Quem manda nas Câmaras do Paraná: como o poder mudou de mãos, mas pouco de nomes, desde 1996
Em oito eleições municipais, o PMDB perdeu mais da metade dos seus vereadores e o PSDB perdeu quase oito a cada dez. Mas os mesmos nomes — e, em dezenas de cidades, os mesmos sobrenomes — seguiram ocupando as cadeiras, só que sob siglas diferentes.
Há trinta anos, o mapa das Câmaras Municipais do Paraná era simples de ler. Em 1996, o PMDB era o maior partido em quase todas as esquinas do estado — e o PSDB, então no auge do governo Fernando Henrique, ocupava o segundo lugar com folga. Juntos, os dois partidos elegeram 1.416 dos 4.020 vereadores em todo o Paraná. Era mais de um terço de todas as cadeiras do estado, distribuídas pelos 399 municípios.
Em 2024, esses mesmos PMDB (agora MDB) e PSDB elegeram 517 vereadores. Uma queda de quase mil cadeiras. O lugar que eles deixaram não voltou ao mesmo dono: foi dividido entre um partido que sequer existia até 2011 — o PSD —, um Progressistas reembalado, um PL bolsonarizado e dezenas de siglas menores que tornaram a aritmética das câmaras paranaenses irreconhecível.
O que não mudou foi quem senta nas cadeiras. Nove pessoas se elegeram vereadoras em todas as oito eleições municipais analisadas, trocando até cinco siglas no caminho. Mais de 4.700 pessoas mudaram de partido pelo menos uma vez sem deixar de ser eleitas. E em cidades pequenas, sobrenomes inteiros — Bubna em Guapirama, Hornung em Reserva, De Freitas Aguiar em Barra do Jacaré — atravessaram trinta anos sem sair das Câmaras.
O retrato que mudou
O gráfico abaixo mostra a trajetória dos dois partidos que dominaram a política paranaense por duas décadas — PMDB+MDB e PSDB — junto com o partido que tomou o lugar deles, o PSD. As três curvas, juntas, contam a história do realinhamento: descida lenta de uns, descida acelerada de outros, ascensão fulminante.
O fim de um ciclo
Vereadores eleitos no Paraná, por bloco partidário, em cada eleição municipal — 1996 a 2024.
Fonte: TSE — base de candidatos eleitos para vereador no Paraná. Análise: Plural.
Em 1996, o PMDB sozinho elegia 835 vereadores no Paraná — um em cada cinco vereadores do estado. O partido era hegemônico em 19 câmaras em que tinha maioria absoluta — mais cadeiras do que todos os outros partidos somados. Mesmo na pior eleição da década seguinte (2000), elegeu 638 e ainda assim era o terceiro maior. A queda começou pequena, mas nunca parou.
O PSDB tem uma história parecida, mas mais brusca. Em 2000, com o tucanato em alta no nível federal, o partido bateu seu recorde paranaense: 696 vereadores. Era a maior bancada de qualquer sigla em todo o estado. A partir dali, o número só cai — e o desabamento mais visível acontece entre 2016 e 2020: o partido sai de 401 para 169 vereadores, perde mais de metade da sua presença municipal em uma única eleição. Em 2024, eleitor algum dos 27 deputados estaduais do PR é tucano. E nas câmaras o partido caiu a 127 cadeiras — pouco mais do que os 115 que o PT, em formação, tinha em 1996.
Em três eleições, o PSDB perdeu seis em cada dez vereadores que tinha. Em duas, o PMDB virou MDB e parou de fazer maioria absoluta em qualquer câmara do estado.
O encolhimento do PMDB
O PMDB foi, durante quatro eleições seguidas — 1996, 2004, 2008 e 2012 —, o maior partido das câmaras paranaenses. A força do partido tinha duas pernas: estava em todo lugar (elegia em mais de 350 dos 399 municípios) e dominava as câmaras pequenas. Em 56 ocasiões ao longo dos oito ciclos, um único PMDB fez mais da metade das cadeiras de uma câmara municipal — quase o dobro do segundo colocado em maiorias absolutas.
Cidades como Catanduvas (Centro-Oeste) repetiram a hegemonia peemedebista quatro vezes. Cafeara, Rondon e Santa Lúcia, três vezes cada. Em 2008, no auge do segundo Lula e do governo Requião no estado, o PMDB ainda fazia 13 dessas maiorias absolutas. Em 2016 — última eleição com a sigla PMDB — caiu para uma única. Em 2020 já era MDB e fez três. Em 2024, apenas uma.
