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Coragem na ponta da agulha: Lurdinha faz moda afro em uma cidade que teima em não olhar para os negros

A estilista, costureira e figurinista começou a carreira rogando por um milagre e agora leva sua moda do Cajuru ao São Paulo Fashion Week

Coragem na ponta da agulha: Lurdinha faz moda afro em uma cidade que teima em não olhar para os negros
Maria de Lourdes do Rocio Silva Lima, a criadora do Ateliê Lurdinha Moda Afro. (Foto: Tami Taketani/Plural.)
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Lurdinha conquista dia a dia reconhecimento na moda de Curitiba. Não encontrou moldes, como aqueles copiados de revistas de outras décadas, para usar no caminho de empreendedora, mesmo assim prova que é démodé ignorar a realidade da cidade desde o lançamento de sua grife de roupas e acessórios afros. Os obstáculos, vence com persistência enquanto sua ousadia recebe olhares enviesados de brancos e também de negros. “É como se aqui não tivesse preto. Nós temos muitos pretos.” 

Em seu ateliê, no Cajuru (bairro da zona leste curitibana que ganhou ares urbanos a partir de 1960), aviso que a conversa será longa e pergunto se ela prefere sentar durante o papo. Antes de aceitar a cadeira trazida pelo marido – que faz o controle de qualidade das peças além de assumir outras funções – a estilista, costureira e figurinista de prosa fácil diz que “estava animada para receber vocês”. Nem precisava, deu para notar isso espiando pelo lado de fora da vitrine, enquanto ela revelava o significado de uma estampa para uma modelo acompanhada pelos pais, durante a escolha de um look às vésperas de um desfile. Com a inquietude típica dos criativos, não percebeu que passou o tempo inteiro em pé. 

Até quem não acredita em sinais há de convir que Maria de Lourdes do Rocio Silva Lima nasceu com o destino bem alinhavado. Ao explicar as tranças afro como símbolos de resistência, ela puxa o fio da história de sua família. O avô, negro retinto, percebeu que trabalhar numa fazenda era continuar escravizado, tinha que comprar onde o patrão determinava, fazer o que mandavam e ainda mais. "Não podia sair, não podia nada. Então falou: 'Não é isso que eu quero para a minha vida!'” Deu um jeito para fugir trilhando o cafezal e deixou Minas Gerais para trás. Foi para São Paulo e terminou em Curitiba, na companhia da esposa, dos filhos, coisa de umas dez crianças pequenas, e de uma máquina de costura – o que deu para levar. Mulheres de três gerações costuraram com ela. Era para ser. 

O aprendizado de Lurdinha não teve método. A avó e a mãe sabiam, mas não ensinaram e nem foi preciso. O dom se manifestou quando ela rogou por um milagre. Grávida, o sonho era cuidar da filha à moda antiga. Não tinha como, trabalhava fora para ajudar o marido nas despesas da família. Um dia, lavando roupa no tanque, ouviu uma frase que foi como uma agulha direto em seu coração: “A Camilinha está me chamando de mãe”. Implorou para a avó impedir a neta de seguir com aquilo. “Aí, falei: Deus, me dê um trabalho que me deixe ser mãe. Eu quero ser mãe, quero ficar com a minha filha.” 

Começou a costurar. Cortava, cosia, notava defeito, desmanchava, começava de novo. “E fui, e fui, e fui, e fui. Fazia minhas próprias roupas e as pessoas pediam eu fazia também.” Saiu do trabalho no consultório médico para se tornar diarista da costura. Carregava a máquina para a casa das clientes e passava o dia arrumando tudo o que precisava de ajuste ou conserto, de lençois a camisetas, de calças a vestidos de festa. Enfim podia ficar alguns dias em casa com a menina, hoje uma mulher de 37 anos de idade. 

Camila estava ficando mocinha e a vida resolveu tecer algo diferente para Lurdinha. A novidade surgiu dos desenhos da filha de uma das clientes que estava prestes a lançar uma marca de roupas infantis e a chamou para ser costureira pilotista. Agarrou firme a oportunidade, foram três anos testando o que criavam por lá, montando as primeiras peças das coleções. Logo o destino foi unindo os pontos da família. A filha da costureira começou nessa mesma fábrica nos serviços gerais, rapidamente passou a operar o sistema dos computadores. Estava no sangue. Cursou faculdade de moda e trabalha agora como estilista no Sebrae e na Fiep. O irmão nove anos mais novo, Pedro Henrique, escolheu a educação física como profissão. Para formar sua própria família, casou – com uma designer de vestidos de noiva. 

Só que às vezes a linha da vida enrosca na carretilha. Chegou a Covid-19 e Lurdinha precisou recomeçar. As clientes conquistadas após sair da fábrica sumiram e o marido perdeu o emprego de bombeiro hidráulico. Por outro lado, os retalhos acumulados serviram de matéria-prima para criar conforme seus próprios desejos. Da pandemia, foram salvos pelas máscaras. Ela as inventou coloridas, estampadas, personalizadas para as crianças voltarem à escola, elegantes para entrarem nas festas combinando com os vestidos…

E veio o chamado ancestral. A bandeira africana já aparecia em alguns dos itens de proteção criados e abriu espaço para a identidade afro cair como uma luva. Era hora de se lançar na moda autoral. “E daí começou, foi aí que me reconheci, que me entendi como negra. Eu tive uma autoestima tão alta que antes não pensava nisso, não me via com cor diferente. Perguntavam: ‘Você não sofre preconceito, nunca sofreu?’ Não, nunca. Eu sempre me vi igual a todo mundo, porque na minha casa não se falava em cor, não cresci falando em cor, as pessoas na minha família não falavam disso”. 

