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Giovanna Lima talvez “não estivesse viva se não tivesse escrito” poemas expostos em “Reinventário”

Primeira mostra individual da artista entra em cartaz na Barleria, com obras em diferentes suportes

Giovanna Lima talvez “não estivesse viva se não tivesse escrito” poemas expostos em “Reinventário”
Giovanna Lima visita e ressignifica seus poemas na exposição “Reinventário”, em cartaz em Curitiba. (Foto: Eduardo Ordone/Divulgação.)
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Nesta quinta-feira (19), “Reinventário” – exposição de Giovanna Lima, conhecida como G.L. no mundo das artes – entra em cartaz para visitação gratuita até 8 de março na Barleria. Com curadoria de Michele Micheletto, a mostra reúne poemas criados ao longo de uma trajetória de mais de 10 anos de escrita, passando por crônicas, contos, poesia e arte de rua. 

Giovanna Lima é jornalista, beletrista e dona do boteco Bek's Bar. Participou da Antologia Novos Autores Curitibanos (2013); da coletânea de contos “Instruções à Cortázar” (2014), com “Instruções para esquecer um grande amor”; e da publicação “Kafka: uma metamorfose inspiradora”, com “Âncora” (2015). Desde 2014, trocou boa parte das páginas impressas por espaços urbanos como ruas, muros, portas e outros suportes que deram aos seus poemas um número incontável de leitores, em paralelo ao caráter efêmero.

Ela, que já realizou intervenções poéticas em Curitiba, São Paulo, Florianópolis, Porto Alegre, Montevidéu, Buenos Aires, Santiago e Deserto do Atacama, agora se lançou a um novo e diferente desafio. Nesta exposição, que é sua primeira individual, G.L. visitou e ressignificou os poemas que são seus maiores orgulhos na trajetória como autora. Eles foram resgatados das lembranças das ruas para a exibição em um espaço cultural alternativo.

Ao Plural, a poeta falou sobre sua produção artística e o que poderá ser conferido em “Reinventário”. Também revelou como supera o perfeccionismo e a autocrítica para continuar criando e que talvez “não estivesse viva se não tivesse escrito” alguns de seus poemas. Confira a entrevista com Giovanna Lima a seguir. 

Você é jornalista e dona de boteco, além de artista. Quando surge a poesia na sua trajetória?

Em 2013, fui selecionada pelo concurso literário Litercultura e participei da Antologia Novos Autores Curitibanos. Publiquei um conto na coletânea "Instruções à Cortázar" em 2014, intitulado de  “Instruções para esquecer um grande amor”. No ano seguinte, 2015,  fiz parte de outra coletânea, dessa vez homenageando o Franz Kafka, com o conto “Âncora”.  Essa última publicação é intitulada de “Kafka: uma metamorfose inspiradora”.

A palavra sempre foi minha matéria-prima e em 2014 passei a utilizar a rua como principal suporte para divulgação e publicação de meu trabalho como escritora. Assinando como G.L., já realizei intervenções poéticas em Curitiba, São Paulo, Florianópolis, Porto Alegre, Montevidéu, Buenos Aires, Santiago e Deserto do Atacama. 

Escrevo com consciência da transformação e do sentido que ela faz na minha vida há pelo menos 15 anos, produzindo crônicas, contos e poemas. Na última década tenho me dedicado mais à poesia e nela consigo fazer muito trabalhando com minha percepção, sensibilidade e assertividade. Na rua, recebi reconhecimento como jamais tinha tido até então. Nunca fui tão lida quanto na rua e eu sempre senti que precisava agradecer as pessoas por isso. A exposição também é para isso.

Como nasceu “Reinventário”? Era um desejo ou foi um convite?

A ideia já vem de muito tempo, mas considerava galerias em geral muito restritas e ligadas a formas mais tradicionais de expressão artística e queria fazer parte de um circuito mais alternativo e questionável para alguns. A proposta foi um meio de me desafiar. Eu sou extremamente perfeccionista e tenho autocrítica fortíssima. Cada projeto realizado é um combustível para continuar pegando a caneta e traduzindo o que está dentro de mim.

