Surpreendida pelo sucesso de “Latim em pó”, que vendeu mais de 40 mil exemplares desde sua publicação, em janeiro de 2023, a Companhia das Letras devia estar ansiosa para saber o que Caetano W. Galindo faria em seguida. Seria um “Latim em pó 2”? (Como referência: se um livro vende mais de 3 mil exemplares, ele pode ser considerado um best-seller para os padrões brasileiros. Se o livro em questão for um ensaio sobre as origens e as influências da língua falada no Brasil, o número é uma proeza incomparável.)
O fato é que Galindo tinha uma ideia de livro, inspirada em um comentário – quase um desafio – que ele lançava para os alunos do curso de Letras, na Universidade Federal do Paraná: de que você pode pegar qualquer conjunto de palavras e, a partir delas, contar toda a história da língua portuguesa no Brasil. Cada palavra conta (e contém) a própria história mais ou menos como os anéis de um tronco revelam a idade de uma árvore. Sem dúvida, era uma boa ideia de livro, mas o conjunto de palavras não poderia ser completamente aleatório. Era preciso amarrá-las de alguma forma. Mas como?
Não demorou para Caetano W. Galindo se dar conta de que o corpo humano era uma resposta possível. Afinal, todo mundo habita um corpo. E assim surgiu “Na ponta da língua – O nosso português da cabeça aos pés”, que acaba de sair pela Companhia das Letras. Escreve o autor, na apresentação do livro: “E por mais que a gente saiba (e deva sempre lembrar quando periga deixar de lado) que não existe critério universal de pertencimento, que cada um de nós é vagamente diferente e definitivamente único, em termos psicológicos, sociais, e mesmo biológicos, anatômicos até – por mais que eu não possa saber se todos temos o mesmo número de dedos, a mesma facilidade ou possibilidade de uso de cada membro e órgão: algo que nos une, ao menos como referência comum, como horizonte conhecido (muito mais do que os cômodos da nossa casa ou o fato de termos ou não uma casa) é o corpo que habitamos”.
“Na ponta da língua” é, de certa forma, o “Latim em pó 2” que a Companhia das Letras – e, imagino, um bocado de leitoras e leitores – esperava, mas com um bônus. Dessa vez, Galindo não apenas dá o peixe, como se diz, mas também ensina a pescar.
Ao explicar a origem das palavras usadas para nomear partes do corpo, começando pela cabeça e terminando nos pés, ele é como um detetive que vai solucionando mistérios enquanto explica o próprio método de trabalho, enquanto ensina como interpretar as pistas dadas pelas palavras.
Na ponta da língua
“Se toda a sociedade está imersa em história, a língua, essa atmosfera constante da nossa vida, precisamente por representar essa sociedade, além de permitir que cada um de nós faça parte dela, acaba por englobar essa história e lhe dar corpo (…) de uma maneira interessantíssima”, diz o autor, nas primeiras páginas.
Agora, eu devia escolher um trecho do livro para ilustrar essa ideia, mas o problema é que “Na ponta da língua” é muito citável. Difícil extrair um exemplo que dê conta de todos os percursos cobertos pelo livro ou de parar num exemplo só. Mas vou arriscar.
Você, assim como eu, pode achar que as pessoas passaram a usar asa da xícara para se referir à parte saliente do objeto usado para tomar café por causa da asa do pássaro, que teria vindo antes. Porém, na verdade, foi o contrário. Porque asa vem do latim ansa, que tinha o sentido de alça. “E foi ela que sofreu uma ampliação de sentido para se referir ao membro superior das aves, aos apêndices torácicos dos insetos, à membrana das mãos dos morcegos etc. Houve metonímia, sim. Mas ela veio na direção oposta da que você pensava”, escreve Galindo.
Lendo o livro, descobri que o til, o acento que vai em cima do a em João, nada mais é do que um n bem pequenininho, e que na verdade temos 12 vogais e não apenas 5 como aprendemos na escola (história difícil de resumir aqui). Também aprendi que a gente diz “voz anasalada” para uma pessoa que está gripada e não consegue separar mico de bico quando fala, mas não é bem assim. “Nós dizemos que estamos com a voz ‘anasalada’ nesses casos em função da vibração que sentimos no nariz ao tentar falar, por causa da consciência dessa via bloqueada”, explica Galindo. Com o nariz entupido, veja só, a gente deixa de falar anasalado.
Caetano W. Galindo
Sobre o lance de interpretar pistas dadas pelas palavras, o autor faz uso dos trinta anos de experiência em sala de aula, e da habilidade de abordar aspectos mais ou menos complicados da linguística com uma leveza que não se vê em qualquer lugar, para destrinchar palavras, ou como prefere Galindo, “dissecar as palavras sem precisar matá-las, sem acabar com essa vida toda”. É assim que ele explica – e a gente começa a entender – como consoantes podem se transformar ou desaparecer dentro de uma palavra, ou como uma vogal pode surgir entre duas consoantes para simplificar a pronúncia de determinada palavra. Tudo isso ao longo de muitos e muitos anos. Um exemplo específico do livro tem 7 mil anos!
