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Onde você estava quando "Ainda Estou Aqui” concorreu ao Oscar?

Juliana Pedrozo fala sobre o Oscar 2025 ganhar um papel tão marcante na vida dos brasileiros quanto a passagem do cometa Halley ou a vitória de uma Copa

Onde você estava quando "Ainda Estou Aqui” concorreu ao Oscar?
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Aos poucos, os símbolos do Brasil estão voltando para o coração de todos nós. Depois de eventos como o show da Madonna na praia de Copacabana em 2024, o Oscar 2025 ganhou papel de protagonista neste resgate. Tudo porque um longa-metragem brasileiro entrou em cartaz nas salas e no circuito de prêmios internacionais e saiu marcando golaços, de público e de crítica, tanto que concorre às estatuetas de melhor filme, melhor atriz e melhor filme estrangeiro. Para situar alguém que ainda esteja por fora (hipótese pouco provável), o autor da proeza é “Ainda Estou Aqui”. Dirigido por Walter Salles, ele é uma adaptação do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva com roteiro assinado pelos curitibanos Murilo Hauser e Heitor Lorega. O elenco é uma verdadeira constelação de estrelas – liderada por Fernanda Torres, Fernanda Montenegro e Selton Mello – que está rodeada pelo brilho de mais alguns curitibanos: Marjorie Estiano, Lourinelson Vladmir, Otávio Linhares e Luiz Bertazzo.

A gestora do Cine Passeio desde sua inauguração, em 2018, Juliana Pedrozo conversou com o Plural sobre o caminho que levou o espaço a exibir a cerimônia do Oscar não dentro, mas fora do prédio - nas paredes do edifício com direito a rua fechada para receber uma verdadeira multidão (na visita de Francis Ford Coppola à Curitiba, o espaço viveu uma prévia disso). Ela também falou sobre o significado deste momento para o cinema nacional e para cada um de nós, brasileiros.

Exibição do Oscar na fachada do Cine Passeio

Tudo bem, é o Brasil no Oscar e a candidata a vencedora como melhor atriz, Fernanda Torres, já ganhou o coração e os sorrisos de todos os brasileiros com seu talento absoluto e, é claro, também com seu carisma, presença de espírito e maravilhoso bom humor (sim, a repórter é fã de carteirinha). Entretanto, dá para se perguntar ao passar ali na rua Riachuelo e imaginar como é que a exibição do Oscar foi parar na fachada do Cine Passeio.

A história começa na premiação do Globo de Ouro (na verdade, começa lá em 2018, quando o cinema estava para inaugurar, hoje apenas será revelada aqui a versão mais curta deste épico). Os brasileiros e os cinéfilos já estavam alvoroçados com a indicação da "Nossa Nanda", contudo ninguém tinha uma noção exata do que estava acontecendo. Nas redes, os memes bombavam, bares ofereceram bebida de graça conforme o resultado, igual quando tem jogo importante de futebol, agora, ninguém tinha certeza de como as pessoas estavam envolvidas na participação do Brasil em um prêmio que nem é o Oscar. Mesmo assim, ali no Cine Passeio, de um sentimento nasceu uma ideia, que depois virou uma cena que foi exibida por todo o mundo.

Segundo Juliana, a equipe do cinema municipal tinha entendido que a indicação ao prêmio era muito importante, ganhar alguma das duas categorias em que o filme estava indicado era lucro, estavam tentando manter o pé no chão e a expectativa era bem menor do que a do Oscar. “Mas eu costumo assistir essas cerimônias domingo à noite em casa, sozinha, e tudo bem; são prêmios para filmes de fora do país, às vezes você torce por um ator ou diretor que gosta, alguém que admira, um filme que curtiu e depois dorme. Como a entrega do Globo era no dia 5 de janeiro, recém passado o réveillon, não deveria ter muita gente na cidade e decidimos fazer alguma coisinha aqui no café [do Cine], ela relembra.

O porte planejado também não era nada ambicioso, algo para umas 60 pessoas entre equipe e público, uma coisa quase caseira. “Se, vai que o filme ganhe, a gente vai estar junto, vai ter alguém para abraçar na hora, comemorar, celebrar. Vamos nos reunir no começo do ano para, enfim, viver esse momento", o que ninguém estava esperando era o plot twist na próxima cena: “Quando deu 16h, a fila começou a se formar na frente do cinema e daqui a pouco ela estava já na esquina da rua Treze de Maio, cheia de gente gente jovem (...) e muitos turistas, pessoas que tinham vindo passar o réveillon na cidade, pessoas de Porto Alegre, de Belém, de Manaus, de Salvador.”