O encolhimento, eleição a eleição
Selecione partidos para comparar trajetórias. Por padrão: PMDB+MDB, PSDB e PSD.
Fonte: TSE; análise Plural. PMDB foi rebatizado MDB em dez/2017.
Por que o PMDB minguou? Várias respostas se sobrepõem. Lava Jato e desgaste da marca em 2016. A fusão simbólica em MDB no fim de 2017, sem repor o nome local. A debandada de prefeitos para o PSD a partir de 2020 — para parte das lideranças, era o mesmo conteúdo com outra embalagem mais funcional. Em paralelo, o avanço do bolsonarismo em 2020 e 2024 levou outro pedaço da base à direita partidária, em PL e Progressistas. Sobrou para o MDB a estrutura clássica, mas magra: 390 vereadores em 2024, ou 53% a menos que os 835 de 1996.
A queda do PSDB
A história do PSDB no Paraná é o caso clássico de partido que perdeu o porto sem ganhar mar aberto. Era a sigla do bem-pensante de centro, com prefeitos em Curitiba (Beto Richa, Cassio Taniguchi, Rafael Greca em diferentes momentos) e governadores no Palácio Iguaçu por dois mandatos seguidos (Beto Richa, 2011–2018). Nas câmaras, foi sempre top 2 ou top 3 — até 2016.
O fôlego curto do tucano paranaense
Vereadores eleitos pelo PSDB no Paraná. Em 20 anos, o partido perdeu quatro em cada cinco cadeiras.
Fonte: TSE; análise Plural.
O ponto de virada é claro. Entre 2016 e 2020, o PSDB perdeu 232 vereadores — mais do que todo o tamanho do partido em 2024. A marca tucana, depois das delações da Lava Jato no estado, da derrota nacional em 2018 e da debandada para Novo, PSD e Republicanos, virou um peso. Em 2024, o partido elegeu menos vereadores no PR (127) do que em qualquer outro ano da série. Em nenhum município paranaense o PSDB sozinho ficou com mais da metade da câmara. É a primeira vez na série em que o tucanato sai do mapa das maiorias absolutas.
O novo dono da casa: PSD
Enquanto PMDB e PSDB encolhem, o PSD cresce numa curva quase espelhada. O partido foi criado em 2011 por um grupo liderado nacionalmente por Gilberto Kassab e, no Paraná, foi montado a partir de quadros vindos do DEM, do PMDB, do PSDB e do PP. Em 2012, na sua estreia, elegeu 294 vereadores. Em 2020 chegou a 658. Em 2024, com o partido posicionado como casa preferida dos prefeitos governistas no estado, virou a maior bancada municipal do PR de toda a série analisada: 808 cadeiras.
De zero ao topo em três eleições
PSD: vereadores eleitos no Paraná. O partido estreou em 2012 e ultrapassou todos os concorrentes em 2024.
Fonte: TSE; análise Plural. Os 4 e 6 vereadores em 1996 e 2000 são de uma sigla homônima anterior, sem relação com o PSD atual.
Mais do que o tamanho da bancada, a marca do PSD é geográfica: nas eleições de 2020 e 2024, o partido somou 31 maiorias absolutas em câmaras paranaenses — mais do que PMDB+MDB nos mesmos dois ciclos (4) e mais do que qualquer outro partido em qualquer outro par de eleições da série.
A era da fragmentação — e o retorno da concentração
O retrato do Paraná em 2016 é o mais barulhento da série. Foi a eleição em que o PMDB elegeu 466 vereadores no estado — pouco mais da metade do que tinha em 1996 — mas em que 30 partidos diferentes elegeram pelo menos um vereador no estado, recorde absoluto. O índice efetivo de partidos saltou de 6,6 (1996) para 15,4, número que descreve um sistema sem nenhum protagonista claro.
Quão fragmentadas eram as câmaras em cada ano
Barras: municípios com maioria absoluta de uma sigla. Linha: número efetivo de partidos (Laakso-Taagepera) no PR.
Fonte: TSE; cálculo Plural. Quanto maior o "número efetivo", mais distribuídas estão as cadeiras entre partidos.
A consequência nas câmaras locais foi imediata: em 2016 só quatro dos 399 municípios paranaenses tiveram um partido sozinho com mais da metade dos vereadores. É de longe o piso histórico — em 1996, esse número tinha sido 50. As Câmaras se tornaram tabuleiros de cinco, seis, sete partidos cada, com bancadas pequenas e independentes umas das outras.