Dividido em cabeça, tronco, pudenda e membros, “Na ponta da língua” transita com desenvoltura por questões de latim clássico, sânscrito e hindi, para, num virar de página, explicar como foi que o brasileiro se tornou o único falante do português que tem bunda (a palavra vem do quimbundo, um idioma ainda muito falado em Angola).
Para quem ficou curioso com o capítulo “pudenda”: sim, ele fala sobre as partes íntimas do corpo. E não tem pudor, por assim dizer, de percorrer todos os detalhes da anatomia.
Em sua origem, “Na ponta da língua” foi uma tese de titularidade defendida por Galindo na UFPR como parte do processo para se tornar professor titular, cargo no topo da carreira docente em uma universidade federal. Apesar dessa pegada acadêmica, desde o início o livro foi pensado como uma obra de divulgação científica capaz de falar para um público interessado, mas não especializado. E isso se reflete inclusive na maneira como o autor fez uso das referências bibliográficas. As duas principais fontes do livro são relativamente acessíveis: o dicionário Houaiss e o site Wikcionário.
Se tudo correr bem, a série que começou com “Latim em pó” e seguiu com “Na ponta da língua” tem chance de virar uma trilogia, com um terceiro livro para 2026 abordando os sotaques do Brasil e, ainda mais, os absurdos e os preconceitos que giram em torno deles.
“As cidades”
Sotaque é um dos muitos temas que Galindo abordou na curadoria da exposição “Fala, falar, falares”, feita com Daniela Thomas e em cartaz no Museu da Língua Portuguesa até o dia 14 de setembro, em São Paulo.
Enquanto montavam a exposição, sobrou uma parede vazia e Thomas pediu para Galindo fazer alguma coisa com ela. Então ele se inspirou no conceito de uncreative writing, ou “escrita não criativa”, desenvolvido pelo artista conceitual Kenneth Goldsmith, para usar nomes de municípios brasileiros organizados como se fossem versos de um poema.
Para Goldsmith, explica Galindo, a criatividade “acabou se tornando um lugar-comum, idealizado e equivocadamente idolatrado”. Para provar seu argumento, Goldsmith publicou livros bizarros a partir de ideias que pareciam mais um acinte: ele fez um livro só de previsões meteorológicas e outro com tudo que havia dito ao longo de uma semana, para ficar em apenas dois exemplos.
O fato é que Galindo pegou a lista do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística com os nomes dos 5.571 municípios brasileiros e extraiu dela os 460 municípios que compõem os versos de “As cidades”, o poema que ilustrou a parede na exposição do Museu da Língua Portuguesa e que, agora, ganha uma versão em plaquete pelo Círculo de Poemas.
O livrinho (plaquete é um “livro de pequena espessura”) é divertidíssimo. Ele soa como música, faz rir em alguns momentos e faz pensar no quão grande esse país é. Sei que pode soar como um clichê, mas, enfim, o Brasil é mesmo enorme e tem cidades como Iuiu e Uauá, Tuntum e Tururu, Não-Me-Toque e Venha-Ver.
Mais viagens
Uma parte das conversas para este texto aconteceu no café da livraria Arte e Letra, na última sexta-feira (18), e outra parte se deu por mensagens de texto e de áudio. Ex-colunista do Plural e irmão de um dos fundadores do jornal (o romance “Lia”, publicado logo depois de “Latim em pó”, saiu primeiro nas páginas virtuais do Plural), Caetano W. Galindo é uma daquelas pessoas que consegue falar em prosa. Suas frases têm começo, meio e fim, e suas histórias – mesmo as mais simples – têm arco narrativo, suspense, desfecho e, às vezes, uma revelação surpresa. (Se quiser tirar a prova, confira a série de três vídeos exclusivos que Galindo gravou para as redes sociais do Plural, cada um deles destaca uma palavra que aparece no livro “Na ponta da língua”. Ele gravou os vídeos sem roteiro nem ensaio. E de primeira.)
Hoje com 51 anos, Galindo conta que, além da publicação de “Na ponta de língua” e de “As cidades”, ele se prepara também para lançar “Latim em pó” em Portugal – com eventos em Lisboa e Porto a partir do fim de setembro.
Antes, ele vai para Suécia como joyceano a fim de participar de um congresso sobre “Finnegans Wake”, o único livro de James Joyce que falta para ele traduzir. Depois, ele segue para o Porto, onde apresenta, entre os dias 2 e 5 de outubro, no Teatro Nacional São João, a peça “Língua Brasileira”, com direção de Felipe Hirsch. Além de colaborar com o diretor no texto e na montagem da peça, Galindo deve subir ao palco para declamar “As cidades” em quatro sessões do espetáculo. Essa é a estreia de “Língua Brasileira” fora do Brasil. (Mais um parêntese: foi essa colaboração com Hirsch que levou Galindo a escrever “Latim em pó”.)
Em meados de novembro, ele viaja para a China a convite do Itamaraty, para fazer uma série de cinco palestras em cinco universidades de Beijing e Nanjing. Nessas ocasiões, ele vai falar sobre “Latim em pó” para chineses estudantes de português.
Nada mal para um ano sabático.
Os livros
“Na ponta da língua”, de Caetano W. Galindo. Companhia das Letras, 272 páginas, R$ 69,90. Ensaio.
“As cidades”, de Caetano W. Galindo. Círculo de Poemas, 40 páginas, R$ 47,90. Poesia.