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Curitiba se despede de Nilson Müller, o “Pai do Zequinha”

O desenhista foi criador do mais famoso personagem paranaense e um dos criadores do super-herói curitibano O Gralha. Confira detalhes do velório e cerimônia de despedida

Curitiba se despede de Nilson Müller, o “Pai do Zequinha”
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Nilson Waldir Müller, um dos desenhistas mais importantes da cena cultural paranaense, morreu nesta segunda-feira (5), aos 84 anos de idade, deixando esposa, filhos e netos. Conforme comunicado da família do artista no Instagram, o velório será das 20h até a meia-noite, na Capela Vaticano - Sala Esmeralda (Av. Desembargador Hugo Simas, 26. Bom Retiro - Curitiba), continuando na terça-feira (6), a partir das 7h30. A cerimônia de despedida está marcada para esta terça (6), às 18h30.

Em sua trajetória, o desenho surgiu cedo, ainda na infância. Depois, Müller também trabalhou como ilustrador de publicidade e artista plástico e foi parceiro da Gibiteca de Curitiba. Um dos grandes quadrinistas do Paraná, ele chegou a ser convidado para trabalhar na Marvel e foi um dos criadores do super-herói curitibano O Gralha (ao lado de Alessandro Dutra, Antônio Éder, Augusto Freitas, Edson Kohatsu, José Aguiar, Gian Danton, Luciano Lagares e Tako X).

Capa ilustrada por Nilson Müller da edição especial da revista Metal Pesado (1997) com a estreia do personagem O Gralha, também batizado pelo artista. (Imagem: Reprodução/Guia dos Quadrinhos.)

Zequinha

O personagem mais célebre com o traço do artista foi Zequinha, que nasceu em 1928, mas se tornou grandemente conhecido nas décadas de 1970 e 1980, após o desenhista criar uma nova versão do palhaço com linhas grossas e temas educativos. Foi sob encomenda que o Müller assumiu o carequinha do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICM), atual ICMS. Na época, o governo do Paraná promoveu uma campanha em que pessoas trocavam notas fiscais por figurinhas. O sucesso resultou em 200 situações diferentes do personagem ilustradas por suas mãos. Mais de 40 anos depois, Zequinha foi celebrado com mais 200 situações em figurinhas novas, apareceu usando máscara e álcool gel, fazendo selfie, economizando água, participando de lives. Recentemente o personagem ganhou exposições, foi publicado como HQ e tornou-se tema de livros.

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Nesta última fase, a partir de 2020, João Teixeira passou a assinar os textos do Zequinha e tornou-se amigo do artista e ilustrador, uma “pessoa incrível, de extrema humildade e simplicidade”. “Felizmente, nos últimos anos, recebeu diversas e merecidas homenagens. E o personagem que ele redesenhou, em 1979 - nosso querido Zequinha -, é um dos seus grandes legados que viverá para sempre na memória e no coração de milhares de paranaenses”, diz Teixeira. O “Pai do Zequinha” foi reconhecido por suas contribuições à cultura como Vulto Emérito de Curitiba, em 2022, e Cidadão Benemérito do Paraná, em 2023.

Segundo José Aguiar, o meio artístico perde uma de suas poucas unanimidades com a morte de Müller. “Ele nos deixa lições de sorrisos, simpatia, disposição e perseverança para todos aqueles que em Curitiba se dedicam à ilustração e, principalmente, aos quadrinhos. Não somente aos fãs das figurinhas que ele conquistou nos últimos anos, pois ele era um artista que transitava entre linguagens. Ou seja, não sabia parar quieto. Nilson trazia na bagagem o academicismo da pintura clássica, conhecimento que levou à publicidade, mas que sempre sonhou em levar aos quadrinhos. Contava orgulhoso de quando foi convidado para trabalhar na Marvel. Caminho que a vida não o deixou trilhar”, fala Aguiar.

Ainda segundo o amigo desenhista, ele era generoso e sonhador: “Sempre falava em retomar seus projetos engavetados de quadrinhos. Acontece que o destino o fez retomar e atualizar o Zequinha, personagem local que antes era uma curiosidade histórica e que ele transformou num ícone mais forte do que nunca. Que belo foi ter visto ele vivendo esse ápice de popularidade nessa fase madura de sua vida. Ele correu a cidade, de banca em banca, de um espaço cultural para outro provando que vale muito a pena acreditar no artista local. Não importando a sua idade.”

O último encontro com Müller, na barraca que mantinha na Feirinha do Largo, é lembrado com emoção. “Ele não precisava, mas estava lá, retribuindo o afeto dos fãs em mais um domingo de sol forte. O brilho de seu olhar empolgado em cada encontro parecia renová-lo. Mas se hoje, infelizmente para nós, essa luz foi brilhar em outro lugar, fica conosco seu lindo legado de reinvenção e perseverança para todos os artistas locais. Mesmo os que ainda não conhecem seu trabalho além do Zequinha. Hoje aquele álbum de figurinhas autografado que ele pessoalmente me ajudou a completar fica ainda mais raro e querido. Mas não tanto como o amigo (de todos) que se foi", conta Aguiar e finaliza: “Obrigadão pela generosidade e exemplo, Nilson.”

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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