Após vários pedidos, a produção do Ap da 13 e da Setra Companhia de Teatro prorrogou as inscrições na seletiva que procura cinco pessoas – não atores ou não atrizes – para o elenco do espetáculo "Multidão". Conforme informado em primeira mão ao Plural, os interessados ganharam mais dois dias e o prazo final foi adiado para terça-feira, 13 de maio.
Em entrevista ao jornal, o diretor e dramaturgo Eduardo Ramos, conversou sobre a proposta de trazer para o palco pessoas que estejam dispostas a compartilhar suas experiências pessoais e atuarem como atores e atrizes na peça de teatro que estreia em agosto, no Teatro Novelas Curitibanas - Claudete Pereira Jorge.
Ele também explicou que para oficializar a inscrição, o candidato deve enviar um vídeo de até dois minutos para o whatsapp da produção do espetáculo (41 998470906), com uma breve apresentação e também explicar por que sua história deve ser escolhida para estar nos palcos. O diretor está à frente da curadoria, mas a equipe de profissionais ao seu lado também participa da escolha.
À reportagem, o artista ainda falou sobre sua trajetória, como surgiu a ideia para "Multidão" e adiantou o que promete a jornada dos cinco selecionados na montagem. Ele também falou sobre a importância dos não atores no processo de criação da obra e de como essas pessoas poderão "vivenciar uma possibilidade verdadeira de escuta e partilha". Confira a entrevista completa de Eduardo Ramos, a seguir.
Eduardo, você já trabalhou com grandes atores, como Rosana Stavis e Mauro Zanatta, e também com artistas iniciantes como a maioria do elenco de Amuse-Bouche. Como surgiu a vontade de trabalhar com não atores na montagem de "Multidão”?
Multidão começou lá em 2018, quando foi minha primeira tentativa de enviar para editais e tentar aprovar este projeto. Ele iniciou de um sonho, onde dezenas de milhares de pessoas dançavam e ao mesmo se manifestavam através do movimento, da arte. E, com o passar dos anos, principalmente quando entrei mais no audiovisual, trabalhando em documentários, surgiu a vontade de ressignificar essa perspectiva do que vem a ser uma multidão. Do que contém e forma uma multidão. E de colocar um foco nas pessoas que nos atravessam diariamente pelas ruas da cidade, desconhecidas a nós, mas que vivem muitas vezes, os exatos dilemas ou ao menos as sensações que também sentimos durante nossas vidas.
A ideia é dar espaço para amadores ou realmente trazer para cena pessoas que nunca participaram de um espetáculo? O que a curadoria procura nessas pessoas?
O espaço é para pessoas que nunca pisaram em um palco. Estamos recebendo inscrições de pessoas que já possuem contato com a arte, ou fizeram teatro na infância ou adolescência e elas também são muito bem-vindas. A ideia central desta curadoria, feita por mim, mas partilhada com o elenco profissional e com os interlocutores Mauro Zanatta e Carmen Jorge, é gerar essa experiência de câmbio, de compartilhar histórias que estão aí e merecem ser contadas tanto quanto inúmeras dramaturgias clássicas que atravessam décadas, séculos e seguem nos palcos. Procuramos nas pessoas inscritas um brilho de vontade, um desejo de através do teatro poderem vivenciar uma possibilidade verdadeira de escuta e partilha.
A proposta é ousada, podemos dizer até arriscada. Você já experimentou algo parecido em projetos ou montagens anteriores? A ideia conversa com o espetáculo “A Velocidade da Luz”, do argentino Marco Canale, que esteve em cartaz no Festival de Curitiba de 2025?
Será meu quarto trabalho com não atores. Três como diretor e outro em que eu estava contracenando com um não ator durante todo o espetáculo. Além de ser uma pesquisa muito especial para mim, há uma vontade de se colocar neste lugar de risco. No teatro, ensaiamos para acontecer tudo conforme ocorreu os ensaios e, ainda assim, o imprevisível está sempre lá, no momento presente. Então, criar lugares que não são confortáveis é como vivemos, achando que temos autonomia sobre algo, mas muitas vezes tudo pode virar de ponta cabeça. É neste momento que algo precioso pode acontecer.
Eu pude conhecer o Marco durante o Festival e tive a felicidade de gravar o espetáculo "A Velocidade da Luz". Foi absolutamente inspirador. Com certeza haverá um grau de espontaneidade biográfica na atuação e dramaturgia, que também era o cerne da obra do Marco.
Muito se discute a valorização da arte como ofício, como trabalho, e o tema já esteve presente em iniciativas anteriores do Ap da 13 e da Setra, como em oficinas de profissionalização e aperfeiçoamento técnico. O convite é para uma participação especial apenas dos cinco selecionados ou será um trabalho remunerado?
