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“Sobre os canibais” acaba com o abismo entre a língua falada e a escrita

Caetano W. Galindo dá voz a personagens autênticos e presta atenção nas pequenas coisas que fazem diferença

Por Admin
“Sobre os canibais” acaba com o abismo entre a língua falada e a escrita
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“Sobre os canibais”, a antologia de contos docuritibano Caetano Waldrigues Galindo, publicada há pouco pela Companhia dasLetras, é um livro bem importante. Pelo que se propõe a fazer e pelo que consegueexecutar. Vou tentar explicar por quê.

Galindo é mais conhecido como tradutor. Ele ganhouprêmios com sua versão de “Ulysses”, de James Joyce, e encarou autoresbarra-pesada de traduzir como Thomas Pynchon e David Foster Wallace; além de, maisrecentemente, chamar atenção por colocar em português “O apanhador no campo decenteio” e outros títulos de J. D. Salinger para editora Todavia.

Em 2018, Galindo deu uma entrevista para a escritoraCarol Bensimon. A certa altura da conversa, os dois abordaram um grandeproblema da literatura brasileira: a dificuldade de se construir diálogosverossímeis. Um problema que vai das telenovelas da Globo a autores derespeito. Uma frase de Galindo resume bem o imbróglio: “A gente escreve coisasque quase ninguém fala. E a gente fala coisas que quase nunca se escrevem”.

É o que ele define como um “abismo virtualmente sem par(no panorama das grandes línguas de cultura) entre a norma escolar e a normaefetivamente empregada mesmo pela população bem educada, mesmo em situação deformalidade”.

No papel de tradutor, ele enfrentou esse problema comcoragem e criatividade. Agora, como escritor, sem ter de respeitar os limitesimpostos por um texto original, ele consegue (na minha opinião) acabar com o tal“abismo sem par”. É uma façanha.

O homem tem um ouvido impressionante – talvez por sertambém músico? – e o talento de recriar na forma de texto a maneira que algumaspessoas têm de falar. Algumas pessoas bem curitibanas.

“Sobre os canibais” é uma antologia com 42 contos.Alguns fazem pensar, naturalmente, em autores queridos e traduzidos por Galindo.Afinal, quando traduz um livro de Wallace, por exemplo, trata-se de um livro deDavid Foster Wallace escrito por Caetano Waldrigues Galindo (mais ou menos comoum pianista interpretando uma obra de Beethoven – o texto original funcionacomo uma partitura e dois tradutores podem entregar versões muito diferentes deum mesmo original – uma ideia defendida por Galindo, inclusive  como professor de Letras na UniversidadeFederal do Paraná).

Os cinco contos intitulados “Bienal (S. Med. pat.req.)” descrevem obras de arte e parecem um aceno para Foster Wallace. O mesmovale para os sete fragmentos publicados sob o título “Juvenal (in memoriam)”. Sãotextos que descrevem cenas breves ou pequenos momentos, como se fossem a funçãostories do Instagram.

Na verdade, a capacidade de Galindo de criar vozes eos efeitos de determinadas prosódias, das maneiras de falar, é genial. (Ele foimeu professor e é meu amigo, mas quase nunca tenho chance de dizer elogiosdesse tipo.) Fazer os personagens falarem parece ser a ferramenta que ele maisgosta de usar como escritor. Como no conto que abre o livro, “Ela”:

Não, aí agente lá na loja e eu, Mô, e esse aqui? Porque já tava difícil, e eu sozinha enego ali necas, sabe. Pô. Desinteressado mesmo. Total. E eu cansada de carregaro sujeito nas costas, sabe? Aí eu, Mô, e esse aqui? E ele, Meio demais, né…? Cême acredita numa coisa dessa? “Me-io-de-mais”…! Aí eu pum: Como assim “meiodemais”?

Quando você, a depender de sua experiência comoleitora ou leitor, supera o estranhamento inicial – porque esse efeito deoralidade praticamente não existe na literatura nacional –, é surpreendentenotar como as personagens falam. Esaltam das páginas. No conto “Ele”, o narrador diz como foi ver uma meninalinda no shopping (devem ser curitibanos, porque curtem um shopping):

Mas mesmoassim, meu. Uns puta peitão assim de babar mesmo. Numa daquelas blusinhajustinha que elas usam sabe? Dava pra ver uns pedacinho da alça do sutiã etudo. Uma blusinha bem degotadinha que mostrava di-rei-ti-nho aqueles peitãoque parecia que queriam pedir pra sair dali direto.

Note o plural peculiar em “aqueles peitão” (bem comose fala, ao menos em Curitiba) ou o pronome pessoal usado de um jeito peculiar em“cê me acredita numa coisa dessa?”.

Em outros contos, a força é da história e do desfecho que chega numa velocidade atordoante. É o caso de “Livre-arbítrio”, sobre uma menina que pensa em se matar saltando de uma ponte. (Uma lição sobre como não temos controle sobre as coisas da vida, nem quando a gente acha que tem.)

Vou citar só mais três.

“Pentimenti” trata do ritual de lavar a louça de umjeito absolutamente genial (e obsessivo).

“Sozinho” descreve o que ocorre com um corpo quemorre. “Os olhos tendem a afundar nas órbitas. É parte do mesmo processo deressecamento do cadáver, ou desidratação, que explica a retração percebida naspontas dos dedos e o couro cabeludo, responsável pela (ilusória) noção de quecabelos e unhas continuam a crescer”, diz o narrador.

“Tudo ou nada” mostra os aniversários que um filho passou com a mãe. Começa quando ele tem 11 anos e ela, 35. E termina quando ele completa 39 anos. Essa história é sobre ser mãe (ou pai) e ter filhos. Sobre sacrifícios que não são bem sacrifícios. E sobre pequenas coisas que não são nada demais e também são tudo (o que funciona como uma boa síntese do livro inteiro).

Serviço

“Sobre os canibais”, de Caetano W. Galindo. Companhiada Letras, 200 páginas, R$ 69,90.

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Tags: paraná

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