Do subsolo de um prédio, no Centro deCuritiba, veio à tona dias atrás uma informação cinematográfica (e ao mesmotempo um respiro do noticiário tenebroso sobre a pandemia): partes da calçadada fama do extinto Cine Vitória ainda existem e estão guardadas no lugar ondefoi a sala de cinema até 1987 e hoje é uma sede da Universidade Estadual doParaná (Unespar).
A informação, compartilhada pelo cineasta Fernando Severo no Facebook, partiu da historiadora Ana Paula Peters, durante a aula inaugural do mestrado em cinema e artes do vídeo, no último dia 10. Peters é diretora da Cultura da Unespar, universidade criada em 2013 a partir da união de sete faculdades paranaenses, incluindo a Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap) e a Faculdade de Artes do Paraná (FAP). “Fim de um mistério!”, disse Severo no post que teve muitas reações, comentários e compartilhamentos.
Quem ministrou a aula inaugural foi o professor João Luiz Vieira, da Universidade Federal Fluminense. Peters conta que ela e o pró-reitor de Extensão e Cultura da Unespar, Eloi Magalhães, depois da palestra, sabendo do interesse de Vieira sobre cinemas de rua, convidaram o professor para conhecer o antigo Cine Vitória, hoje um auditório da Unespar, mas com a mesma estrutura de antes, incluindo tela, palco e poltronas.
O passeio, realizado na manhã do diaseguinte, incluiu uma visita à casa das máquinas, embaixo do auditório doantigo cinema. Nesse espaço com tubulações aparentes e relógios medidores,paredes e chão de concreto nu, o grupo de visitantes pôde ver uma relíquia deCuritiba: fragmentos da calçada da fama do Cine Vitória, uma sala famosa pelas projeçõesde alta qualidade. “Era um dos poucos [cinemas] que fazia projeções em 70 mm, amelhor bitola existente, numa tela enorme e com som estereofônico perfeito”,explica Severo, numa conversa com o Plural. “Assistir ao ‘2001’ [de StanleyKubrick] lá foi uma das experiências sensoriais mais deslumbrantes da minhavida de cinéfilo.”
Para ter uma ideia da diferença, tenha emmente que os filmes exibidos hoje pelos cinemas são em formato digital e 35 mm,metade da bitola do 70 mm, o que implica em qualidade inferior de imagem.Quando Quentin Tarantino fez questão de produzir “Os Oito Odiados” em 70 mm, em2016, não havia mais nenhum cinema no Brasil que pudesse lidar com o formato.Nos Estados Unidos, apenas 96 salas (de um universo de quase 40 mil)conseguiram exibir o filme da forma que o diretor queria.
Severo fez parte do grupo foi até a Unespar namanhã do dia 11. Peters leu um postque o cineasta tinha feito, tempos atrás, perguntando sobre o paradeiro dacalçada. Depois de sair do Cine Vitória, os blocos de concreto foram levadospara a lateral do Teatro Guaíra e, mais tarde, removidos para a instalação deuma central de ar condicionado. Desde então, ninguém sabia dizer o que tinhaacontecido com a calçada da fama.

Tribunascope
Nos anos 1960, o jornal “Tribuna do Paraná” criou a premiação Tribunascope, uma espécie de Oscar curitibano (as ambições eram grandes naquela época) que teve edições realizadas primeiro no Cine Ópera e, depois, no Cine Vitória. A exemplo do primo rico, o Tribunascope premiava os melhores filmes, atores e atrizes do ano, usando como base as produções que passavam pelo circuito de Curitiba.
Um grupo de pessoas influentes que incluíaJoão Feder, fundador da “Tribuna”, o jornalista Henrique Lemanski e seu contato,Harry Stone, espécie de embaixador da Motion Picture Association (MPA) noBrasil, conseguiu colocar em pé uma edição do Tribunascope que marcou a vida dacidade como as outras edições não conseguiram.
(A história foi contada por Aramis Millarchem um texto publicado pelo “Estado do Paraná” em 3 de março de 1991.)
(Quando Stone se aposentou, em 1995, ojornalista Sérgio Dávila publicou uma entrevista extensa com ele na “Folha deS.Paulo”. Foi quando o americano admitiu ser um lobista de Hollywood na AméricaLatina. Stone morreu no ano 2000.)

