O assentamento Contestado, localizado no município da Lapa (PR), sediou na última sexta feira (19). A atividade de campo é parte da programação da 23ª Jornada de Agroecologia do Paraná, que acontece entre os dias 18 e 21 de junho, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), campus Politécnico. Com o tema “Ferramentas para a massificação da agroecologia”, o encontro reuniu agricultores, cientistas e militantes para debater como as inovações tecnológicas podem apoiar a produção de alimentos saudáveis em larga escala.
O economista e dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) João Pedro Stedile destacou que a agricultura deve ser fundada na defesa da natureza e na saúde humana. Ele explicou que a inteligência artificial pode facilitar o trabalho no campo ao organizar o conhecimento científico de forma rápida. “A inteligência artificial tem essa capacidade tecnológica de reunir muita informação e em um segundo te passa aquilo que tu perdia tempo pesquisando”, disse o economista, destacando os desafios na empreitada.
“O fundamental é como você vai montar a biblioteca de conhecimento científico para que a inteligência te dê a resposta certa. Se tu entrar hoje no Google e pedir para a inteligência artificial o que eu aplico para uma praga que está atacando o meu milho, ela vai te dar como receita um agrotóxico da Bayer. Mas na nossa base de dados, ela vai dar como resposta: use esta metodologia, combata as pragas com defensivos biológicos, entre outras orientações”, apontou.
Durante a atividade, Nathália Lobo, militante da Marcha Mundial de Mulheres (MMM), ressaltou que o povo deve ser o protagonista dessas criações para que elas atendam aos interesses dos trabalhadores. Para ela, a tecnologia não é neutra e precisa refletir a visão política dos produtores.
“As tecnologias sempre têm lado a depender de quem estiver dominando o desenvolvimento delas. Por isso que a gente criou a Iaraa, o MST, a marcha e com apoio da Baobá, para desenvolvermos uma tecnologia a partir da nossa compreensão da agroecologia e a partir do nosso povo, para que ela realmente tivesse a nossa visão de agroecologia e servisse à nossa agenda política”, disse a ativista, mancionando a Iaraa - Inteligência Artificial para a Reforma Agrária e Agroecologia - criada pelos movimentos populares para apoiar no processo de massificação da agroecologia.
“A Iaraa é uma ferramenta muito pequena. A gente acha que para as tecnologias de fato apoiarem a massificação da agroecologia, a gente também precisa ter mais capacidade, apoio público e um estado que invista em ciência, tecnologia e que coloque o povo como sujeito da tecnologia para termos mais experiências como a Iara pipocando em vários lugares. A gente acredita que assim, com o povo no comando da tecnologia, a gente pode pensar em muitas formas de elas apoiarem a massificação da agroecologia”, agregou.
Além da inteligência artificial, o uso de bioinsumos foi um dos temas centrais apresentados nas estações técnicas durante a tarde. Jocinei Gonçalves de Lima, da coordenação de bioinsumos, explicou que esses produtos são fundamentais para substituir químicos de forma eficiente e com baixo custo. De acordo com ele, “bioinsumos são uma ferramenta estratégica por diversos fatores”, permitindo que a agricultura camponesa acesse recursos naturais brasileiros e garanta a soberania do povo.
Segundo o dirigente do assentamento Contestado, é preciso um maior esforço para garantir as ferramentas para essa massificação da agroecologia e para esse impacto na matriz de produção. “É preciso sairmos de 5% ou 10% e chegar a 50%, 70% ou 80% de alimentos produzidos sob uma matriz sustentável, a matriz da agroecologia”, afirmou.
“Esse tipo de atividade materializa parte dessas ações. Aqui temos uma amostra do que o Movimento Sem Terra tem feito, mas também das parcerias da agroecologia e de ações concretas que resultam na possibilidade de escalar a produção de alimentos saudáveis. Por isso que é tão importante estar em espaços como esse, porque a jornada está na 23ª edição, é um evento super importante para os camponeses e para os produtores aqui do estado. Vir e dialogar com essas pessoas também faz parte desse trabalho”, completou o assentado.
O assentamento Contestado, que abriga 190 famílias e possui uma estrutura consolidada com escola e cooperativa, acabou se tornando uma das principais referências em todo o país da produção agroecológica de alimentos, garantindo o fornecimento de produtos saudáveis a 120 escolas públicas de ensino médio da região.
Agroecologia é o caminho
A 23ª Jornada de Agroecologia teve início oficial na última quinta-feira, 18 de junho, no Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba. O evento gratuito apresenta a agroecologia como um projeto estratégico de luta e resistência para a construção de um modelo de agricultura que respeita a natureza, os povos e seus territórios.
A programação do evento segue até o próximo domingo, 21 de junho. O público pode participar de mais de 30 seminários e oficinas, além de conferir cerca de dez atrações culturais e a Feira da Agrobiodiversidade, onde o público pode adquirir produtos de cooperativas da reforma agrária de diversos estados, oferecendo hortifruti orgânicos, sementes crioulas e artesanatos. Na Culinária da Terra, os visitantes podem provar diversos pratos típicos da cultura camponesa brasileira.
A 23ª Jornada de Agroecologia é realizada pela Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária com patrocínio do governo federal e de instituições como a Itaipu Binacional e a Fundação Banco do Brasil.