Enquanto os deputados estaduais que fazem parte da base de apoio ao governador Ratinho Júnior (PSD) na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) silenciam sobre o assunto, os vereadores de Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba, resolveram investigar o aumento no número de quedas no fornecimento de energia desde que a Copel foi privatizada, em agosto de 2023. Nesta semana os nove vereadores da cidade aprovaram uma carta de intenção para instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o tema.
Segundo a Câmara Municipal de Quatro Barras, foram feitas várias tentativas de diálogo com a companhia, em função dos relatos da população sobre interrupções frequentes no fornecimento de energia, oscilações e impactos gerados a moradores, comerciantes e serviços essenciais.
"'Pura energia' é o slogan da companhia que deveria nos abastecer com a matéria-prima de tantas atividades essenciais, mas que, infelizmente, tem se mostrado incapaz de agir com o mínimo de eficiência para prover o básico do seu serviço", disse o presidente da Câmara, vereador Fernando Cunha (PSB). "Adotar uma medida mais dura, com a proposição da CPI, nos parece a medida mais cabível".
Para o vereador Anderson Mendonça (Republicanos), a situação ultrapassou o limite do tolerável. “Nem todo apagão é apenas falta de energia. Às vezes, é um sinal de que precisamos rever processos, reforçar a segurança e agir com responsabilidade. Situações inesperadas exigem atenção, preparo e atitude e, agora, nós, vereadores, vamos partir rumo a um patamar mais elevado em defesa dos interesses do povo”.
A Câmara informou que os objetivos da CPI serão solicitar informações formais à Copel; reunir dados técnicos e documentos; ouvir representantes e esclarecer dúvidas; e garantir transparência nas informações prestadas à população.
“O eventual procedimento investigatório será conduzido com estrita observância aos princípios do devido processo legal, do contraditório, da ampla defesa, da legalidade, da impessoalidade e do interesse público, assegurando-se que toda e qualquer apuração se desenvolva de forma técnica, responsável e isenta de prejulgamentos, em consonância com o papel institucional de fiscalização atribuído ao Poder Legislativo", diz a carta aprovada.
Campanha pelo cancelamento da privatização
A Alep realizou uma audiência pública sobre o assunto em dezembro de 2025, por iniciativa dos deputados de oposição a Ratinho Júnior. Partidos, entidades sindicais e movimentos sociais lançaram uma campanha pelo cancelamento da venda da Copel. O movimento vem reunindo assinaturas para apresentar um Projeto de Lei de Iniciativa Popular que autorize o governo do Paraná a recomprar as ações da empresa que foram vendidas e retomar o controle acionário. O objetivo é coletar pelo menos 90 mil assinaturas físicas.
A privatização foi aprovada às pressas pela Alep, com apoio de 38 dos 54 deputados estaduais, em novembro de 2023. O projeto enviado pelo governo de Ratinho Jr tramitou apenas dois dias antes de ir à primeira votação no plenário e foi aprovado em quatro dias. Além da oposição, deputados que faziam parte da base governista, como Luiz Cláudio Romanelli (PSD), Marcio Pacheco (PP) e Evandro Araújo (PSD) votaram contra.
Qualidade cai, dividendos aumentam
A Copel fechou o ano de 2024 como uma das três piores concessionárias de energia do Brasil, segundo o ranking da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) divulgado em abril do ano passado. Em 2023, a companhia paranaense era a 25ª colocada na lista com 29 concessionárias. Em 2024, após a privatização, caiu para a 29ª posição, à frente apenas da CEEE, do Rio Grande do Sul, e da Equatorial, de Goiás.

A Aneel informou que no último quadrimestre de 2023 foram registradas mais de 38 mil interrupções no fornecimento de energia no Estado, um aumento de 23,6% em relação ao mesmo período de 2022. O tempo médio de atendimento aumentou subindo de 248 para 355 minutos – quase seis horas de espera.
Os problemas levaram entidades representativas do setor produtivo a questionarem a atuação da companhia. Em abril do ano passado, a Federação da Agricultura do Paraná (Faep) informou que 85% dos produtores rurais do Estado estavam insatisfeitos com os serviços da Copel. Em janeiro, a Faep enviou um ofício à companhia, ao governo do Paraná e aos deputados estaduais.
Enquanto a qualidade dos serviços piorava, em maio do ano passado o presidente da Copel, Daniel Pimentel Slaviero (irmão do prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel), previa que a companhia passaria a pagar mais dividendos para seus acionistas até 2027 – um reflexo do aumento de tarifas para o consumidor. Em discurso para os investidores, o presidente da empresa afirmou que o período para o mercado é "auspicioso" até 2027.
Depois que o governo do Paraná vendeu a maior parte de suas ações no início do segundo mandato de Ratinho Jr, transformando a empresa em corporação, a fatia de lucros que pode ser distribuída subiu para 75%. E o lucro também passou a ser ampliado com base em redução de custos (com demissão de 1,4 mil funcionários) e previsão de aumento da tarifa, segundo matéria publicada pelo Plural em maio do ano passado.

Em novembro, a Copel anunciou o pagamento de R$ 1,1 bilhão em juros sobre capital próprio (JCP) para os acionistas da empresa, o que estava previsto para ocorrer em 19 de janeiro de 2026. É o maior valor pago a acionistas desde 2021, quando a empresa distribuiu R$ 3,088 bilhões. Em 2024, a Copel pagou em JCP R$ 882 milhões em JCP e R$ 202 milhões em dividendos, num total de R$ 1,085 bilhão. Privatizada por R$ 4,53 bilhões em 2023, Copel está sendo reestruturada para fazer a migração para o Novo Mercado da B3.