Usando sua influência, Stone conseguiuencaixar Curitiba na agenda de dois astros emblemáticos dos anos 1960: AnthonyPerkins (1932-1992) e Janet Leigh (1927-2004), que viajaram para o festival deMar del Plata, na Argentina. O par havia acabado de trabalhar em “Psicose”(1960), de Alfred Hitchcock: ele, no papel de Norman Bates e ela, no de MarionCrane (assassinada na cena do chuveiro).
Logo depois do Hitchcock, Perkins fez “Oprocesso” (1962), de Orson Welles, inspirado no livro de Kafka. E Janet Leighfoi trabalhar ao lado de Frank Sinatra no filme “Sob o domínio do mal” (1962),de John Frankenheimer.

Essas referências mostram que ambos eram do primeirotime de Hollywood. Então a vinda deles para Curitiba não era pouca coisa. Naconversa com Fernando Severo, pedi para ele fazer uma comparação: qual seria oequivalente de hoje a receber Leigh e Perkins na cidade? “Robert Pattinson eKristen Stewart”, respondeu o cineasta, citando o ator e a atriz que fizeramfama com a cinessérie “Crepúsculo” (2008) para depois seguir carreira trabalhandoem filmes alternativos dirigidos por David Cronenberg e Olivier Assayas.(Stewart trabalhou também com o brasileiro Walter Salles na adaptação de “Onthe road”, de Jack Kerouac, para o cinema.)
Episódio querido
Pois na noite do 13 de abril de 1964, o CineVitória, logo ali, perto da rua Pedro Ivo, a duas quadras do TerminalGuadalupe, recebeu Janet Leigh e Tony Perkins. E Karl Malden (1912-2009), umcoadjuvante respeitadíssimo, com um nariz indefectível, que trabalhou ao ladode Marlon Brando em “Sindicato de Ladroes” (1954). E também Jece Valadão(1930-2006), um dos principais atores do cinema brasileiro de antanho.
Para marcar a data, todos deixaram impressõesde suas mãos e assinaturas no cimento do Cine Vitória. Assim Curitiba ganhousua própria calçada da fama – não tão grande quanto a do Hollywood Boulevard, commais de 2,6 mil estrelas, mas ainda assim um episódio notável da histórialocal, e querido por um monte de gente.
Depois que o Cine Vitória fechou, em 28 dejaneiro de 1987 – Severo conta que foi o último espectador a sair da derradeirasessão do cinema, e o filme era “Gandhi” –, o prédio foi vendido para aadministração pública, deu origem a um Centro de Convenções e a calçada foi parar na lateraldo Teatro Guaíra, depois removida de lá em meados dos anos 1990 por causa de umar-condicionado, e depois sumiu de vista, para ser redescoberta recentementepelos professores da Unespar.

Além de Ana Paula Peters, Eloi Magalhães, João Luiz Vieira e Fernando Severo, o grupo reunido para visitar o antigo Cine Vitória tinha também o professor Eduardo Baggio, coordenador do mestrado em cinema, e profissionais do Museu da Imagem e do Som, incluindo Cristiane Senn, diretora do MIS-PR. Além de visitar o antigo Cine Vitória, o grupo atravessou a rua para ir ao MIS e ver uma série de imagens sobre o Tribunascope.
Diante da calçada da fama, Vieira comparou aexperiência a uma descoberta arqueológica. Foi como entrar “na tumba de umfaraó”, brincou Severo, no relato que publicou no Facebook.

Cimento fresco
Os fragmentos da calçada parecem estar em bomestado, sobre um suporte junto à parede da casa de máquinas, no antigo CineVitória. Alguns estão dispostos como se fossem um quebra-cabeça de pedra. Asassinaturas não são bem assinaturas, mas o que os atores conseguiram fazersobre o cimento fresco. As letras são toscas, quase infantis. Na laje quebradade Janet Leigh, resta só um “NET LEIGH” – porque o “JA” se foi. A de TonyPerkins está quase inteira, com o “S” final rachado ao meio. A melhorassinatura – e também a que está em melhor estado – é a de Karl Malden, que deuum jeito de escapar das letras de forma.

Por hora, a calçada da fama permaneceguardada na Unespar, mas uma exposição deve ser organizada ainda neste ano,para mostrar ao público as relíquias do Cine Vitória e as histórias em tornodelas.