Com a alta de casos e mortes por Covid-19 em Curitiba, a farmácia Nissei resolveu destacar em suas prateleiras um medicamento que oferece “tratamento precoce comprovado” para a doença. O problema é que não há nenhum estudo científico que comprove tratamento, muito menos precoce, contra coronavírus.
O medicamento em questão é a Nitazoxanida (conhecida comercialmente como Annita), um vermífugo, usado contra parasitoses intestinais – como a já famosa Ivermectina, também sem efeitos comprovados para o vírus. Quem fotografou a propaganda na farmácia foi um médico. “Cada vez é mais complicado para nós, no dia a dia, explicar que estes medicamentos ou o "tratamento precoce" não tem qualquer comprovação ou indicação. Sei que tem muitos colegas que também acabam prescrevendo e politizando a situação, mas uma farmácia que atende todo tipo de público, leigo principalmente, colocar isso exatamente na frente da fila dos medicamentos, é um absurdo completo”, diz ele, que prefere não se identificar.
O cardiologista Gustavo Lenci Marques, doutor em Medicina Interna e professor da UFPR e da PUC/PR, explica que nunca se deve estimular a automedicação pois a prescrição deve vir sempre de um médico. Ele confirma que não há comprovação científica sobre a atuação da Nitazoxanida contra a Covid-19.
“O único estudo com este medicamento é bem pequeno, brasileiro, mas o objetivo primário do trabalho não foi alcançado, está longe de ser um estudo que comprovou alguma coisa. As principais referências mundiais, como o Up To Date, não falam deste medicamento, que também não é recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) nem pela Sociedade Brasileira de Infectologia”, reforça Marques.
Ainda assim, o remédio está exposto como “tratamento precoce comprovado”, com destaque, na farmácia Nissei da rua Marechal Deodoro, no Alto da XV. “Recebi relatos desta propaganda em várias outras farmácias da rede. Este um remédio que serve pra tratar vermes e parasitoses intestinais. Apesar de ter pouco efeito colateral, só o fato de existir esta possibilidade já é um grande dano. Isso pode trazer uma falsa impressão de que a pessoa, tomando ele, estaria segura”, ressalta o professor. Ele tem um canal no Youtube chamado ‘Café com Medicina’, no qual traz informações técnicas e científicas sobre saúde, de forma simples e descomplicada.
Regulamentação
De acordo com a regulamentação de propaganda de medicamentos (RDC 96, de 2008), a divulgação de remédios deve servir como instrumento de veiculação de informações importantes, auxiliando na prescrição, dispensação e no uso correto com base nos requisitos da OMS e no consumo racional pela população. "Portanto, as informações devem ser comprovadas cientificamente", diz a resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
"Além disso, as informações referentes à ação do medicamento, indicações, posologia, modo de usar, reações adversas, eficácia, segurança, qualidade e demais características do medicamento devem ser compatíveis com as informações registradas na Anvisa, ainda que existam estudos que tragam informações diferentes."
A lei brasileira não permite a exposição do efeito terapêutico de nenhum medicamento sob prescrição médica, mesmo que comprovada sua ação, pois isso pode estimular a automedicação.
Nissei
Procurada pelo Plural, a rede de farmácias Nissei disse que já retirou de suas prateleiras a propaganda.
A farmácia explica que a régua de prateleira demonstrada não faz parte da publicidade da rede, inclusive possui características gráficas distintas, e não reflete o posicionamento da empresa, que respeita todas as normas e legislações nacionais. A farmácia já retirou o material publicitário da loja e está rastreando a origem. A rede informa ainda estar orientando, novamente, os colaboradores de todas as lojas a respeito da exposição de publicidade não oficinal.