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Gabriela Duarte quer rasgar o papel de boa moça com seu primeiro monólogo

Dirigido por Alessandra Maestrini e Denise Stoklos a partir de um marco do feminismo, “O Papel de Parede Amarelo e Eu” está em cartaz neste fim de semana (11 e 12) em Curitiba

Gabriela Duarte em O Papel de Parede Amarelo e Eu
Atriz Gabriela Duarte em seu primeiro monólogo "O Papel de Parede Amarelo e Eu". (Foto: Priscila Prade/Divulgação.)
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“O Papel de Parede Amarelo e Eu" está em cartaz em Curitiba neste fim de semana (11 e 12) no Teatro Regina Vogue (Shopping Estação). O espetáculo é dirigido por Alessandra Maestrini e Denise Stoklos e estrelado por Gabriela Duarte. A boa notícia é que ainda restam ingressos à venda, mas são poucos, então a dica é correr para garantir o lugar na plateia. As entradas custam a partir de R$ 75 (meia-entrada) mais taxa de R$ 11,25 no site Disk Ingressos, ou podem ser compradas na bilheteria antes do início das sessões. 

A montagem é inspirada no conto “O Papel de Parede Amarelo”, da escritora e socióloga Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), publicado em 1892. A autora é uma das principais vozes da primeira onda do feminismo nos Estados Unidos. Charlotte não é uma unanimidade, foi uma feminista radical no seu tempo, porém com posições consideradas racistas e eugenistas, enraizadas na elite do século XIX. Polêmica à parte, ela é leitura obrigatória em estudos literários e feministas, e o conto que dá origem à peça apresentada agora em Curitiba é um dos primeiros textos ficcionais retratando o abuso psicológico conhecido como gaslighting. Na trama, uma mulher é confinada em um quarto pelo marido médico, supostamente para recuperar a saúde. Com o passar do tempo, ela desenvolve uma obsessão pelo papel de parede do cômodo, que aumenta até o clímax da obra. 

Gabriela Duarte, em coletiva para a imprensa na última sexta-feira (10), falou sobre o monólogo em cartaz na cidade e também a respeito de “Eu, Gabriela: Entre memórias, identidade e personagem” - livro em coautoria com Brunna Condini (recentemente lançada, a publicação revela a identidade da atriz a partir de sua própria história, falando de papéis que marcaram sua carreira, de comparações, dos bastidores, e também da maternidade, dos amores e de como se reinventou).
Confira como foi a entrevista a seguir.

Gabriela Duarte rasga o papel de boa moça para mostrar sua identidade

“O Papel de Parede Amarelo e Eu" é o primeiro monólogo na carreira da atriz conhecida por papéis marcantes na televisão, cinema e teatro. Segundo ela, a ideia de se desafiar sozinha no palco não foi um impulso, “é um desejo que vem acontecendo desde que comecei a achar que poderia ser mais autoral nas minhas escolhas (...) e emprestar a minha voz para o que eu gostaria de compartilhar, principalmente com as mulheres". 

Gabriela ainda considera que o caminho foi um reflexo de sua trajetória profissional, com muitos trabalhos para uma mesma emissora e papéis com um perfil similar ao longo dos anos. “De repente eu comecei a entender que era possível ter mais voz. Porque faz parte da carreira do artista seguir o bom senso e fazer aquilo que as pessoas acham que você deve fazer. Eu falo bastante no livro das ‘as boas moças’, essa prateleira em que eu fiquei durante muito tempo. Tudo bem, tudo ótimo, mas uma hora você começa a questionar: ficar nessa prateleira em que foi colocado para sempre, é realmente o papel do artista?”, diz ela.

Perseguida pelo papel de parede

Quando a atriz fala sobre o texto, a impressão é de que a escolha não foi dela. Pelo contrário, parece que o texto foi quem escolheu Gabriela. Há um certo tempo, ela leu o conto e ficou impressionada, ele ficou no seu radar pela força de ser um texto do Século 19 que fala com os dias de hoje, com a potência das lutas enfrentadas pelas mulheres cotidianamente, resultado de cobranças sociais e autocobranças em nossos diferentes papéis, como mães, profissionais e cidadãs, por exemplo.

