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"Daqui Ninguém Sai" revela um Dalton Trevisan que nem os Curitibanos conheciam

Com direção de Nena Inoue e dramaturgia de Henrique Fontes, o espetáculo leva ao palco trechos de materiais inéditos e cerca de 60 contos

"Daqui Ninguém Sai" revela um Dalton Trevisan que nem os Curitibanos conheciam
Equipe do espetáculo "Daqui Ninguém Sai". (Foto de: Annelize Tozetto/Festival de Curitiba.)
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A triste notícia de que Dalton Trevisan faleceu em dezembro do ano passado, acabou com as expectativas por mais um feito que o escritor estava prestes a conseguir. Em junho de 2025, ele – um dos mais importantes contistas brasileiros, se não o principal – completaria 100 anos de vida. Com isso, tudo ao redor dos livros e do mito do escritor reservado e avesso ao assédio de jornalistas e curiosos, ganhou ainda mais destaque. Como não poderia ser diferente, o espetáculo do Teatro de Comédia do Paraná (TCP) "Daqui Ninguém Sai" foi subindo posições entre os mais esperados do Festival de Curitiba. As apresentações são nos dias 26 e 27 de março (quarta e quinta-feira), no Guairinha, com ingressos gratuitos.

Uma obsessão

A ideia de levar Dalton para o palco foi apresentada pela própria diretora, Nena Inoue, ao Teatro Guaíra, responsável pelo TCP. Como o "sim” veio, ela pediu algumas sugestões ao escritor, que batizou a peça com o nome também de um de seus contos "Daqui Ninguém Sai", poucos meses antes de morrer. Em entrevista coletiva nesta terça-feira (25), a artista disse ser “obsessiva” pelo contista. Dá para entender, ela trabalhou como atriz nos espetáculos "Mistérios de Curitiba" e " O Vampiro e a Polaquinha", ambos com direção do Ademar Guerra, diretor paulista que foi o primeiro a levar a obra do Dalton para o teatro. Em "Paranã" e "Dalton Cabaré", a direção foi de Nena, que é uma grande amiga de Fabiana Faversani, gestora da obra do autor curitibano.

A proposta é diferente das adaptações anteriores da obra de Dalton para o teatro que, conforme explicou Nena, trabalharam com um conto atrás do outro. E Fabiana é um dos trunfos da montagem para isso. Uma das atrizes do elenco, Laís Cristina, afirma que as conversas com a gestora, que foi a melhor amiga dele durante 20 anos, permitiu conhecer o lado pessoal do escritor: "...algo que definitivamente não é o que a imprensa pintou durante muito tempo, essa figura machista, misógina, enfim, que é uma primeira visão que muita gente tem do Dalton, e poder entender esse lado dele num lugar de denúncia de questões.” 

Inéditos

E foi Fabiana quem esclareceu que o ineditismo está para além da forma como a dramaturgia foi criada. “A nossa proposta era trazer, além de alguns contos já conhecidos, um Dalton com outras temáticas. As pessoas não acompanharam toda a produção dele, muitas só leram os clássicos e ele continuou produzindo até 2014 contos inéditos, que foram se atualizando com a cidade, com as temáticas", disse ela que também falou sobre o material não ser algo novo apenas para os leitores: “O desafio era trazer esse novo universo, muito pouco trabalhado pela crítica literária e pelo teatro.” Entre tudo isso, as cartas em que o escritor fala sobre literatura e que vêm a público pela primeira vez são inestimáveis.

27 versões até chegar ao palco

O dramaturgo e assistente de direção Henrique Fontes, contou que só conhecia o que a grande maioria conhece da produção de Dalton. A dificuldade em selecionar os contos, entre curtos, longos e fragmentos, que estarão no palco começou na tarefa de ler toda a obra do autor, foi um investimento de quatro meses. Durante os 27 tratamentos do texto para o teatro, ficaram cerca de 60 contos. Não, você não leu errado, a dramaturgia por pouco não chegou a 30 versões antes da estreia. Ele também leu mais de 600 cartas. Em resposta ao Plural sobre quais os destinatários das correspondências, foram listados nomes como: Otto Lara Resende, Millôr Fernandes, Manuel Bandeira, Ademar Guerra, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e José Paulo Paes. Aproximadamente 13 trechos das cartas estão no espetáculo. 

