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Com eliminação da primeira colocada, licitação para Chamada Inteligente deve ter sobrepreço de R$ 16 milhões

Vencedora foi eliminada pelo presidente da Celepar, Gustavo Garbosa, por enquadramento irregular - situação ignorada pela companhia em outra concorrência

Com eliminação da primeira colocada, licitação para Chamada Inteligente deve ter sobrepreço de R$ 16 milhões
Chamada Inteligente está em 1,6 mil colégios da rede estadual. Foto: Lucas Fermin/SEED
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O Ministério Público do Paraná (MP-PR) está investigando uma suspeita de direcionamento e desrespeito à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) em duas licitações para o programa Chamada Inteligente, do governo de Ratinho Júnior (PSD). Em uma delas, a empresa vencedora foi desclassificada pelo presidente da Celepar (Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná), André Gustavo Souza Garbosa, o que poderá gerar um custo extra de R$ 16 milhões aos cofres públicos.

A licitação 107/2024 da Celepar prevê a contratação de serviços e equipamentos para escolas estaduais, em dois lotes. Em pregão realizado no dia 29 de janeiro deste ano, a vencedora dos dois lotes foi a empresa Planeje Tecnologia, nos valores de R$ 45 milhões para o lote 1 e de R$ 22.180.000 para o lote 2. Em segundo ficou a Head Net Tecnologia da Informação, com propostas de R$ 61 milhões e de R$ 22,2 milhões, respectivamente.

No dia 13 de março, a Head Net deu entrada em um recurso administrativo pedindo a desclassificação da Planeje, pois o cadastro da empresa no Banco do Brasil estaria desatualizado – ela estaria enquadrada como Empresa de Pequeno Porte (EPP), o que garante vantagens em concorrências públicas. Segundo a Head Net, a irregularidade violou os termos do edital e feriu a isonomia entre as participantes da licitação. 

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Em sua defesa, a Planeje argumentou que seu enquadramento “foi indicado automaticamente pelo próprio sistema Licitações-e, com base em registros cadastrais já existentes, e em nenhum momento a empresa teve a oportunidade de revisar ou selecionar manualmente este enquadramento durante sua participação na licitação”. A empresa afirmou ainda que o edital da licitação não exigia a atualização e que não se beneficiou da condição de EPP no processo licitatório.

No julgamento do caso, a coordenadora da disputa, Denice Sgarboza Maia, declassificou a Planeje apenas no lote 2. “O aproveitamento indevido do benefício foi verificado somente na disputa do lote 2, não atingindo o lote 1, razão que se mantém a declaração da vencedora Planeje Tecnologia e Serviços Ltda. para o lote 1, com a desclassificação da mesma no lote 2”, afirmou ela. A empresa teria se beneficiado da condição de EPP no lote 2, já que houve um empate.

Eliminação

No dia 19 de maio, o diretor-presidente da Celepar, André Gustavo Garbosa, eliminou a Planeje dos dois lotes. “A empresa Planeje Tecnologia e Serviços Ltda. declarou-se como Empresa de Pequeno Porte (EPP) para usufruir dos benefícios da Lei Complementar nº 123/2006 (como o direito ao empate ficto), mas não apresentou os documentos exigidos pelo edital”, afirmou Garbosa, que apontou ainda inconsistências graves em relação à qualificação técnica e qualificação técnico-financeira irregular da empresa.  

“Ainda que a Recorrida não obtivesse vantagem alguma em nenhum dos lotes, o que não ocorreu no presente caso, a postura da empresa não se mostrou transparente e colaborativa, atitudes esperadas de quem almeja uma relação contratual com este órgão”, afirmou Gustavo Garbosa.

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“Em relação ao Lote 1, ainda que não tenha se beneficiado pelo irregular enquadramento como EPP, a quebra da fidúcia, dada a postura que a empresa apresentou em todo o processo, trazem insegurança a Celepar, fato que macula uma pretensa relação comercial com a Companhia”, decidiu o presidente da Celepar. Com isso, a Head Net ficou em primeiro lugar na licitação, mesmo com uma oferta R$ 16 milhões superior à da concorrente.

Caso semelhante, decisão diferente

Gustavo Garbosa tomou uma decisão diferente em outra licitação, em que uma das participantes tinha seu cadastro desatualizado no Banco do Brasil. A concorrência foi aberta neste ano, para a aquisição de 760 vacinas contra a gripe. A primeira colocada venceu com uma proposta de R$ 66,50 por vacina e a segunda colocada propôs R$ 71 por dose. 

No dia 7 de abril, a segunda colocada deu entrada em um recurso administrativo, já que a vencedora não estava enquadrada coo EPP, apesar de ter se declarado como tal. “A partir da análise dos documentos apresentados pela empresa declarada vencedora, constata-se que a Vacivita não se encontra regularmente enquadrada como Empresa de Pequeno Porte (EPP), apesar de haver declarado tal condição como forma de habilitação no certame”, sustentou a segunda colocada no recurso.

Em 23 de abril, André Gustavo Garbosa manteve a primeira colocada. “Diante das razões expostas, conheço e nego provimento ao recurso interposto (...) e homologo o presente processo de licitação em conformidade com a ata do Coordenador de disputa e anuência do Diretor Administrativo-Financeiro e Jurídico”, afirmou o presidente da Celepar.

Procurada, a Celepar informou que não comenta apurações em andamento, que a companhia já apresentou os esclarecimentos e está à disposição dos órgãos de controle para qualquer outro esclarecimento.

Investigação

Na quinta-feira da semana passada (29 de maio), o promotor de Justiça Marcos José Porto Soares, da 3ª Promotoria de Justiça da Comarca de Campo Mourão, deu o prazo de 15 dias para André Gustavo Garbosa encaminhar ao MP-PR os documentos referentes às duas licitações, incluindo requisições de compra e orçamentos, para instruir a Notícia de Fato instaurada para apurar “Denúncia referente ao descumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e a indícios de direcionamento em processo licitatório conduzido pela Celepar, especificamente no caso da chamada inteligente".

A licitação 103/2024 trata do registro de preços para futura contratação de empresa fornecedora de câmeras para reconhecimento facial, manutenção e suporte técnico, entre outros serviços. 

No início de maio, Marcos José Porto Soares ajuizou uma ação civil pública por possível violação à LGPD por parte do governo do Paraná e da Celepar, Ele pediu a suspensão imediata da coleta de imagens no programa Chamada Inteligente e a aplicação de multa no valor de R$ 15 milhões, por danos morais coletivos. A Justiça negou os pedidos.

Chamada Inteligente

Em fevereiro deste ano, o governo do Paraná informou que 1,6 mil escolas do estado utilizam a Chamara Inteligente, uma sistema com reconhecimento facial. "Basta que o professor tire de uma a quatro fotos da turma para que o sistema reconheça os estudantes nas imagens e conceda a presença automaticamente. Tudo é feito por meio do aplicativo Escola Paraná Professores ou pelo Registro de Classe Online (acessado em um navegador de internet)", diz a matéria publicada na agência estadual de notícias. O sistema foi implantado em 2023. Segundo o governo, "as imagens são enviadas ao servidor da Celepar e criptografadas, seguindo a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD)".

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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