O movimento, porém, se inverteu em 2020. A entrada do PSD como hegemon estadual, somada a uma reforma eleitoral que penalizou nanicos, devolveu poder concentrador às câmaras: foram 50 maiorias absolutas em 2020, mesmo número de 1996. Em 2024, ainda foram 30 — quase oito vezes mais que o piso de 2016. O número efetivo de partidos voltou de 15,4 a 9,1, perto do nível de 2008.
A fragmentação extrema de 2016 não veio para ficar. Veio para abrir espaço. Quem ocupou o vácuo foi o PSD — e, em menor grau, o PP e o PL.
Eleição a eleição: quem mais elegeu
Use os botões abaixo para comparar o ranking dos dez maiores partidos em cada eleição municipal do Paraná. As barras estão proporcionais ao maior partido de cada ano.
Top 10 partidos em vereadores eleitos no Paraná
Selecione o ano. Os números à direita são vereadores eleitos pela sigla naquela eleição.
Fonte: TSE; análise Plural.
Os mesmos nomes, outras siglas
O sistema partidário do Paraná mudou. As pessoas que ocupam as cadeiras das Câmaras, em boa medida, não. Em 30 anos, — brasileiros e brasileiras se elegeram vereadores no estado. Mas só uma minoria foi eleita uma única vez: — conseguiram repetir a façanha em pelo menos dois ciclos. — chegaram a cinco vitórias ou mais. E há quem tenha sido eleito em todos os oito ciclos analisados — nove pessoas que atravessaram o Paraná do Plano Real ao governo Lula 3 sem perder uma única eleição municipal.
O detalhe é que ninguém faz isso pela mesma sigla. Para vencer oito eleições seguidas, mudou-se de partido a cada dois ou três ciclos — um espelho perfeito de como a estrutura partidária local foi sendo reembalada. Os octa-eleitos abaixo trocaram, em média, quatro siglas diferentes ao longo da carreira.
Os octa-eleitos: vereadores em todas as 8 eleições
Pessoas eleitas vereadoras no Paraná em 1996, 2000, 2004, 2008, 2012, 2016, 2020 e 2024.
Fonte: TSE; análise Plural. Pessoas identificadas pela combinação município + nome completo na base eleitoral.
O caso mais expressivo de mudança de sigla é o de Vagnerlei Gonçalves de Almeida, em Santa Mariana, no Norte Pioneiro: sete vitórias eleitorais consecutivas em seis partidos diferentes — PFL, DEM, PP, PPS, PROS e PSDB. Na mesma cidade, José Antônio Colombo desfilou por outras seis siglas (PDT, PFL, PP, PPS, PROS, PSD). Não há nada de ilegal ou anômalo nisso: a janela de mudança partidária para vereadores é razoavelmente aberta, e a fidelidade é renovada a cada ciclo na convenção. O que os números mostram é que, em muitos municípios, a sigla é um ornamento — quem importa é o nome.
Os campeões da troca de partido
Vereadores que se elegeram em 5 ou mais ciclos por 4 ou mais partidos diferentes.
Fonte: TSE; análise Plural.
Mais de — pessoas — quase um quarto de todos os vereadores eleitos no PR no período — foram eleitas por pelo menos duas siglas distintas. — passaram por três ou mais. Esses números compõem o pano de fundo do encolhimento de PMDB e PSDB: parte das cadeiras "perdidas" pelas duas siglas tradicionais não migrou para os adversários — apenas trocou de etiqueta sob o mesmo ocupante.
As famílias que não saem
Se trocar de sigla é parte do jogo, em algumas cidades pequenas do Paraná o jogo vai além: troca-se de sigla, mas não de família. Para identificar essas dinastias municipais, cruzamos os sobrenomes (excluindo nomes muito comuns como Silva, Santos, Oliveira ou Souza, que aparecem em todo lugar) com o município de eleição. O critério: ao menos três pessoas distintas com o mesmo sobrenome eleitas vereadoras no mesmo município, em pelo menos cinco dos oito ciclos.
O resultado é um catálogo de clãs. Em 12 municípios, um mesmo sobrenome incomum emplacou três ou mais parentes diferentes em todas as oito eleições da série. Em outros 14, em sete delas. Em 33, em seis. São, em geral, cidades pequenas, do interior, em que a política se confunde com vínculos familiares — e em que duas, três, quatro pessoas com o mesmo sobrenome aparecem na lista de eleitos a cada ciclo.
