[spreaker type=player resource="show_id=3311470" width="100%" height="200px" theme="light" playlist="false" playlist-continuous="false" autoplay="false" live-autoplay="false" chapters-image="true" episode-image-position="right" hide-logo="false" hide-likes="false" hide-comments="false" hide-sharing="false" hide-download="true" ]
Em 1957, a pensadora alemã Hannah Arendt,exilada nos EUA, publicou um artigofalando sobre a Educação e a sua crise. Para ela, "uma crise só se torna um desastre quando respondemos a elacom preconceitos. Uma atitude dessas não apenas aguça a crise como nos priva daexperiência da realidade e da oportunidade por elaproporcionada à reflexão.” Ou seja, a crise é também uma oportunidade. Mas umaoportunidade que normalmente é perdida por conta do acirramento dos espíritos.Mas a filósofa - ah, os filósofos! - buscou entender e explicar. E hoje, emmeio às nossas próprias crises, ainda podemos ouvi-la.
Para Hannah Arendt, a essência da Educação é a natalidade, o fato de que seres nascem para o mundo. E por isso é preciso orientá-los sobre o mundo e protegê-los do mundo.
Uma das urgências da Educação, portanto, é a formação dos professores. Não basta que eles saibam conteúdos, mas que se disponham a se responsabilizar por essa apresentação do mundo às crianças. As crianças não devem ser excluídas do mundo dos adultos, mas preparadas para ingressarem nele com a consciência de que o mundo é frágil e, ao mesmo tempo, perigoso. O mundo, igualmente, precisa constantemente ser mudado - e por isso o novo é tão importante - mas também precisa ser preservado - e por isso o novo é tão ameaçador.
Normalmente a criança é introduzida ao mundo pela primeira vez através da escola. No entanto, a escola não é de modo algum o mundo, e não deve fingir sê-lo; ela é, em vezdisso, a instituição que interpomos entre o domínio privado do lar e o mundocom o objetivo de fazer com que seja possível a transição, de alguma forma, da família para o mundo. Namedida em que a criança não tem familiaridade com o mundo, deve-seintroduzi-la, aos poucos a ele; na medida em que ela é nova, deve-se cuidar para que essa coisa nova frua omundo sem destrui-lo e sem correr o risco de se destruir. E essaresponsabilidade pelo mundo, que na escola é papel do professor, assume a forma de autoridade, que é diferente da ideia simples de qualificação .
A qualificação do professor consiste em conhecer o mundoe ser capaz de instruir os outros acerca deste, porém sua autoridade se assenta na responsabilidade queele assume por este mundo. Face à criança, é como se ele fosse um representante de todos oshabitantes adultos, apontando os detalhes e dizendo: Isso é o nosso mundo!
Hannah Arendt é enfática: "Qualquerpessoa que se recuse a assumir a responsabilidade coletiva pelo mundo nãodeveria ter crianças, e é preciso proibi-lasde tomar parte em sua educação.”
E onde há a crise da Educação? No fato de quemuitos adultos se recusam a assumir a responsabilidade pelo mundo perante ascrianças.
Para a filósofa, o que vem acontecendo é oseguinte: é como se os pais eprofessores dissessem todos os dias para as crianças: “Nesse mundo, mesmo nós não estamos muito a salvo em casa; como semovimentar nele, o que saber, quais habilidades dominar, tudo isso também são mistérios paranós. Vocêsdevem tentar entender isso do jeito que puderem: em todo caso, não têm o direito de exigir satisfações. Somo inocentes,lavamos as nossas mãos por vocês.” Essa é a crise da Educação. E ela põe emrisco o mundo. E todos os que vêm para o mundo.
Essa crise é, também, uma crise da tradição.Para os gregos e romanos, educar era simplesmente fazer ver que somos dignos denossos antepassados. Neste sentido, o educador não é só detentorde autoridade, mas é,também, companheiro da mesma viagem de se fazermerecedor de um passado do mundo comum, herança para os vivos. Porém, com a quebra da tradição, só resta ir para frente, pois voltar para trás só nos levará até omomento da ruptura, em um looping sem saída. Ou então nos resta acreditar,cinicamente, que a crise nunca atingirá nossa esfera particular de vida. O que é mais provável, porém, é que essaruptura com a tradição de cuidar do mundo e mediar o que temos com as novasideias, só pode aumentar oestranhamento do mundo pelo qual já somos ameaçados por todos os lados.
Hannah Arendt conclui: Não se pode educar sem ao mesmo tempo ensinar; uma educação semaprendizagem é vazia e portanto degenera, com muita facilidade, emretórica moral e emocional. É muito fácil, porém, ensinar sem educar, e pode-se aprender durante odia todo sem por isso ser educado.
A Educação é onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para nãoexpulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos aoportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum, dos queestão aqui e de todos os que virão.
Muitos poderiam dizer: "Ah, isso nós jásabemos! Qual é a novidade? "
Aí que está, eu diria: não há novidade. Detudo já sabemos. Mas, como disse o poeta, agora só nos resta aprender.