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Três faces do silêncio

A noite do Hauer Shopping ao ligeirinho em que ninguém fala nada, por Ana Justi

Por Admin
Três faces do silêncio
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Ao contrário dos pontos de ônibus dispersos pela Avenida do Batel, a calçada do Shopping Hauer fervilha com ocupantes. A paisagem é preenchida por corpos jovens e copos plásticos. A fumaça dos cigarros sobe e se mistura à massa de ruídos da multidão: o zunido das conversas e a música alta dos bares enfileirados ao longo da Coronel Dulcídio.

Em busca de uma janta rápida edescomplicada, evito vasculhar o mar de rostos – encontrar qualquer meioconhecido me obrigaria a um contato social que não almejo. Encostada em um dospilares que sustentam a fachada externa do Hauer, saio do fluxo frenético deseus frequentadores. Em silêncio, os olhos e os ouvidos são inundados porconversas e ações que não as minhas. Absorvo cada aspecto como se flutuasse emmeio ao movimento contínuo das ondas do mar, tomada pelo sentimento extraordináriode ser apenas mais uma gota no oceano.

Saciada, caminho até a VicenteMachado – as luzes brancas e a fachada vermelha marcam a conveniência do postode gasolina, e o fim da minha busca por cigarros. Enquanto repasso meu pedidoao homem uniformizado atrás do balcão, uma dupla de mulheres adentra o recinto.Os saltos altos e os vestidos festivos denunciam que a quinta-feira será defestejos. Enquanto o atendente seleciona randomicamente a cor do meu próximoisqueiro, o par pede licença: “Estamos sendo seguidas, vamos ficar um poucoaqui”, informam de braços dados, olhando furtivamente para o pátio externo doposto. O homem não faz perguntas, permanece imóvel atrás do balcão.

Vou até o pátio e, lentamente, começoo processo de desembalar o maço: puxo a fina película plástica que envolve acaixa, desgrudo a parte superior do selo do IPI, levanto a capa que funcionacomo tampa e, por fim, arranco a camada de papel que envolve as porções detabaco. Levo um deles aos lábios, enquanto manuseio o isqueiro com a mãodireita. A ponta queima por igual. Qualquer que fosse a ameaça, deve terseguido seu caminho.

O sabor do cigarro se mistura ao dochope fresco, ainda na minha saliva. Deixo para trás os poucos seres que aindase aventuram pelas calçadas da Vicente, e procuro abrigo entre os prédios altosda Brigadeiro Franco. Passaram-se poucos minutos das 23h quando a tranquilidadedo céu noturno é interrompida. Dois carros pretos usam o semáforo do cruzamentocom a Professor Fernando Moreira como bandeirada inicial de um racha. As luzestraseiras se perdem ao longo da subida até a Manoel Ribas, enquanto olhos inquietosapenas acompanham o movimento.

Já no tubo, conto um amontoado dequinze silenciosos ocupantes, um número razoavelmente excepcional para ohorário. A maior parte dos corpos se dirige ao interior do primeiro ligeirinhoque chega à plataforma. Um persistente vendedor de balas segue o fluxo dosusuários do sistema de transporte público de Curitiba. Sem fazer ruídos, ohomem se senta nas fileiras iniciais, logo atrás do motorista. Já avançamosalguns metros quando ele finalmente começa o ato: se levanta e projeta, com aboca meio mole, um sonoro “Fala galera”. Silêncio. A segunda tentativa seriadigna de um apresentador de programa de auditório, não fosse – novamente – aausência de resposta. Ele recolhe o que ainda restou do seu pouco carisma, e voltaa se sentar – as costas curvadas, o rosto entre raiva e frustração. Encara omotorista pelo retrovisor e declara, irritado: “Curitiba é isso aí, não passadisso aí”.

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