O convite é para os não atores viverem um espetáculo de ponta a ponta mesmo. Participando de todo o processo criativo, ensaios e presença durante todas as apresentações. O trabalho é remunerado, vamos oferecer um valor que esperamos ajudar a suprir o tempo que os selecionados estarão dedicando com a gente.
Qual será a condição de trabalho para essas pessoas? Por quanto tempo e como será o preparo e processo, e quantas apresentações da peça "Multidão” estão previstas?
As condições e integração serão as mesmas do restante da equipe, ou seja, os selecionados participarão de dois meses de processo. De 23 de junho a 14 de agosto, quando entraremos no Teatro Novelas Curitibanas para a montagem. A estreia será dia 21 de agosto, e faremos um total de 18 apresentações.
Para dar suporte ao elenco não profissional, teremos quatro atrizes, que também participarão do espetáculo e serão condutoras dos selecionados. Quase como anjos, elas darão todo o auxílio possível para criarmos uma atmosfera divertida e saudável, até para tratar de temas que muitas vezes nos afligem. Faremos três semanas de ensaios antes do elenco não profissional ser integrado, para trabalharmos questões de mediação e promovendo uma conexão muito harmônica.
Para além das atrizes – que são Flávia Massali, Jade Rudnick Giaxa, Larissa Lorena e Mayra Fernandes – também teremos a interlocução de Mauro Zanatta e Carmen Jorge. A composição da trilha de Rodrigo Henrique será executada ao vivo, e Lucas Amado estará na luz.
Anteriormente, você comentou que a vida dessas pessoas, os cinco integrantes do elenco que não são atores, mas que atuam de alguma forma na vida real, será inspiração “para contar uma boa história”. Hoje, após 18 direções de espetáculos e oito dramaturgias de sua autoria que chegaram aos palcos, o que é uma boa história para você?
Acredito que uma boa história é aquela que possui o privilégio de ser escutada, e não temos isso no mundo atual. Cada vez mais vivemos menos, não nos demoramos na fala de alguém, na presença de alguém.
Então, sinto que toda pessoa carrega uma singularidade especial que com todos os elementos que o teatro proporciona, pode virar uma história emocionante! E o teatro ainda é este espaço, onde pessoas dizem coisas e outras estão lá, para ouvir. Acho isso de uma beleza única nos tempos atuais.
Sua carreira também tem uma forte ligação com o audiovisual e com a fotografia. As duas linguagens estarão em cena de alguma forma?
Ainda não sei responder. Mas muitas das inserções audiovisuais dos meus processos surgiram durante eles. Então não fecho mesmo essa possibilidade de friccionar.
Os processos de criação teatral em grupo, sem dramaturgia e/ou concepção cênica estabelecida previamente e até com certo rigor, sempre resultam em surpresas no caminho e/ou nos resultados. Como isso tem acontecido em seus trabalhos? Como foi, por exemplo, o seu trabalho em Cabaré Haikai, inspirado na trajetória e obra de Paulo Leminski?
É sempre uma surpresa boa, mas cheia de angústias. Poder elaborar a dramaturgia durante o processo, cria uma certa legitimidade da participação de todos os envolvidos; entretanto, é sempre árduo o dilema de querer se demorar mais na sala de ensaio que é uma experiência muito rica, versus o tempo que temos por conta da organização financeira.
Em "Cabaré Haikai" tivemos os clássicos dois meses de processo até a estreia, o início foi de muita inquietude até escolher qual caminho narrativo será percorrido.
Mas confesso que gosto disso. Acho que pode tornar a obra e processo mais genuínos de algum modo.
Para quem tem vontade de participar do espetáculo, porém ainda não se inscreveu por medo, receio ou qualquer outro motivo que não seja grave, o que você diria? Por que uma pessoa que nunca esteve no palco deve aceitar o convite da Setra Companhia de Curitiba?
Eu diria: “Coragem!”. É uma palavra que anda me rondando bastante pois, sinto que nós (mas me reduzo a mim), estamos com cada vez mais dificuldade em se dispor. O mundo está mais retraído, e precisamos na arte fazer este constante exercício de afrouxar as rédeas para podermos distinguir o que é verdadeiramente importante em nossas vidas.
Eu garanto a quem for se inscrever que será uma experiência única, divertida e que valerá a pena ser vivida.
Serviço: Seletiva de não atores para o espetáculo "Multidão"
Inscrições até 13 de maio. Para se candidatar é preciso enviar um vídeo de até dois minutos para o whatsapp da produção do espetáculo (41 998470906), com uma breve apresentação e também explicar por que sua história deve ser escolhida.
Resultado com lista de pré-selecionados, a partir de 16 de maio. A divulgação do resultado final está prevista para 3 de junho.
"Multidão" é realizado com recursos do Programa de Apoio, Fomento e Incentivo à Cultura de Curitiba - Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.