Eram outros tempos, a preocupação dos avós, tios e principalmente da mãe era que ela se sentisse amada, muito amada. Lurdinha foi muito esperada, antes de nascer já tinha nome e até apelido. Alimentar o afeto diariamente deve ter sido um desafio e tanto, pois se hoje ainda não é fácil para uma mãe solteira enfrentar o mundo para proteger a filha, imagine como era cortar esse dobrado na Curitiba de 1961. Hoje e sempre o carinho foi retribuído. Para acudir às crises provocadas pelo Alzheimer que apareceu com o avanço da idade, a estilista trouxe a mãe para perto e moram juntas agora.

Nem lindas coleções nem estampas coloridas escapam do lado avesso

Mesmo entre araras exibindo os mais diferentes modelos criados com estampas vibrantes e cores fortes, nem tudo é belo. Aos poucos, enquanto o mundo foi voltando aos moldes de antes do Coronavírus, a estilista abriu a primeira loja do Ateliê Lurdinha Moda Afro em um shopping. Só que, ao longo de dois anos no Alto da XV Mall (antigo PolloShop), não foram muitas as alegrias. O ganho foi em experiência e autoconfiança. “Eu vi que eu posso!” 

Boa parte das pessoas não olhavam para a linda loja de esquina, com grandes vitrines e logomarca inspirada numa negra usando turbante na fachada, era como se as criações não caíssem bem num shopping de bairro nobre. Na verdade, até viam, porém não entravam. Outros não mediam os olhares. As estatuetas de mulheres negras adornando os balcões encantavam as crianças – rapidamente puxadas para longe por mães equivocadas que pensavam estar diante de algum símbolo das religiões de matriz africana. Lourdes é cristã. Quando perguntam se faz roupa para santo, a resposta é rápida: “Eu faço roupa para você. E você pode dar para quem quiser.” 

Já quem entrava dificilmente tinha estilo na medida certa para chegar ao provador. As estampas atraiam as mãos para os tecidos das kaftan (túnica fluida) enquanto a dúvida sobre não saber onde usar aquelas roupas fabricava grandes barreiras. “Isso aqui a gente só usa quando é livre. Uso o que eu quiser, aonde eu quiser, do jeito que eu quiser, porque sou livre.”

A decepção veio também da reação dos negros. No lugar do apoio, reproduziam o preconceito e a opressão, o pertencimento ao lugar era colocado em xeque. As alfinetadas não pararam, ainda tinha mais. Não foram poucas as vezes em que ouviu a pergunta: “Quando a tua patroa chega?”

A autoestima ganha ainda quando garota sempre se manteve viva. Com a segurança de quem cria moda autoral e não tem compromisso de agradar aos outros, não se deixou abalar. “A minha patroa sou eu. Tudo o que tem aqui sou eu que fiz, qualquer coisa que você olhar tem a minha mão. Tudo é arte minha.” Enfrentaram muitas batalhas no "mall” e outras de natureza diferente na Feirinha do Largo da Ordem e na Praça Zumbi dos Palmares – sempre saíram mais fortes. 

Se não em Curitiba, no mundo

Lurdinha guarda alguns ressentimentos no fundo de seus baús. Falta acolhimento e sobram críticas. Se brancos vestem suas peças, logo a acusação de apropriação cultural aparece. A estilista não tem problema algum com isso, gosta muito de ver as pessoas brancas com as roupas que ganham vida por suas mãos. Tem cliente que titubeia sobre poder ou não usar. "Pode e deve. A gente é livre para usar o que quer. A gente é livre!”

No saldo, são as alegrias que dão o tom da vida e de sua carreira. Um dos grandes momentos felizes aconteceu recentemente e dá para reconhecer nele o estilo do alfaiate Destino. Ele fez questão de que a filha levasse a mãe até o maior evento de moda do Brasil. Pensou que a trama a partir daqui narraria um passeio? Ledo engano. 

Camila foi fazer um curso no São Paulo Fashion Week (SPFW) de 2025; antes descobriu que marcas autorais podem expor suas roupas e acessórios na Pop Up Store (loja temporária) da programação oficial do evento. É uma oportunidade e tanto para promover produtos, aparecer para o público e conquistar o olhar dos profissionais da área. Só que não é para qualquer um, é preciso ter personalidade, inovação e estética autoral. Não teve qualquer dúvida, inscreveu a grife de moda afro da mãe para tentar uma vaga entre os concorrentes do Brasil inteiro.

Você deve já deve ter entendido que Lurdinha não é qualquer uma. O processo dessa seleção envolve curadoria rigorosa, é preciso montar uma coleção para apresentar aos avaliadores. Ir para São Paulo, com as roupas e acessórios, era impossível naquele momento. Não foi necessário, o julgamento das peças de vestuário e bijuterias dela foi on-line, por vídeo. Resultado: o primeiro ateliê curitibano de moda afro embarcou na mala de Lurdinha para a maior Fashion Week brasileira.

Depois disso, o céu é o limite. Parar de inventar moda não passa pela cabeça dela, sempre cheia de novas ideias. Os próximos sonhos são vestir deslumbrantemente uma noiva afro, em parceria com sua nora, e expandir o ateliê para Santa Catarina, trabalhando então com seu irmão. Como sempre, alinhavando o sucesso nos laços da família. 

Quer conhecer?

O Ateliê Lurdinha Moda Afro fica na rua Amador Bueno, 1421, no bairro Cajuru, em Curitiba. O instagram da Lurdinha é @lourdesmodafro

(Foto: Tami Taketani/Plural.)
Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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