Pular para o conteúdo

Se roupa é para comunicar, quem está falando melhor com os eleitores?

Ana Júlia se veste como se estivesse em “diretórios acadêmicos” porque é lá que a maior parte do seu eleitorado está

Se roupa é para comunicar, quem está falando melhor com os eleitores?
Foto: Divulgação
Publicado:

Nesta semana, a forma de se vestir de uma deputada estadual virou motivo de debate na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). O parlamentar Ricardo Arruda (PL) tentou desqualificar a parlamentar Ana Júlia (PT) afirmando que as roupas dela mais pareciam trajes a serem usados em um diretório acadêmico do que em uma casa legislativa.

Na Alep, os deputados são obrigados, por regimento, a usar traje passeio completo (inciso 1 do artigo 121). De acordo com o Caderno de Cerimonial, Protocolo e Etiqueta, editado pelo Instituto Federal do Paraná (IFPR), esse tipo de traje exige que os homens usem paletó, calça, camisa, gravata e sapato de couro. Já as mulheres, segundo a publicação, podem usar “inúmeras variações” desde que tenham “bom senso e critério”. Não me parece, no caso de Ana Júlia, que houve alguma falta de bom senso no vestir. A parlamentar geralmente se apresenta com trajes compostos e adequados aos seus 25 anos de idade.

A deputada petista é uma jovem liderança da geração Z. Seguramente seu eleitorado se concentra nesta mesma faixa etária. Tal público, há muitos anos vem questionando a forma de se vestir em ambientes de trabalho. Tênis, camisetas, calças largas e moletons são frequentes nos “looks do dia”. Em 2024, a revista Drapers, em parceria com a empresa BigCommerce, divulgou um relatório que mostrava que os nascidos entre 1997 e 2012 buscam se vestir com conforto, de forma autêntica e se inspiram em pessoas reais.

Já o deputado do PL é da geração X, que cresceu no auge da televisão e foi muito influenciada pela forma de se vestir das pessoas que apareciam nas telinhas. Sendo assim, se políticos, executivos e pessoas bem-sucedidas profissionalmente faziam uso de um figurino tradicional, com alfaiataria, ternos, tailleurs, ombreiras e afins, é natural que o nobre parlamentar pense que essa é a única forma de se vestir para demonstrar a autoridade que se deposita nos representantes eleitos pelo povo.

Como diria Michael Saward no livro “The Representative Claim”, essas representações tradicionais acabaram impondo “limites indevidos ao pensamento criativo sobre quem, ou o quê, pode ser representado politicamente”. O que me faz voltar a pergunta do título desse artigo: Se roupa é para comunicar, quem está falando melhor com os eleitores?

Como pesquisadora de comunicação política, venho realizando uma série de grupos focais para investigar o impacto da imagem na percepção do eleitor. Os resultados serão apresentados na minha dissertação de mestrado, ainda este ano. Mas já posso trazer alguns spoilers. O combo terno e gravata é um dos mais associados à corrupção e à velha política. Exatamente pelos estereótipos criados pela televisão e pelo cinema. Eles exibiram, incansavelmente, em notícias reais e na ficção, políticos vestidos dessa forma envolvidos nos piores casos de desvio de dinheiro, chantagens e negociatas. Não é por acaso que muitas casas legislativas já aboliram a exigência de tal traje, ou têm projetos para tal. Inclusive no Congresso Nacional (dê uma olhada no PRC 74/2023).

No fundo, acredito que Arruda saiba disso. Basta uma olhada nas suas redes sociais digitais para perceber que, com exceção do plenário, ele geralmente faz uso de roupas mais causais. Pólos, blusas da seleção brasileira, camisetas e jeans. Um movimento típico de quem tenta mostrar o outro lado do ser humano eleito.

Ana Júlia se veste como se estivesse em “diretórios acadêmicos” porque é lá que a maior parte do seu eleitorado está. Na universidade. E ela precisa se vestir para se conectar com quem ela representa. A deputada consegue, a cada fala em plenário, produzir cortes para as redes sociais em que a imagem dela mostra que ela é uma jovem como eles. Que está ocupando espaços na política para lutar por essa geração. Já o deputado, precisa todos os dias mostrar que ele não é um engravatado burocrata que só pensa nas regalias da política.

Ana Júlia aproveita a brecha nas convenções sociais sobre o dress code para se comunicar com quem coloca ela na tribuna a cada eleição. Em vez de ser menosprezado, seu vestuário precisa ser mais bem avaliado e estudado para que profissionais da comunicação consigam nortear as escolhas de seus assessorados incluindo, também, a imagem que eles apresentam. É isso que venho tentando estruturar em minhas pesquisas.

Deniza Gurgel

Deniza Gurgel

Deniza Gurgel é jornalista e estrategista de imagem política e é mestranda no IDP-DF. Faz parte do grupo de pesquisa Informação Pública e Eleições (IPE) da Universidade de Brasília (UnB)

Todos os artigos

Mais em Artigos

Ver todos

De nossos parceiros