Os clãs municipais — sobrenomes que não saíram da Câmara em 30 anos
Sobrenomes incomuns presentes na lista de eleitos do mesmo município em pelo menos cinco das oito eleições.
Fonte: TSE; análise Plural. Excluem-se sobrenomes muito comuns (Silva, Santos, Oliveira, Souza, Pereira, Lima, Costa, Carvalho, Almeida e similares). Sobrenomes derivados de "Filho", "Junior", "Neto" e partículas (de, da, dos) foram normalizados.
O caso mais impressionante é o dos Bubna, de Guapirama, no Norte do estado: sete pessoas distintas com o sobrenome se elegeram vereadoras na cidade — Eder Thomaz, Edinei, Geovani, Juliano, Jusandro, Kinidi André e Tomaz Junior. Em Barra do Jacaré, todos os De Freitas Aguiar se elegeram (sete deles, do Adalberto ao Wagner). Em Reserva, os Hornung contam Fernando, Flávio Neto, Jairo, Luiz Henrique, Ricardo e Vera Lúcia. Em Cândido de Abreu, os Derbli emplacaram quatro pessoas em 16 mandatos somados — uma média de dois por eleição. Em Rio Bom, os Norbiato fizeram 14 mandatos em quatro pessoas.
Quase nenhum desses clãs se manteve no mesmo partido. Os Bubna passaram por PFL, PP, PPB, PSD, PSDB, MDB e PL. Os Hornung migraram entre PMDB, MDB, PSDB, DEM e PSD. Os Aguiar, sempre em torno do PSDB e do DEM, mas não exclusivamente. A sigla muda; o sobrenome fica.
Em 12 cidades do Paraná, três ou mais membros de uma mesma família — sobrenome incomum — ocuparam cadeiras de vereador em todas as oito eleições municipais desde 1996.
Por que isso importa
Câmara Municipal não é o último degrau da política — é o primeiro. É onde se forma quem vai disputar prefeitura daqui a quatro anos, deputado estadual daqui a seis, federal daqui a dez. O encolhimento do PMDB e do PSDB no Paraná, observado pela base, ajuda a explicar duas coisas que os jornais costumam tratar separadamente: por que o tucanato simplesmente desapareceu da Assembleia Legislativa em 2022 e por que o MDB, que tinha o governador (Carlos Massa Ratinho Junior, que migrou para o PSD), se viu sem chão em 2024.
Mas a outra metade da história é a da continuidade — invisível em qualquer ranking de partidos. Nove pessoas se elegeram em todos os oito ciclos. Mais de quatro mil e setecentas mudaram de sigla sem deixar a cadeira. E em pelo menos 12 cidades pequenas, três ou mais membros do mesmo sobrenome atravessaram três décadas seguidas nas Câmaras. A foto política que o Paraná entrega em 2024 é a de um realinhamento partidário sobre uma base humana surpreendentemente estável.
O resultado é uma política municipal com dois donos antigos enfraquecidos, um dono novo confortável no topo, e um sistema partidário que, depois de viver sua maior fragmentação histórica em 2016, voltou a se concentrar — em mãos diferentes na contagem das siglas, e nas mesmas mãos na contagem das pessoas.
Mais de Rosiane Correia de Freitas
Ver todosDe nossos parceiros
Professoras ainda esperam reconhecimento da Prefeitura por trabalho na pandemia
Lei autoriza pagamento de benefícios congelados, mas Prefeitura ainda não demonstra reconhecimento por trabalho de professoras durante a pandemia
Greve das professoras é também pelas famílias e pelas crianças com neurodivergência
Prefeitura de Curitiba falha no apoio à inclusão; faltam de cinco a 11 profissionais por escola
Caronas da BlaBlaCar, mais do que eficientes, oferecem acessibilidade e segurança para os usuários
Serviços de carona têm se mostrado cada vez mais importantes na conexão de pequenas cidades. A plataforma também integra ônibus em uma solução multimodal que amplia o acesso à mobilidade e fortalece a conectividade regional
Conheça a agência curitibana que faz as redes sociais de Dalton Trevisan, Caetano Galindo e André Tezza
A MOMO estreia movimentando a cena cultural e em seu portfolio conta com nomes como o escritor Caetano W. Galindo e o fotógrafo premiado internacionalmente André Tezza