O estudante de mestrado em história Adrien Vannier tem uma grande paixão que vai além dos livros sobre relações internacionais e América Latina: ele descobriu que ama o mundo da moda. Em meio ao período mais árido de sua pesquisa sobre a história de usinas nucleares francesas, ele criou uma associação voltada para a recuperação de roupas e realização de desfiles, reabilitando artigos de segunda-mão como forma de despertar a atenção de seus colegas e professores para a necessidade de consumir de forma sustentável, além de oferecer produtos a preços muito baixos na universidade. Todas as semanas, Adrien sai em busca de roupas para seus desfiles e para as vendas que promove com frequência na universidade.
Um dos lugares que Adrian encontra uma grande quantidade de roupas em excelente estado é uma das lojas do projeto Emmaüs, organização que conta com 122 comunidades na França, beneficiando diretamente cerca de 4000 “compagnons”, pessoas que trabalham no projeto. Emmaüs foi criado em 1949 como uma maneira de ajudar pessoas pobres no pós-guerra. A ideia inicial era reunir doações de roupas, móveis e utensílios domésticos, vendidos em benefício daquelas pessoas.
Morador de Pessac, Adrien dirige 25 quilômetros até Parempuyre, onde está localizada a maior loja Emmaüs da região de Bordeaux, localizada em um barracão de 1200 metros quadrados. Todos os dias chegam novidades, que são doadas pela comunidade e por parceiros. Antes de serem vendidas, as mercadorias passam por triagem e por recuperação. Cada unidade Emmaüs conta com oficinas de móveis e de eletrodomésticos. Uma parte dos objetos é vendida e a outra é doada para associações que atendem pessoas carentes.
A quantidade de produtos é tão grande que existe uma área externa duas vezes maior que a parte coberta, que abriga produtos de jardinagem e louças. Em um anexo menor, existe uma sala com cerca de 10 mil livros, desde clássicos de bolso até dicionários, livros de fotografia e de arte, todos em excelente estado. Os produtos comercializados nas lojas Emmaüs têm preços convidativos: um armário grande de madeira pode custar 90 euros, uma sacola grande de roupas – muitas delas novas – custa menos de 5 euros, preço muito abaixo mesmo em se tratando de lojas de artigos de segunda-mão. Cada livro de bolso custa 1 euro e os livros de arte podem ser comprados por menos de 4 euros.
Caça ao tesouro
Às 14 horas, as portas da loja se abrem para receber os compradores. Adrian espera do lado de fora junto com cerca de 100 pessoas, que esperam ansiosas diante do portão metálico. Minutos antes, dentro da loja, o diretor da unidade Emmaüs de Parempuyre, Thierry Haluin, um homem de cerca de 40 anos robusto e bem-humorado, passa as últimas coordenadas para a sua equipe, que vai atender os clientes em mais um dia de vendas. Sua comunidade conta com 7 funcionários e 44 compagnons – estes últimos recebem moradia, alimentação e uma ajuda de custo. Thierry relata que, em sua unidade, os compagnons provêm de 14 países diferentes.
“Todos os dias é a mesma coisa”, diz ele com um sorriso ao repórter do Plural, referindo-se aos clientes que buscam entrar na loja o mais rápido possível para poder pegar os produtos que acabaram de chegar. É como uma caça ao tesouro. Thierry explica que o perfil dos compradores varia muito: pode ser de colecionadores, pessoas de baixa renda que estão em busca de algum produto para suas casas, proprietários de brechós ou de lojas que estão atrás de roupas de marca, curiosos ou pessoas que procuram um artigo em específico. “Para nós, o que importa é que produtos que seriam dispensados estão sendo colocados novamente em circulação e que, com o dinheiro dessa venda, conseguimos manter a nossa comunidade”, diz Thierry.
Trabalho e moradia
Os compagnons moram em duas vilas mantidas com o dinheiro das vendas e doações de parceiros. Uma delas foi criada em 2002 e outra em 2012. Eles vivem em estúdios de 20 a 22 metros quadrados. As vilas contam com um espaço de lazer, partilhado entre as crianças e os adultos. Há também um refeitório, que fornece todos os dias alimentos para cerca de 60 pessoas. “A primeira coisa que oferecemos para alguém que procura ajuda no Emmaus é um café ou uma refeição”, explica Thierry. “Se nós comemos bem, trabalhamos bem”. O refeitório é um importante espaço de trocas e de socialização. “É aqui que a gente conversa e faz planos”.
O trabalho dos compagnons é organizado de acordo com as necessidades de produção e os talentos. Alguns deles atuam nas oficinas, recuperando móveis e eletrodomésticos, outros trabalham na triagem e alguns atuam diretamente com o público, vendendo os produtos. “Pensamos na nossa comunidade que nada é descartável, as pessoas não são descartáveis”, explica Thierry. Ele próprio pôde passar por esta experiência de trabalho durante seu processo de recuperação e mudança.
Da rua para a marcenaria
Thierry está na organização Emmaüs desde 2008. Aos 23 anos, mesmo depois de ter obtido uma formação técnica, “andava meio sem rumo” e acabou morando na rua por seis meses, na cidade de Montpellier, uma das mais importantes do sul da França. Sem conseguir emprego e também com dificuldade de se adaptar à vida produtiva, foi obrigado a pedir ajuda a integrantes do projeto Restaurant du Coeur, que fornece refeições para a população pobre na França, mas foi encaminhado para a comunidade Emmaüs daquela cidade. Devido à falta de vaga na comunidade, foi enviado para a unidade de Parempuyre.
