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Fabiane Severo, do Coletivo Gompa, fala sobre "Frankenstein"

Em entrevista ao Plural, a artista conta como o espetáculo parte do livro de Mary Shelley para fazer uma discussão poética sobre a mulher e a Floresta Amazônica

Fabiane Severo, do Coletivo Gompa, fala sobre "Frankenstein"
Fabiane Severo, em cena de "Frankenstein". (Foto: Vilmar Carvalho/Divulgação.)
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O Gompa faz curtíssima temporada em Curitiba (até domingo, 16/03) com o espetáculo “Frankenstein”. Conhecido por seu experimentalismo em dramaturgia e linguagens cênicas, o coletivo gaúcho trabalha com teatro adulto e infantil, conquistou muitos aplausos no Brasil e agora está de olho em plateias internacionais. Ao longo de dez anos nos palcos, o grupo participou de festivais no Chile, Japão, Bolívia, Inglaterra, Estados Unidos, e Cuba, e ainda ganhou prêmios dentro e fora do país (como o Ibsen Scope, na Noruega).

A passagem por Curitiba não é a primeira. O Gompa já esteve na cidade com o infantil "Franquinh@, estreou "Derrota" no 30º Festival de Curitiba e, ano passado, fez parte da principal mostra do evento com com "Meretrizes" – espetáculo criado a partir de relatos de profissionais do sexo, com vídeo documental, piano e teatro (os ingressos foram disputadíssimos e a plateia ficou boquiaberta com a peça e, principalmente, com a atuação de Liane Venturella).

Agora, o coletivo entra em cartaz no teatro da Caixa Cultural com um espetáculo de dança, música e teatro, que parte do livro escrito Mary Shelley em 1818, considerado o primeiro na literatura de ficção científica, e propõe uma discussão poética sobre a condição da mulher e a Floresta Amazônica. Em entrevista ao Plural, Fabiane Severo – artista que divide com Alexsander Vidaleti o palco da encenação assinada Camila Bauer – conversou sobre "Frankenstein” e falou sobre a trajetória do Gompa. Confira a seguir.

Fabiane Severo, em cena de "Frankenstein". (Foto: Vilmar Carvalho/Divulgação.)

Como e quando surgiu o Coletivo Gompa? Quais as principais montagens no repertório do grupo e prêmios?

O Coletivo Gompa, com sede na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, surgiu há dez anos e, durante essa década, teve atividades ininterruptas.

Como espetáculos de repertório, nós temos os infantis “Amazônia, Um Olhar Sobre a Floresta”, “Franquinh@, Uma História em Pedacinhos”, “As Aventuras do Pequeno Príncipe” e “Chapeuzinho Vermelho”. Todos ainda estão na ativa.

Como teatro adulto, temos “Derrota”, “Instinto”, “Inimigos na Casa de bonecas”, “Meretrizes”, e “Frankenstein”, um espetáculo de teatro, música e dança.

Sobre os prêmios, tivemos várias indicações em cada um dos espetáculos, e foram dois internacionais: Ibsen Awards da Noruega para a montagem baseada na obra de Henrik Ibsen “Inimigos na Casa de bonecas”, em 2018; e também na Noruega, em 2022, o Ibsen Scope com o espetáculo “Instinto”, que agora entra em cartaz no Sesc Copacabana, entre 24 de abril e 18 de maio.

Onde se encaixa “Frankenstein” nessa trajetória? Como foi o processo de criação?

O espetáculo “Frankenstein” teve o início de processo no ano de 2019, uma pré-estreia e logo depois veio a pandemia. A gente teve que parar com o espetáculo porque não foi possível fazer online. Em 2022, a gente ganhou um edital em Porto Alegre-RS para a apresentação no Teatro da Santa Casa e retomamos a montagem de “Frankenstein”, que então teve uma outra estreia em 2023. Aí, entrou em cartaz e fez o Palco Giratório RS pelo Sesc, e vamos estar na Caixa Cultural de Curitiba e de Recife.


