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Coletivo cobra explicações para mortes cometidas pela polícia no Paraná

Desde 2019, 2.371 pessoas morreram no estado em ações da Polícia Militar, da Polícia Civil ou de guardas municipais. Casos são sempre relatados como confrontos

Coletivo cobra explicações para mortes cometidas pela polícia no Paraná
Grupo presta auxílio a pessoas que tiveram parentes mortos em ações policiais (Foto: Plural)
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Um grupo formado por parentes de pessoas mortas pelas forças de segurança no Paraná vem cobrando explicações para os casos e dando acompanhamento para famílias de vítimas. Criado em abril do ano passado, o coletivo Desmilitariza faz atos públicos na Rua XV de Novembro, em Curitiba, sempre no segundo sábado de cada mês, com fotos das pessoas mortas em supostos confrontos, principalmente com a Polícia Militar (PM).

“Começamos a partir de algumas pessoas que tinham familiares vitimas da polícia. Articulamos esse grupo de familiares e pessoas que são apoiadores, como é o meu caso. Temos até uma pessoa que perdeu os dois filhos. Mataram um, vinte dias depois mataram o outro, dentro de casa”, diz o auditor aposentado Paulo Diniz D’Àvila, um dos integrantes do grupo. “Essas pessoas começam a ver que é necessário fazer alguma coisa e não simplesmente ficar destruído, têm que começar a reagir”.

O coletivo ajuda familiares de vítimas com advogados e produção de laudos. “Quando nos procuram, a gente tenta auxiliar da forma que for possível. Tem casos em que conseguimos advogados que não cobram nada de famílias pobres. Quando a família contrata o advogado, a gente auxilia no que for possível. Mas tem casos em que a gente consegue pagar uma perícia paralela”. O coletivo pode ser contatado pelo WhatsApp (11) 91475-1181 ou pelo Instagram, no perfil @Desmilitariza_FRMD.

Conta macabra

De 2019 até o fim do ano passado, as ações das forças de segurança do Paraná deixaram 2.371 mortos, segundo levantamento divulgado pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR) em janeiro (a contagem do coletivo é de 2.354 no mesmo período). Em 2024, foram registradas 413 mortes. A conta inclui ações da PM, da Polícia Civil e das Guardas Municipais, mas a maioria envolve a PM. Dos 433 casos registrados como confrontos no ano passado, a Polícia Militar esteve envolvida em 424 (97,7% do total), a Polícia Civil em cinco (1,2%) e guardas municipais em quatro (0,9%).

Casos são expostos na Rua XV de Novembro, em Curitiba, no segundo sábado de cada mês (Foto: Plural)

A ações da PM de São Paulo têm chamado a atenção de todo o país pela violência e pela letalidade, mas em 2023 a polícia do Paraná matou proporcionalmente três vezes mais. Segundo o MPR, entre janeiro e dezembro de 2023, foram contabilizadas 343 mortes. Em São Paulo, no mesmo período, foram registradas 460 mortos. A população do estado vizinho é cerca de quatro vezes a população paranaense. Ou seja: caso agissem em um estado com população equivalente, é como se as forças policiais do Paraná tivessem tirado a vida de mais de 1,3 mil pessoas.

“Aí tem o problema da vitrine. Rio de Janeiro tem fama, em São Paulo a polícia é muito violenta e a polícia da Bahia é a que mais mata. No meio disso aí, encobrem a realidade”, afirma Paulo Diniz D’Ávila. “Como a estatística da violência policial é tomando um por 100 mil pessoas, no ano de 2023 a policia matou do Paraná matou três vezes mais que a polícia de São Paulo. No entanto, nos meios de comunicação do Paraná, muito controlados pela familia do (governador) Ratinho Júnior, isso é completamente acobertado. Não se fala nisso, os veículos não são capazes de procurar um especialista”.

D’Ávila diz ainda que muitos casos não chegam a gerar um inquérito na Polícia Civil. “Muitas vezes, ao invés do inquérito feito pela Polícia Civil, como á previsto, é feito um Inquérito Policial Militar (IPM). Eles defendem a corporação. O segundo passo que acoberta isso são os laudos. Quando o inquérito feito pela PM que recomenda o arquivamento chega ao Ministério Público eles arquivam, vai para o juiz e ele referenda. A outra peça no acobertamento são os meios de comunicação: quando dão a notícia, eles dão a versão do confronto”.

Outro fato que chama a atenção é o baixo número de feridos. “Quem trabalha com dados de segurança sabe que o número de feridos sempre é superior ao de mortos (em casos de confronto). No caso do Paraná raramente aparece um ferido, é sempre morte”. No ano passado, além das 413 mortes, foram registrados 112 pessoas feridas em confrontos. Dos 433 casos registrados como confronto em 2024, em 118 (27,3% do total) a vítima não portava arma de fogo no momento da ocorrência.

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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