“O texto começou a me seguir nesse lugar, de querer falar, dar voz a ele. Estava lá, grudadinho ali naquelas páginas", conta ela ao explicar que depois de muitos anos tentou montar a peça. Procurou outras diretoras, entretanto, o projeto só deu certo após um encontro casual com Alessandra, quando Gabriela descobriu que ela e Denise estavam dirigindo monólogos. “E houve essa união inusitada, eu, Denise e Alessandra. Deu muito certo, porque somos três mulheres fortes, cada uma no seu lugar, no seu momento, com vontade de falar determinadas coisas.”  

E eu

Quem conhece o conto ou esteve atento na leitura até aqui, notou que há um acréscimo no título, conforme esclarece a atriz. “Virou ‘O Papel de Parede Amarelo e Eu’, porque isso aqui [a peça e o livro] tem muito a ver com o ‘e eu'. O texto é um clássico da literatura feminista do Século 19,  mas o ‘e eu’ sou eu. E quando eu falo de mim, eu falo de todas nós mulheres.” 

Feminista

A respeito de ser feminista, Gabriela respondeu ao Plural que é otimista e falou sobre seus receios. “Com relação a ser ou não ser feminista, toda mulher deveria ser feminista no melhor sentido dessa palavra, sem o peso que hoje em dia ela assumiu. Ela virou uma pauta política, só que não deveria, é uma questão social, que todos nós temos que tratar socialmente. O homem, a mulher; a mulher ensinar seu filho desde que ele nasceu que ele tem que olhar para a mulher de uma determinada forma. Eu fico um pouco receosa com esses pesos que as coisas têm hoje em dia. ‘Empoderada, mulher empoderada’... Quando você quer, da melhor forma possível, inspirar outras mulheres a serem uma coisa que muitas delas não têm a menor condição de ser, então, na verdade, você acha que você está ajudando e está excluindo. Eu sou a favor de irmos devagar, de tratar isso como uma coisa social, em que todo mundo vai participar da discussão, da conversa e vai dar tudo certo. Eu sou otimista, acho que é por aí que a gente vai construir uma sociedade melhor.”

Surpresa para o público

Gabriela também falou ao Plural sobre como tem sido a recepção do público, principalmente considerando a libertação do rótulo de boa moça que a artista vem conquistando. “O público se surpreende muito com o que eles assistem nessa quase uma hora de espetáculo. E isso, numa forma um pouco narcisística me deixa envaidecida, eu sou uma atriz com versatilidade no que faço. Se eu quisesse fazer sempre a mesma coisa, seria realmente muito mais fácil. Mas, se não for para fazer algo que dê uma reviravolta, tanto em mim quanto na audiência, no público, prefiro ficar em casa, com os meus filhos, porque outras coisas eu já fiz durante muito tempo. Quem está vindo assistir ao espetáculo achando que vai encontrar a Eduarda [personagem Maria Eduarda, da novela ‘Por Amor'], não quero que seja uma má expectativa, porque não vai encontrar, é outra coisa. Eu comecei a perceber que as pessoas se surpreendiam mesmo, o que é ótimo.”

Realização

Espetáculo realizado com recursos da Lei Rouanet - Ministério da Cultura, com apoio de Honda Ninponsul, Terrazza40, Jun Sakamoto Casual, Hay.Yo, Adega San Vicente, The American Way Coffee, Doffee Donuts, Agapanthus, Tortuffi, Moov Hotel. A produção local é da Polarize Entretenimento.

Serviço: "O Papel de Parede Amarelo e Eu"


Onde: Teatro Regina Vogue (Shopping Estação)
Quando: 11 e 12 de outubro, sábado, às 20h, e domingo, às 19h.
Ingressos a partir de R$70 à venda no Disk Ingressos.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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