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"Achamos que ele falava por todos": como uma pesquisa da UFPR apagou minha trajetória no Plural

Pesquisadores da UFPR estudaram o Plural duas vezes sem me ouvir — mesmo sendo eu cofundadora do jornal. Sobre como apagar uma mulher de uma pesquisa não é descuido. É estrutura. E tem preço

"Achamos que ele falava por todos": como uma pesquisa da UFPR apagou minha trajetória no Plural
UFPR. Foto: Tami Taketani/Plural
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Desde que surgiu, em 2019, o Plural foi tema de inúmeros artigos e pesquisas científicas. O interesse é justificado, uma vez que se trata de um projeto bastante diferente dos veículos tradicionais e também dos institucionais. Portanto, não é de se estranhar que o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPR tenha se interessado pela gente.

Já em 2019, um grupo de pesquisadores do programa escreveu sobre nós dois artigos publicados no 17º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. Em 2021, o grupo voltou a publicar sobre nós, dessa vez no VIII Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.

Quem ler os trabalhos produzidos, porém, terá imensa dificuldade em descobrir que o Plural tem, entre seus fundadores, uma mulher. Também ficará sem saber que é de uma mulher toda a estratégia de dados, a estrutura tecnológica e parte do plano de negócios da empresa, muito embora os textos produzidos tenham a intenção de discutir o jornal, a linha editorial dele e sua estratégia de negócios.

Ao questionar a ausência do meu trabalho nas pesquisas, recebi como explicação que a equipe supôs que o sócio entrevistado "falasse por todos". A explicação, porém, não foi direcionada a mim, mas enviada ao meu sócio (e marido), para que ele a encaminhasse. Não mereci sequer uma resposta direta.

O que me faz escrever sobre isso é perceber como é fácil apagar o trabalho de alguém. Uma mulher. Que outras mulheres também foram silenciadas por suposições semelhantes? O que a academia está fazendo para impedir essa violência institucional de gênero?

É possível que os pesquisadores, assim como você, leitor, suponham que o problema está no sócio entrevistado. Que caberia a mim garantir que o Rogério Galindo, meu sócio e marido, obrigasse a pesquisa a me considerar como responsável pelo meu trabalho. Seria um problema doméstico, do casal.

Mas isso não é fazer com que eu — mulher — precise ter um homem me defendendo para que minha contribuição seja considerada pela academia? Veja bem: não fomos nós, do Plural, que procuramos os pesquisadores. Também não é nosso trabalho definir o escopo nem a metodologia de pesquisa deles. O nosso papel, de estar à disposição e informá-los sobre o funcionamento do jornal, cumprimos. Não era papel deles garantir que as informações apuradas fossem fidedignas?

Nós, mulheres jornalistas, já somos alvo preferencial de violência em nossa vida profissional. A própria Abraji apurou, em relatório de 2021, que houve um ataque a cada três dias contra jornalistas mulheres. Nosso trabalho é mais difícil, as reações a ele são mais virulentas e nossa remuneração é quase 6% inferior à dos homens.

Então, quando um pesquisador decide que 1) o homem fala pela mulher em um projeto de destaque e 2) a contribuição da mulher não merece ser citada, não se trata só de apagamento. É também uma violência — e tem desdobramentos profissionais e financeiros.

Quando uma pessoa, qualquer pessoa, tem seu trabalho mostrado em pesquisas, palestras e reportagens, isso valida e respalda sua atuação profissional. No longo prazo, resulta em reconhecimento, oportunidades e, no limite, maior remuneração. (Tá aí, aliás, um bom tema a ser investigado pela academia.)

Por outro lado, deixar essa mesma pessoa de fora dos contextos em que o trabalho é citado é impedi-la de usufruir dos benefícios de vê-lo reconhecido.

Que o Plural é um trabalho relevante, não há dúvida — afinal, a mesma equipe de pesquisadores esteve novamente no jornal há uma semana, para coletar mais informações para novos artigos. Mas voltou a solicitar apenas a contribuição de um dos três sócios, o Rogério, muito embora tenha sido informada de que um dos temas da conversa — o Programa Autores Parceiros — foi criado e é coordenado por mim.

A essa altura, há pouco o que fazer para reverter o dano causado. No entanto aqui estou eu bancando a mulher-chata-que-reclama. Escrevo este texto como mulher e como mãe de duas meninas — e escrevo porque me recuso a tratar como detalhe o que é, na prática, estrutura. Quero que esse relato sirva para que outras mulheres não tenham seu trabalho apagado, para que as estudantes que hoje se formam jornalistas e pesquisadoras não vejam seus professores descartar, com tanta naturalidade, a contribuição de uma colega mulher.

Apagar uma mulher de uma pesquisa parece um gesto pequeno, uma bobagem. Não é. É um tijolo a mais no muro que a gente vem tentando derrubar há décadas — e que eu não quero deixar de herança para as minhas filhas.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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Tags: Artigos UFPR

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