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No discurso de Ratinho Jr., Celepar é obsoleta; para investidores, é vendida como primeira big tech do Paraná

Documento interno classifica estatal como mina de ouro para investidores; para a população, é apresentada como "cabide empregos"

No discurso de Ratinho Jr., Celepar é obsoleta; para investidores, é vendida como primeira big tech do Paraná
Governador Ratinho Jr trata a Celepar como "cabide de empregos", mas investidores têm acesso a análise bem diferente. Foto: Jonathan Campos/AEN

O governador Ratinho Jr (PSD) tem declarado que a Celepar é "obsoleta" e um "cabide de empregos", o que justificaria a privatização da companhia. Não é o que diz um documento interno da própria Celepar, apresentado a investidores, que classifica a estatal de tecnologia da informação como uma empresa altamente lucrativa, com potencial para se tornar a "primeira big tech do Paraná".

O Plural teve acesso a um documento produzido pelo Bradesco BBI, banco de investimento do Bradesco, com informações da companhia para o mercado. Intitulado “Memorando Confidencial de Informações – Projeto NEX”, o levantamento feito a pedido da Celepar mostra que a companhia tem uma situação financeira sólida, com alto potencial de crescimento em um mercado em expansão.

No dia 27 de fevereiro, em nova defesa da privatização, Ratinho Jr disse que não poderia deixar a companhia "virar os Correios". A comparação não faz nenhum sentido: o governador equiparou uma estatal federal com uma dúvida de R$ 8,5 bilhões a uma empresa lucrativa, com vários contratos públicos vigentes.

Segundo o memorando do Bradesco BBI, a Celepar teve uma receita bruta de R$ 576 milhões e um lucro líquido de R$ 132 milhões em 2o24. O documento fiz ainda que 61% da receita da estatal é investida em insfraestrutura, sustentação e melhorias, e outros 39% em desenvolvimentos, produtos e consultorias. Os principais segmentos são trânsito, gestão pública, saúde e educação.

Primeira big tech do Paraná

A apresentação para possíveis investidores diz ainda que a Celepar "tem todos os atributos para se tornar a primeira big tech do Paraná – e a mais confiável do Brasil". A companhia, segundo o documento, tem capacidade para se tornar "a principal investidora em startups do Paraná", a "maior formadora e empregadora de talentos de TI" e a "principal fornecedora de serviços de dados e inteligência artificial para governos e empresas da América Latina".

Documento interno da Celepar: lucratividade superior à de concorrentes (Reprodução)

Contratos públicos à venda

O governo do Paraná nunca escondeu a intenção de vender os contratos firmados com o poder público junto com a Celepar. Segundo o documento do Bradesco BBI, a companhia tem R$ 2,6 bilhões em contratos vigentes, por meio de 134 contratos ativos com 121 entidades governamentais.

(Reprodução)

A lista de dez maiores clientes reforça a possibilidade de dependência tecnológica de uma empresa privada caso a Celepar venha a ser vendida: são todos órgãos do governo do Paraná. O risco de dependência tecnológica foi apresentado pelo PSOL na Ação Direita de Inconstitucionalidade (ADI) apresentada no Supremo Tribunal Federal (STF), que levou à suspensão do leilão da companhia.

Os dez maiores clientes da Celepar: risco de dependência tecnológica / Reprodução

Além de sugerir a "privatização" de contratos junto com a companhia, o governo promete aos possíveis compradores da companhia mais lucros decorrentes de contratações do poder público. Os contratos vigentes foram assinados por uma empresa estatal, o que poderia caracterizar burla à Lei das Licitações.

No documento do Bradesco BBI, são citadas áreas em que o possível comprador poderá investir, todas ligadas a órgãos públicos: Secretaria da Segurança, Secretaria da Administração e Previdência, Detran, Secretaria da Educação, Secretaria da Agricultura e Procuradoria Geral do Estado (PGE).

Novos projetos para o governo do Paraná: mais lucros à vista (Reprodução)

O documento fala que há uma "concentração significativa de projeto reprimidos", que esses projetos "não avançaram para a fase de desenvolvimento" e que vários projetos poderiam ser entregues "e faturados mais rapidamente se houvesse uma maior capacidade operacional".

"Cabide de empregos"

O primeiro argumento utilizado por Ratinho Jr para vender a Celepar foi dado logo após a Assembleia Legislativa do Paraná aprovar a lei que autorizou a desestatização, em novembro de 2024. Segundo o governador, a privatização geraria uma economia de R$ 19 milhões com cargos comissionados.

Logo em seguida, o Plural mostrou que a Celepar vem sendo utilizada pelo próprio Ratinho Jr como "cabide de empregos", termo que passou a ser usado pelos aliados do governador para defender a privatização. Entre os empregados (que dependeriam apenas de Ratinho Jr para serem demitidos) estavam aliados políticos, ex-deputados e até o marido da cunhada do governador, Baltasar Blanco Mateus.

Após usar cargos para agradar aliados, Ratinho Jr. quer vender Celepar por “economia”
Indicados por aliados e pessoas ligadas a Ratinho Jr. ganharam cargos na companhia, agora chamada de “cabide de emprego” por apoiadores do governo

Privatização suspensa

Marcado para o dia 17 de março na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, o leilão da Celepar foi suspenso no dia 22 de fevereiro por determinação do ministro do STF Flávio Dino, relator da ADI que defende a ilegalidade da estadual que autorizou a desestatização. Um processo contra a privatização também corre no Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), que decidiu esperar a conclusão da ação no STF. No dia 6 de março, o ministro Cristiano Zanin pediu vista e suspendeu o julgamento no Supremo. Ele tem o prazo de 90 dias para apresentar seu voto.

Leia o que já foi publicado sobre a privatização da Celepar

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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