O processo de criação de Frankenstein, assim como todos os processos de criação do coletivo Gompa, é um processo híbrido, a gente trabalha com dança, teatro, música e artes visuais de forma integrada. Todos estão na sala de ensaio pesquisando e quase todos os espetáculos da companhia têm dramaturgia própria. O único que não tem é o Chapeuzinho Vermelho, com texto do Joel Bomerá, os outros todos são dramaturgias dos próprios integrantes do coletivo.

No repertório do coletivo, outra obra visitou o primeiro texto de ficção científica da literatura, da autora Mary Shelley, porém é um infantil. Quais foi a motivação para criação do espetáculo adulto “Frankenstein”? Como surge a Amazônia nisso?

Nós temos no coletivo duas obras que são baseadas na obra de Mary Shelley. A obra adulta, que se chama “Frankenstein”, e a obra infantil, “Franquinh@, uma história em pedacinhos”, que surgiu durante o processo de criação do “Frankenstein” e fez inúmeras circulações pelo Brasil e já participou de um evento em Cuba, no ano passado, e um evento virtual na Rússia.

O espetáculo “Frankenstein” propõe uma reflexão acerca das nossas relações de pertencimento discutindo de modo poético questões vinculadas à condição da mulher em nossa sociedade, bem como as violências que ela sofre, especialmente nos países da América Latina. Ele traça relações entre o corpo da mulher e a nossa floresta amazônica, que vem sendo destruída e historicamente submetida às vontades do homem. [A ligação], então, é a relação dessa mulher que muitas vezes se destrói por uma vontade masculina.

Em um dos materiais do coletivo sobre o espetáculo, está o seguinte trecho: “(...) lançando luz aos questionamentos cotidianos sobre beleza, sucesso, aceitação e como tudo isso tem nos transformado em remendos uns dos outros…” “Frankenstein”, do Gompa, conversa em alguma medida com os filmes “A substância", de Coralie Fargeat, e “Pobres Criaturas", de Yorgos Lanthimos?

“Frankenstein” dialoga um pouco com os filmes inclusive por essa questão de um ser montado através de pedaços de outros seres, que precisa se reinventar e se adaptar. É o que as mulheres, na nossa sociedade hoje, passam quase diariamente.

Dá para ver isso nas respostas anteriores e eu vou destacar um trecho do áudio da peça, o texto em off, que resume também um pouco disso:

“E cai e levanta, e cai e levanta. Mulheres da América Latina precisam constantemente levantar seus olhares.

Uma pedra rola do alto de um monte em alguma floresta tropical ameaçada da América Latina. Na mesma mata, um primata pula de um galho ao outro. Um pássaro que acabou de quebrar o ovo não sabe o que fazer com suas asas. A pedra continua a rolar. O pequeno primata continua saltando de galho em galho até o dia em que não houver mais galho. O pássaro salta da maior altura que consegue. A criatura tenta se levantar. E cai. Como a pedra que cai no sopé de um monte, dez vezes menor do que era quando estava no topo. E cai. Como o primata que leva um tiro nas costas. E cai. Como o pássaro desajeitado que é engolido pelas folhas do chão. E levanta. Levanta porque não é uma pedra, um primata ou um pássaro. Levanta porque é uma mulher. Mulheres precisam aprender a levantar desde muito cedo.”

Espetáculo “Frankenstein”, do Coletivo Gompa

Local: CAIXA Cultural Curitiba – Rua Conselheiro Laurindo, n° 280, Centro       

Data: 13 a 16 de março (quinta-feira a domingo)

Horário: quinta e sexta às 20h; sábado às 17h (com acessibilidade em Libras) e 20h e domingo às 17h

Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada para todos os casos previstos em lei)

Vendas: a partir do dia 1º de março às 10h na bilheteria física e às 15h no site www.sympla.com.br

Bilheteria: de terça a sábado das 10h às 20h, domingo das 10h às 19h

Classificação indicativa: 12 anos

Duração: 80 minutos

Capacidade: 125 lugares (2 para cadeirantes)

Acesso para pessoas com deficiência

Acessibilidade em Libras na sessão de 15 de março

Informações: Site Curitiba | Caixa Cultural | Instagram @caixaculturalcuritiba

(41) 4501-8722

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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