A prefeitura de Curitiba vai apurar as circunstâncias da morte de um homem de 40 anos na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Boa Vista, na madrugada do último domingo (23). A família contesta a causa do óbito, atestada como laringite e amigdalite aguda. Eles dizem que, antes de morrer, o segurança apresentava falta de ar intensa e, mesmo a pedido da enfermeira da unidade, o médico de plantão não deu prioridade ao socorro do paciente, que chegou ao local encaminhado pelo Samu.
Vitor Lourenço da Silva e a mãe chegaram na unidade por volta das 3h de domingo, quase 24 horas depois de os primeiros sintomas começarem a ser notados pelo segurança. Segundo a prima, Jéssica Matias Pereira, ainda no sábado pela manhã Silva passou a reclamar de inchaço na garganta e dificuldade de engolir.
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“Eu falei que poderia ser íngua e disse para procurar um médico. Ele concordou. Foram as últimas palavras que troquei com ele”, conta.
Como não melhorou ao longo do dia, Vítor buscou por ajuda médica no fim da noite de sábado na UPA do Campo Comprido, onde, conforme relato da família, foi atendido e medicado com analgésico, corticoide e antibiótico à base de benzilpenicilina. De volta em casa, viu os sintomas piorarem e passou a apresentar sinais interpretados pelo serviço de emergência do Samu como crise alérgica.
“Ele saiu correndo para o terreno, onde tem outras casas da família ali, e acordou todo mundo porque sentia tudo fechando e não conseguia respirar. Ligamos para o Samu, os socorristas mandaram correr o mais rápido possível para um hospital, mas a gente teve de esperar a ambulância porque não temos carro. E o Samu veio e levou meu primo para a UPA do Boa Vista”.
Silva passou pela triagem na UPA, mas não teria recebido identificação de acordo com o Protocolo de Manchester – que classifica o atendimento dos pacientes conforme o nível urgência ou emergência aferido pela equipe de enfermagem, as “pulseiras”. Ainda segundo a prima, a enfermeira chegou a bater na sala do médico e solicitado para que ele fosse atendido com prioridade – à frente dos demais –, mas o profissional não socorreu o paciente a tempo.
“Depois de medirem a pressão, ele ficou lá esperando. O último sinal foi que ele escorregou na parede, fez xixi ali mesmo, e se contorceu. O próprio pessoal que já tinha sido atendido é que correu, começou a gritar e ajudou a colocar meu primo numa maca. Veio só a enfermeira, que fez massagem cardíaca. Depois levaram ele para dentro e vieram após 40 minutos dizer que ele estava morto”, conta Pereira.
Além de alegar negligência, a família do segurança mostra contrariedade com a causa descrita no atestado de óbito.
“O doutor não saiu mesmo com todo mundo desesperado pedindo auxílio. A gente entende a dificuldade que é depender do Sistema Único de Saúde, porém há casos e casos. Pelo menos se tivesse colocado oxigênio. E uma dor de garganta provocar tudo isso? O mínimo que a gente queria era uma explicação”.
De acordo com a prima, apesar de obeso, Silva não tinha, até então, diagnóstico de comorbidades e não era sedentário.
Em nota, a prefeitura se solidarizou com a família e disse que vai instaurar um procedimento para analisar todo o atendimento prestado a Silva, “para melhor avaliar as condutas clínicas adotadas e então tomar as providências pertinentes”.