligação maior com a Ave Lola, a Olga participa como atriz em um trabalho apenas. Somos amigos, conhecemos a Ana Rosa há muito tempo, desde quando fomos integrantes da CiaSenhas.

(Foto de: Gus Benke/Divulgação.)

Em 2016, a Ana Rosa me convidou para fazer o figurino de "Nuon", que foi uma experiência muito incrível de pesquisa e que acabou resultando no prêmio Gralha Azul de figurino e numa indicação ao Prêmio Shell Rio de Janeiro, além de estabelecer uma parceria minha com o Ave Lola, que me fez estar com o grupo em três trabalhos como ator e figurinista, fora o envolvimento em outras experiências artísticas e de criação com essa trupe incrível.

Quais foram os principais trabalhos na Ave Lola? Você está indicado ao Prêmio Shell São Paulo, na categoria figurino, pelo espetáculo "Cão Vadio". Conta um pouco mais sobre isso.

Criei o figurino do trabalho "Nuon", participei como ator e figurinista do "Manaós", do "Cão Vadio" e do "Vira lata". Também criei, em parceria com a Ana Rosa, os cenários de "Cão Vadio" e "Vira lata". E, durante a pandemia, fizemos vários projetos em vídeo. Os trabalhos do Ave Lola são sempre um local de pesquisa fértil. No ano passado estivemos em cartaz com "Cão Vadio" no Rio de Janeiro e depois em São Paulo, que foi uma temporada muito bacana, com um retorno incrível de público. Para minha surpresa, conseguimos uma indicação ao Prêmio Shell de melhor figurino em São Paulo.

São poucas as produções e profissionais curitibanos indicados ao Shell ao longo dos anos. Qual a importância dessa indicação para as artes ciências da cidade e para a sua carreira?

O que acontece é que no Brasil temos pouca possibilidade de circular com os trabalhos produzidos. Curitiba tem uma produção teatral potente e essa indicação mostra o quanto essas produções poderiam ser reconhecidas fora da cidade se tivéssemos a possibilidade de circular. É óbvio que me sinto feliz com a indicação, pois, com a quantidade e a qualidade das produções que acontecem em São Paulo-SP, estar entre quatro trabalhos indicados no ano de 2024 é algo incrível, independentemente de ganhar o prêmio ou não.

Mas, como todo prêmio, ele reconhece o meu trabalho, não modifica o resultado do que fiz para o "Cão Vadio", pois ser indicado não torna a obra melhor, assim como, não a tornaria pior se não tivesse sido indicado. Concorrer ao prêmio só dá um pouco mais de visibilidade para o meu trabalho.

Qual o próximo projeto do Eduardo e da Obragem?

Meu trabalho está muito associado à Obragem. Este ano temos sete viagens por cidades do interior do Paraná, as com o menor IDH do estado, em que apresentaremos as peças "A galinha Pim Pim" e "Essencial", além do curta metragem de animação "MMM - A montanha do meio do mundo" e uma oficina.

Equipe do monólogo em cartaz. (Instagram da Obragem.)

Nosso próximo projeto de criação será o "Projeto Shakespeare", uma adaptação de “Hamlet”, com um elenco de artistas com uma trajetória importante na cidade.

Como Eduardo, estou criando o figurino da peça "Romeu e Julieta", a nova montagem da Trupe Ave Lola, que dá continuidade a minha parceria com o grupo; e o figurino da peça "Desmonte" com direção da Cleide Piasecki. As duas estreiam ainda no primeiro semestre deste ano.

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Espetáculo “Breves palavras, línguas e outras vozes”

Até 23 de fevereiro de 2025, de quinta a domingo às 20h, no Teatro Novelas Curitibanas – Claudete Pereira Jorge (R.Presidente Carlos Cavalcanti, 1.222). Entrada franca. Ingressos distribuídos uma hora antes das apresentações. Classificação etária: 14 anos. Duração de 60 minutos.

Texto e direção: Olga Nenevê / Atuação, figurino e cenário: Eduardo Giacomini / Iluminação: Beto Bruel / Música: Ariel Rodrigues / Fotos: Elenize Dezgeniski / Designer gráfico: Alessandra Nenevê / Assessoria de imprensa: Adriane Perin / Produção: Grupo Obragem de Teatro. O projeto realizado com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura da Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura Municipal De Curitiba.

Outras informações, aqui.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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