Aconteceu pela primeira vez há muito tempo, quando o heroico Teseu, depois de derrotar o Minotauro em uma sangrenta batalha, ainda assim se viu perdido naquele labirinto. Ele olhou para o novelo de lã em sua mão e se lembrou do conselho que recebera de Ariadne:
– Segue o fio.
A voz da bela filha do rei de Creta ecoou pelo Mundo Antigo, ricocheteou através dos tempos, ribombou como um trovão cortando a tempestade da Quarta Revolução Industrial – e foi dar no Twitter. Nos últimos tempos, não sei se você tem reparado, andamos seguindo muitos fios por lá, naquela insuspeita rede social, amplas explicações sobre a vida, o universo e tudo mais. Ao contrário de Teseu, no entanto, que escapou do labirinto e, ingrato e meio cafajeste, abandonou Ariadne em uma ilha, eu no geral acabo dando com a cabeça na parede.
No domingo, quando Cabul foi tomada pelos fundamentalistas do Talibã, e afegãos disputavam no tapa espaço em aviões pra fugir do horror, eu tinha meadas e mais meadas diante de mim, dispostas na tela do notebook, fios e mais fios que se ofereciam para me conduzir à “verdade”, me arrancar da confusão escura da minha própria estupidez.
Agarrei um deles.
Mal tinha dado três passos segurando aquela tênue linha de sabedoria e um desses jornalistas famosões – o homem que tecia os fios – já me levava até a saída daquele cipoal, a luz de seu postulado brilhando intensamente contra meus olhos que piscavam, assombrados. De acordo com ele, “o fundamentalismo islâmico é neoliberal”. E isso meio que encerrava o assunto.
Protegi os olhos, dei alguns passos pra trás e, prudentemente, voltei pra dentro do labirinto, antes que acabasse perdendo a visão diante daquela explosão de sapiência.
Mais uma zanzada por ali, peguei outro fio, indo em outra direção, que agora me assegurava que o triunfo do Talibã era uma “enorme vitória popular contra uma intervenção imperialista genocida”. E se eu porventura discordasse, o problema era exclusivamente meu, um brucutu incapaz de compreender o “pensamento dialético”.
Não sou nenhum especialista em Afeganistão – minha única especialidade é fazer arroz bem soltinho –, mas me pareceu um pouco arrogante.
Dias antes, quando dois atletas do salto em altura decidiram dividir a medalha de ouro nas Olimpíadas, os inúmeros “fios” logo transformaram isso em uma “potente” mensagem de esperança e paz para o mundo, uma mostra do espírito de fraternidade e de solidariedade entre os homens. Àquela altura, talvez ninguém ainda soubesse que os dois saltadores eram amigos pessoais, e que é perfeitamente possível ver a coisa como apenas mais um arranjo entre colegas.
Pouco importa. Quem tece um fio, jamais abre mão da convicção, do tom professoral, do dedo em riste de bedel. É ele – e apenas ele – que possui o puro e inalcançável cristal da verdade. Quem tece um fio está sempre dando uma “aula”, “dizendo tudo”, explicando a vida tintim por tintim, afinal, é “simples assim”. Quem tece um fio é alguém, acima de tudo, muito “necessário”. Ele apenas “espera ter ajudado”.
É difícil escapar. Os fios podem te perseguir, como se fossem operados remotamente, ansiosos por compartilhar com você seu conhecimento consolidado, inalterável, sólido como a visão de um cavalo usando antolhos. Você pode dedicar o resto dos seus dias a silenciar ou bloquear os homens que tecem os fios, mas eles são incontáveis como os cabelos de uma cabeça. Aparecerão de novo e de novo, e aparecerão em dobro, como se você cortasse as cabeças da Hidra de Lerna.
Por quê?, eu me pergunto, enquanto leio um fio que me explica como alguém que ganha R$ 20 mil por mês na verdade é tão pobre como um pobre-diabo que se arrasta pelas ruas recolhendo material reciclável – afinal, ambos fazem parte da “classe trabalhadora”.
Por quê?
É um mistério. E dele só sabem aqueles que tecem os fios.