O nome da exposição tem o sentido de revisitar espaços de existência. Lugares onde eu comecei, em que tive os primeiros reconhecimentos. Significa também me reafirmar na literatura que continuo produzindo e no futuro que só faz sentido se tiver a poesia, independentemente da mídia em que apareça, seja papel, seja rua, seja galeria, seja livro. No meu neologismo Reinventário, legitimo meu papel como poeta, revisitando e repensando minha poesia, explorando as possibilidades dos meus poemas e fazendo um apanhado de muitos escritos que o tempo apagou, já que escrevo na rua desde 2014. A rua é efêmera e quis unificar na exposição um registro da minha produção como escritora, mas nem deixar de lado a ideia de que sempre é possível que os poemas, assim como eu, se reinventem. 

Mas não cheguei até aqui sozinha. Sou resultado das trocas que tive, da mulher que me faz sorrir, dos meus amigos que confiam em meus versos, dos trabalhos com outros artistas, de pessoas que incentivam a arte como a Barleria. A minha curadora Michele Micheletto tem me dado bastante apoio também.

Quais os suportes em que os poemas são expostos? Existe um tema predominante ou fases diferentes de sua produção que podem ser observadas?

Reuni o que tenho de mais bonito e precioso, que são minhas palavras. Os poemas que estão aqui são os que mais me dão orgulho de ter escrito. Talvez eu não estivesse viva se não tivesse escrito alguns deles. 

Eles estão expostos em diferentes mídias e suportes, como quadros, bandeiras, placas, engradados de cerveja, relógios, espelhos, balões. Considero tudo que está aqui poema. Poema é a estrutura formal, pensar na versificação, no ritmo, no silêncio. Os temas passam por esperança, tempo, amor, boemia, o ato de escrever.

Você diz ter uma autocrítica fortíssima. Como está sendo o processo de montagem da exposição? Como estão seus sentimentos e expectativas?

Está sendo uma loucura. Hoje mesmo fiz uma nova obra pensando nesse processo que exige um envolvimento imenso. Tenho sorte de ter o Felipe Oliver, a Michele Micheletto e a Jenny Berté do meu lado. E tenho muita sorte em ter gente que me lê, pois nessas horas eu venço um novo round contra a autocrítica quase castradora, a depressão, os lutos e as lutas perdidas.

Acho que eu enfrento meu perfeccionismo e minha autocrítica quando me desafio a atuar em novos espaços. Tenho trabalhado em análise como a ideia de movimento tem feito sentido nesse momento em minha vida. Retornar e recriar também é avanço, além de registro em um único espaço físico. 

Nesse neologismo [Reinventário], repenso e reescrevo minha trajetória e como alcancei algum tipo de solidez, mesmo que às vezes só internamente, e proponho uma visita a uma espécie de “poemas reunidos” ou “poesias escolhidas” da minha produção feita na rua. É mais um passo que dou, um registro que fica. 

E também estou trabalhando em um manuscrito e quero explorar a escrita em todas as formas possíveis. Pode ser a prenúncia do lançamento de um primeiro livro de poemas. A literatura precisa circular e eu faço tudo que posso para que esse movimento aconteça, pois sempre acreditei na democratização da arte, que no meu caso é a escrita. Minha missão segue tornar a poesia acessível para o maior número de pessoas que eu puder alcançar.

O que o acervo de "Reinventário" revela sobre você, Giovanna?

Revela minha capacidade de voltar a mim e de lembrar quem sou eu, o motivo de continuar escrevendo e como é deliciosa e desesperadora a aventura de colocar para o mundo meus sentimentos, afetos, medos, considerações. Na poesia, tenho toda liberdade para expandir os limites de mim e da palavra. Aqui na galeria, meus poemas chegam em suportes que visam propor novas perspectivas e percepções da literatura e da arte. Misturo objetos com letras. Tem poema em cartão postal, letreiro de bar, balão. Tem poema pra todo mundo – talvez só não tenha pra quem não se permite acessar o coração.

Exposição “Reinventário”

Abertura no dia 19 de fevereiro, às 18h, e visitação, até 8 de março, na Barleria  (Al. Júlia da Costa, 252, Curitiba).

Horários: quartas-feiras e quintas, das 18h à meia-noite, sextas-feiras e sábados, das 18h até 1h, domingos, das 15h às 23h.

Entrada: Gratuita.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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