Uma nova peça

Da data de estreia da adaptação mais famosa de uma obra de Dalton para o teatro até hoje, se passaram mais de 30 anos e a ideia inicial da montagem mirava nos jovens. Conforme contou Nena, seriam três jovens que entrariam num casarão abandonado e encontrariam um livro com a obra do autor, que eles não conheciam. O lugar pegaria fogo, os personagens sobreviveriam porque eram espectros. 

Agora a peça não é mais nada disso, a maior mudança foi recente. A diretora, muito emocionada e com os olhos marejados, explica que foi preciso ouvir o processo, algo que só foi possível pela tamanha entrega e comprometimento dos atores. Com isso, o metateatro ganhou um papel na peça. Conforme afirmou o ator Sidy Correa, assim a equipe ganhou liberdade de brincar e até errar, porque é algo que cabe nessa versão melhorada da peça. “A gente pode experimentar vários Joões e várias Marias, isso enriqueceu muito a nova versão", falou Correa. 

Dalton "é pouco lido"

Se o espetáculo "Daqui Ninguém Sai” que estreia amanhã conseguirá chegar nos jovens, não há como saber, segundo a diretora. “Dalton é muito falado, mas pouco lido pela importância que tem. Ele é o maior contista do país, não só na minha opinião, mas também na de vários especialistas de literatura, e é pouco lido. Então, a ideia é que as pessoas vejam o espetáculo de teatro e se reconheçam em alguns contos e falem ‘esse cara é bacana’. Se vamos conseguir levar esse público, eu não sei.” Ela ainda ressaltou que o Teatro Guaíra pretende levar a montagem à Região Metropolitana e, durante a temporada, realizar apresentações para escolas.

Sinopse 

Celebrando o centenário e obra do escritor Dalton Trevisan, o espetáculo "Daqui ninguém sai" traz ao palco mais de 60 contos e trechos inéditos da correspondência do autor, além de revelar ao público os percursos de criação, montagem e  transformação de uma obra literária em teatro. Nova montagem do Teatro de Comédia do Paraná (TCP), com direção geral de Nena Inoue.

Ficha Técnica 

Contos: Dalton Trevisan

Direção: Nena Inoue

Dramaturgia e Assistência de Direção: Henrique Fontes

Pesquisa Literária: Fabiana Faversani

Elenco: Carol Mascarenhas, Fábyo Rolywer, Laís Cristina, Madu Forti, Paula Roque, Paulo Chierentini, Sidy Correa, Simone Spoladore, Trava da Fronteira, Val Salles, Wenry Bueno e Zeca Sales

Composição Musical: Grace Torres e Lilian Nakahodo  

Composição “Maria Bueno”: Grace Torres, Lilian Nakahodo e colaboração do elenco

Composição “Balada das mocinhas do Passeio”: Paulo Chierentini

Composição “Perdido”: Madu Forti e Zeca Sales

Preparação Vocal: Babaya

Iluminação: Beto Bruel

Figurino: Verônica Julian

Cenografia: Carila Matzenbacher

Integração Somática/Hatha Yoga: Carlos Cavalcante

Preparação Coreográfica: Rapha Fernandes

Serviço: “Daqui Ninguém Sai”

Dias 26 e 27 de março (quinta e sexta-feira), no Teatro Guairinha

Ingressos Gratuitos distribuídos 1 hora antes na bilheteria do Teatro. 

Gênero: Contemporâneo

Classificação: 16 anos

Duração: 100’

33º Festival de Curitiba

De 24/3 a 6/4 de 2025

Valores: Os ingressos vão de R$00 até R$85  (mais taxas administrativas).

Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física exclusiva no Shopping Mueller (Segunda a sábado, das 10h às 22h e, domingos e feriados, das 14h às 20h).

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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