Nos últimos dias, representantes do setor audiovisual paranaense estiveram em campanha para sensibilizar a população e os integrantes da Câmara Federal a respeito do Projeto de Lei da Regulamentação do Streaming. Com publicação de carta aberta, reuniões com parlamentares e pedido de ajuda à ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, a movimentação conseguiu seu principal objetivo, como disse a presidente do Sindicato da Indústria do Audiovisual do Estado do Paraná (Siapar), Jussara Locatelli, em entrevista ao Plural.
O maior risco que o cinema paranaense corria era também um grande retrocesso na descentralização de recursos para produções, pois o texto encaminhado para aprovação nesta terça-feira (4) não mantinha os 20% dos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) exclusivamente destinados à Cota Fames - Fórum Audiovisual dos Estados de MG, ES, PR, SC e RS. A verba passaria a ser dividida também com o interior de São Paulo e do Rio de Janeiro. “Além do eixo Rio-São Paulo já deter 60% dessa contribuição, que vem da indústria, eles pegariam parte da nossa cota", explica Locatelli.
Segundo ela, o relator do projeto, deputado Doutor Luizinho (PP-RJ), colocou novamente a reserva dos 20% para a Fames a partir da apresentação de emendas pelo deputado Tadeu Veneri (PT-PR) e pela deputada Ana Paula Lima (PT-SC), e também devido a pedidos de outros parlamentares. Entretanto, outras alterações - que, na prática, resultam em proteção e incentivo para o cinema estadual e nacional - entram em votação nesta quarta-feira (5).
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Os recursos do FSA vêm da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine) paga pela indústria audiovisual para veiculação de produções (por exemplo, quando um filme é exibido em sala de cinema ou quando um comercial aparece na TV). O acesso a esses valores pelos realizadores, produtoras, distribuidores e exibidores brasileiros acontece por chamadas públicas, editais ou linhas de financiamento.
Conforme explica a presidente do Siapar, apesar de o Brasil ser o segundo país que mais consome streaming no mundo, as plataformas nunca contribuíram para a produção local e não pagam taxas como o Condecine. “Isso não acontece em outros países, na França, tem uma cobrança de 20%; Portugal e Argentina têm 11%, e na Croácia tem 3%. A regulação [que instaura o Condecine para as empresas de VoD] é uma discussão que já dura oito anos".
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Em votação
Alíquota
Um dos pontos que segue para votação é exatamente o quanto o streaming pagará como contribuição. O relator diminuiu a alíquota proposta para 4% sobre o faturamento anual, o segmento espera que seja aprovada a emenda que pede o aumento para 6%, conforme sugerido anteriormente.
Cota de conteúdo nacional
Também é esperado o veto à dispensa da cota mínima de 10% do catálogo com produções brasileiras, em serviços de transmissão on-line com mais de 700 obras nacionais disponíveis. A troca pode reduzir muito o direcionamento de recursos das plataformas gigantes para produções locais independentes. O prazo de adequação à exigência proposto em emenda é de 5 anos, começando com metade da cota (5%).
Janela de 90 dias
Há proposta de aumento do período de exibição das obras exclusivamente em salas de cinema, para 90 dias no mínimo (exceto para produções das próprias plataformas). A janela ajuda na sustentabilidade de toda a cadeia produtiva do audiovisual, pois favorece a entrada dos filmes no circuito exibidor.
Taxa sobre lucros enviados ao exterior
No texto final, a indústria audiovisual local também espera que a cobrança de Condecine Remessa (a taxa sobre lucros enviados ao exterior) retorne, sem isenções.
Polêmica: Abatimentos
Um dos pontos mais controversos do PL são os descontos nos valores de Condecine devidos propostos no texto do relator. Num total de 60% de abatimentos, 40% podem ser conquistados em função de investimento direto em conteúdo nacional. Contudo, o segmento pede a retirada deste item do projeto (considerando a possibilidade de favorecer produções não independentes). O descontentamento com o item é tamanho que muitos nomes reconhecidos, como Lúcia Murat, integrante do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Cineastas (Abraci), classificam a regulamentação como uma distorção, uma espécie de Lei Rouanet privada. A opinião da cineasta veio a público em reportagem da Agência Brasil.
Também foi solicitada a exclusão da pequena porcentagem de abatimento em troca de investimentos em capacitação.
Ainda sobre os recursos para o Paraná, Jussara Locatelli diz que os representantes do setor no estado pretendem lutar por uma cota regional no abatimento previsto para as plataformas por investimento direto em produções audiovisuais.