“Foi aí que encontrei as duas coisas de que estava mais precisando: um lugar para morar e para trabalhar”, conta ele, que foi recebido na estação de trem pelo diretor do projeto na época. No início, começou trabalhando como marceneiro, consertando os móveis que são doados para a organização. Mas aos poucos foi sendo incorporado na loja. Como descobriu um talento para liderança, foi convidado para assumir a coordenação do projeto em um anexo que fica a 80 Km da unidade de Parempuyre, onde permaneceu por quase um ano. Em 2012, foi convidado para assumir interinamente o lugar do coordenador, que havia sido demitido. Desde essa época está à frente da organização em Parempuyre.

Thierry destaca que foi acolhido num momento bastante difícil de sua vida. A possibilidade de integrar uma comunidade e ver o resultado do trabalho a cada dia ajudou na recuperação. “Comecei a ver que o meu trabalho estava dando resultados”, comenta. No entanto, destaca que nem tudo são flores. Entre as obrigações dos ingressantes estão a dedicação ao trabalho e o controle em relação ao álcool e drogas e o bom comportamento. “Nem sempre isso ocorre. Então, a gente tem que ser firme, mas também compreensivo, pois geralmente são pessoas que têm histórias de muito sofrimento”, conta.
Descobrindo talentos
A maior parte dos compagnons de Emmaüs passou por algum tipo de dificuldade ao longo de sua vida. Este foi o caso de Ilona (que pediu ao repórter do Plural para divulgar apenas seu prenome), que nasceu na Rússia, país onde se formou em enfermagem e em psicologia. Ela trabalhou como enfermeira durante 15 anos e mais tarde como psicóloga. Sua permanência no país de origem se tornou cada vez mais difícil, e em 2017 resolveu migrar.
Ao chegar na França, no entanto, teve dificuldade em conseguir trabalho em suas áreas de formação. Foi quando recorreu a uma comunidade Emmaüs, e acabou sendo acolhida como compagnon, assumindo algumas atividades em Parempuyre. Devido a seu interesse e empenho, foi contratada pela organização, e hoje é coordenadora. Seu trabalho é acolher novos compagnons, que estão precisando de auxílio e que, ao mesmo tempo, podem atuar no projeto. “São muitas atividades que a gente tem que desenvolver para quem está recomeçando a vida”, diz ela.
O coordenador adjunto do projeto de Parempuyre, Nasser Bendella, resume bem o percurso que muitos compagnons fazem dentro do projeto Emmaües: “A gente começa a trabalhar aqui e acaba descobrindo novos talentos. As pessoas geralmente passam por uma formação para desempenhar alguns ofícios bem específicos. A gente aqui no Emmaüs aprende com a vida, para satisfazer as necessidades do momento”, completa ele, que está na organização desde 2012. Nascido na Argélia, Nasser chegou à França em 2010. Depois de procurar sem sucesso trabalho em diversos lugares, uma mulher acabou lhe indicando a comunidade Emmaüs. No projeto desde essa época, ele se tornou coordenador adjunto em novembro de 2014.
À sombra de Abbé Pierre
Quem entra pela porta metálica da loja Emmaus de Parempuyre e olha para a primeira parede à direita pode ver uma série de imagens retratando um homem idoso que lembra, para quem é brasileiro, o rosto do pedagogo brasileiro Paulo Freire, só que com a face mais esguia. Trata-se de Abbé Pierre (1921-2017), um religioso francês que, até meados do ano passado, era considerado um heroi nacional. Foi ele que criou em 1949 a organização ao ajudar uma pessoa que estava procurando comida e um lugar para morar.
Ex-sacerdote franciscano e membro da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial, Abbé Pierre dedicou sua vida ao trabalho social e à ajuda humanitária. Sua imagem praticamente desmoronou depois que foi revelada uma série de violações de mulheres. Apesar disso, a entidade tem vindo a público afirmando que está comprometida em lidar com as revelações com transparência, entendendo que o trabalho social deve continuar a ser realizado. “Na verdade, é preciso separar as coisas. O projeto tem uma longa história na França e sua ação é positiva para a população mais pobre”, diz Adrian, que fala consternado de Abbé Pierre, como a maior parte dos franceses que foram impactados pelas revelações.
Até a semana que vem
Enquanto fala ao repórter de Plural sobre o forte impacto que as revelações sobre Abbé Pierre para os franceses, Adrien examina de forma cuidadosa e sem pressa as camisas, gravatas e calças penduradas nas araras. “Eu não tenho pressa. Se conseguir achar algum artigo bacana, está ótimo. Se não encontrar, não tem problema”, diz ele. No início do mês de setembro, Adrien realizou um desfile no pátio da Universidade Bordeaux Montaigne com combinações de roupas de estilistas famosos como Pierre Cardin, Yves Saint-Laurent e muitas roupas dos anos 1980, que são a sua paixão. A ideia foi destacar a importância do reaproveitamento das roupas e o fato de que as roupas compradas em um projeto como Emmaüs beneficia uma grande quantidade de gente, como as pessoas que compram, os funcionários e os compagnons.
São 17 horas e é hora de voltar para casa. Com 8 euros, Arien comprou três camisas, três gravatas e dois discos em vinil. Seus vizinhos, que ganharam uma carona até o projeto, compraram cobertores, pratos e alguns produtos para jardinagem. “Aqui vale a pena. E cada vez há um sabor de surpresa”, diz ele. “Na semana que vem estarei de volta para conferir as novidades”.