Como não houve qualquer grande produção, para a gestora fica claro que quem ditou o sucesso da noite foi a emoção do público em reconhecer a importância daqueles minutos para a história: "Quando o prêmio saiu, foi uma emoção compartilhada, o bonito foi as pessoas entenderem que era um momento histórico para o cinema nacional e terem alguém para abraçar, para se olhar e ver que o outro estava chorando também, junto. É algo que fica na memória da gente pra sempre. E a gente precisa entender também que há momentos em que é preciso celebrar; acho que esse movimento está vindo desde o dia 5 de janeiro, desde o Globo de Ouro.”

“É o nosso cometa Halley”

Juliana confessa que já viveu no Cine Passeio muitas histórias que dariam filmes, mesmo assim foi pega de surpresa. “Vivi coisas que eu jamais imaginei, situações inusitadas, momentos inesquecíveis, lindos, inclusive da produção nacional. O ‘Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba”, por exemplo, temos o maior orgulho de receber anualmente, enfim, lançamentos, pré-estreias, a foi muita coisa bonita. A própria inauguração foi icônica, mas eu jamais imaginei esse momento acontecendo nem em meus sonhos, acordada ou dormindo.

Sobre a expectativa para a transmissão da entrega do Oscar no Cine Passeio ela reconhece que está com certo frio na barriga, e que o desejo é de que todos tenham um momento incrível. “Sabe aquelas coisas de ‘onde você estava assistindo a final da Copa do México?’, de quando o cometa Halley passou, quando teve um eclipse total da Lua… essas coisas marcam a gente para sempre. Você lembra até da roupa que estava usando. Para mim, o Oscar vai ser isso: ‘Onde você estava quando ‘Ainda Estou Aqui’ concorreu ao Oscar?. Se vier o prêmio ou não, a gente vai lembrar disso pra sempre".

E como se já não bastasse tanta emoção, a gestora destaca a importância dessa celebração acontecer em frente a um cinema de rua. “Ir pra rua é algo simbólico, no sentido de que é o nosso orgulho, a nossa alegria, o que a gente se dedica, o nosso trabalho diariamente aqui, tudo está transbordando, e levar a festa para a rua num domingo de carnaval é o nosso cometa Halley. Eu quero que as pessoas amanhã se abracem, chorem, fiquem felizes, façam fotos, registrem esse momento, porque obviamente, eu quero que a partir de agora a gente tenha essa produção nacional indo mais longe, chegando a outros países e culturas que a gente nem imagina".

Afinal, por que na rua?

Esse argumento já bastaria, porém não é o único. “É um momento histórico, o prédio não comportaria a festa, a gente tem que celebrar. A gente só é feliz celebrando se a gente compartilha a emoção com os outros, então é hora de compartilhar emoções; estar aqui e daqui a uns anos dizer ‘eu vivi isso’, e contar que você acompanhou esse momento histórico do Brasil para os seus filhos, amigos, familiares e para quem mais você conhecer”, fala Juliana. Para a gestora, quando se vive um momento histórico, você até reconhece que é relevante e importante, todavia, o entendimento do fato e dos desdobramentos só acontece muitos anos depois.

Para finalizar a conversa, ela avisa que estava prestes a ir com a equipe cuidar de algo carregado de simbolismo, nem precisa ser cinéfilo para reconhecer a força dessa fala no enredo do Brasil atual: “Vamos iluminar esse prédio de verde e amarelo, porque é o nosso momento!”

Serviço: Oscar 2025 no Cine Passeio

Rua Riachuelo, 410, Centro

Sábado (1º/3)
Iluminação verde-amarelo na fachada do Cine Passeio

Domingo (2/3)
19h: Fechamento da Rua Riachuelo (entre Carlos Cavalcanti e Treze de Maio)
21h: Início da festa e narração do Tapete Vermelho com Fábio Silvestre
Sorteio de brindes e concurso de sósias
22h: Início da transmissão da cerimônia do Oscar

Observação: No domingo (2/3), o Cine Passeio não funcionará para sessões regulares.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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